um mestre ao contrário
no inferno não tem silêncio.
estou sempre às voltas com a questão do silêncio. mudei de casa por conta de uma parede fina que deixava passar todos os sons do vizinho. vim para uma outra casa, aconchegante e com uma varanda de onde eu olho o céu. aqui passam muitos carros e tem um bar quase em frente onde as pessoas sentam na calçada pra comer e conversar alto a qualquer hora do dia, da tarde e da noite. às vezes chegam a ocupar a rua e a fumaça do churrasco queimado sobe como uma música estragada.
me dou conta de uma necessidade quase visceral de um direito a um silêncio profundo onde eu possa não ouvir o barulho dos outros, o barulho invasivo do mundo. teve um dia que chorei o dia inteiro porque estavam arrancando a árvore que embelezava a minha janela.
durante o dia, todos os dias vazam gritos, carros, caminhões, furadeiras, serradeiras. vazam barulhos por todos os lados, escorrem como água suja: onde houver buraco eles passam. me sinto atravessada de coisas que não gosto, excessivas,
gritadas e sem delicadeza elas vão entrando como uma comida indigesta. e penso se então eu estaria no lugar errado.
"se o silêncio é a voz das coisas, então as coisas estão mudas", eu penso. e vou e sigo criando lugares dentro de mim, mundos intocáveis pelo barulho árido, onde eu tenha alguma paz. me conecto com instâncias que me proporcionam esse contato primordial com algo mais profundo, igual é no fundo do mar. e o barulho então me clareia a percepção da necessidade do contrário do barulho.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comentário do Ó: um momento de olhar por escrito.