a borboleta laranja
no frescor da rega
bem perto
cheiro bom
fazer da casa uma espécie de floresta: estou quase lá. tem planta no quintal, na sala, no escritório, na cozinha, no banheiro. que calma gostosa existir assim. a louça que nunca acaba e tudo bem. o barulho que nunca acabará e tudo bem. o ônibus que tem sempre uma bunda espaçosa tomando o outro lugar e tudo bem (um dia ainda escrevo um texto especialmente sobre as bundas de atitude). aranhas passando bem perto e tudo bem. o calor me deixando mais lenta e tudo bem. o sonho que eu não entendo e tudo bem. as cortadeiras querendo meu gerânio e tudo bem. as tarefas mentais e pseudo demandas euforicamente disputando minha atenção e eu tendo de dizer a elas com todo amor possível "vão todas tomar no cu" (opa, só agora percebo que com esse texto molho meus pezinhos no lago turvo da irritação). marte em libra que precisa disto: entrar e sair da raiva com alguma poesia, com algum humor. mas a coisa arde: estou vivenciando minha fase holly.
florais ajudam, ajudam muito. esse lado irascível que aflora quando vem um barulho. só a minha pele sabe o que é: chega a queimar. ontem pra dormir foi um tanto difícil. tentei som de ventilador, som de mar, som de bugio, ruído branco, bege, lilás. até som de sapo na lagoa eu arrisquei. tava foda. meu corpo com sono versus o som repetitivo do ventilador do vizinho — que se fosse um gato miando a noite inteira ou um grilo acasalando, não me causaria insônia. mas estou bem ciente de que a minha raiva não tem razão: o vizinho estava com calor, as paredes são grudadas, ele quis se refrescar a noite inteira, assim como no inverno eu preciso do aquecedor. não, eu não tenho razão. e aí faço o quê com isso que me queima? é ela que eu preciso aprender a usar a meu favor. eis que novamente o meu alvo sou eu mesma. meu semblante sério e calmo engana bem: a estética que até a minha raiva precisa ter. minha mãe é que sabia das coisas, ela dizia que eu era bem zen: zen paciência. mas não é só uma questão de paciência: preciso encontrar a textura do escuro e nela constituir minha nova pele. sigo então nesse meu processo de transmutar essa quentura toda em alguma força interessante — transmutar a bunda folgada, o barulho que arde, em puro devir.
mas eis que o cardamomo neste café simplesmente está valendo a minha existência: tem duração que se espalha pelo infinito engolindo o mundo como faz o sol.
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Comentário do Ó: um momento de olhar por escrito.