10.9.19

"agora não pergunto mais aonde vai a estrada
agora não espero mais aquela madrugada"
(Milton Nascimento)


Vida vista da rede (foto: Fernanda Francoh)
andei lendo uns escritos antigos meus. eu que (ainda) apenas escrevo quando sou jogada nesse lugar. seja por uma presença, por uma fala, por um nada que vem, me encontra e me potencializa. ou um nada que me arranca do chão e me devasta. e nesse ato cartográfico que estou longe de terminar vou encontrando fluxos e entorpecimentos. na escrita é assim: está tudo ali entregue, estou toda ali no ato e no corpo que aquele ato produziu. fico abismada, estou pelada: tudo que sou naquele momento aparece. a escrita é minha pele, talvez. acontece então que essa nudez me permite espiar agora por que buracos andei ou, melhor dizendo, que buracos me espreita(ra)m. 

a porosidade errada que afunda o que pode-ser-em-nós tornando a gente mero caminho ou matéria para coisas que instauram um querer-ser-em-nós. resumindo: por que raios eu fui deixar de gostar da Fernanda Young se eu, no meu encontro com ela, me sentia livre e "poderosa com um capuccino na mão"? e não, eu não estou aqui hoje falando da Fernanda porque ela morreu. eu sequer estou falando dela, embora o que me faça escrever hoje seja ela, com suas fragilidades, beleza, gatos, doçura e toda essa força ingênua, desprotegida e intensamente provocativa que habitava nela — é que a morte tira de nós algumas preguiças: a morte é uma senhora forte que cansou da poeira sobre as coisas. e eu vou dizer que estou bem holly da vida, não com as pessoas que opinam de um tal modo que fazem você se sentir um imbecil se não aderir à visão de mundo delas (por elas já reza a irmã Selma), mas a coisa mesmo é comigo, é a minha porosidade avessada, descompensada, desafinada, que me incomoda profundamente: esse enfiar o pé no buraco cheio de lama e achar que estou mergulhando em fernando de noronha.

não vou escrever como quem conta uma história pra alguém. se escrita é pele, então palavra não é escolha. tenho que entrar e dançar com aquilo que passa. então à merda esse desejo de adequar frase e modos de dizer as coisas. à merda se você acha ou achava a Fernanda Young uma pseudo literatura. não é o que você acha que uma coisa deve ser ou que grau de técnica poética aquilo tem — como se esse atributo fosse universalizável e mensurável segundo os seus parâmetros — mas sim o que aquilo ao se encontrar comigo produz em mim ou o que eu me torno ao me encontrar com aquilo que me diz se algo é BOM ou RUIM pra mim. e o que eu me torno ao me conectar com aquilo que me diz que eu tenho que ler o que aquilo acha que é bom e "poesia de verdade"? ("real poetry" e a cafonice que é a arrogância). mas insisto que o foco esteja em mim, isso é importante, e não na arrogância de quem vem dizer o que é bom ou não, seja a pipoca, o filme, o livro, o autor. meu cu — que agora ando aderindo ao que eu chamo de filosofia do cu. mas acontece que eu embarquei porque algo em mim me permitiu, me lançou, deu liga e quis embarcar. então esse é agora o destino luminoso do meu olhar: o que em mim me fez embarcar no patético discurso do que era bom eu gostar ou desgostar? ai ai. penso agora por que não senti uma preguiça desse tipo de abismo. fiquei suspensa? talvez eu precisasse me perder um pouco? me desviar? como quem prova algo ruim pra só depois saber que não funciona. que cagada não ouvir a própria pulsação.

mas sabe, não importa que uma coisa às vezes demore assim. essa é a coisa boa do slow food: você espera bastante e depois vale a pena porque aquela comida boa precisou de duração para criar consistência. e é esse o processo do descagamento, do mapear nossas cumplicidades. é esse o ponto. importa é estar à espreita com todos os sentidos para criar novos sentidos.

(...)

Mas eu poderia ter dito tudo isso de uma forma mais poética e econômica:

Comendo pipoca e esquecida das horas, percebeu que a sua conexão com a lua nunca deixou de ser intensa, mesmo ouvindo do mundo que a lua era uma pseudo lua.

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Comentário do Ó: um momento de olhar por escrito.