Ensinamentos de uma lua em capri
Eu devia ter uns 10 ou 11 ou 8 ou 7 anos. Ai, não me lembro. Descíamos do fusca branco, a caminho de casa.
– Deixa, João. Ela precisa enfrentar.
Na minha lembrança de criança, um bando de meninos bem maiores do que eu vindo na minha direção, montados em suas bicicletas gigantes. Vou ser atropelada, estou desprotegida, vou morrer – era a minha pulsação naquele instante que durou até hoje.
Os meninos tinham um ar provocativo-endemoniado. Até que ponto era realmente isso eu não sei, mas no meu sentimento é a realidade com a qual preciso lidar, acolher, deixar ir. Existe o real e o tornado-real. Que eram meninos e que estavam montados em bicicletas, isso eu tenho certeza. Não sei o quanto de realidade eu criei e o quanto eram eles mesmos. Mas isso não importa. Importa que na realidade que levei comigo, eles vinham avançando como numa cavalaria, sem delicadeza e sem escrúpulos. Eu podia ter virado farelinho. Mas não virei. Nada aconteceu – e tudo aconteceu.
Hoje penso sobre o que minha mãe estaria querendo me ensinar. E que talvez ela estivesse certa. Me queria forte. Me queria inteira para o que viesse na minha direção. E mesmo com medo eu devo ter enfrentado, pois não me lembro de ter saído correndo. Mas ficou um ranço – não dos meninos, não das bicicletas – mas da abordagem lua-em-capri da minha mãe. Que cu essa desproteção. Que cu essa vulnerabilidade. Que desconforto absurdo. Sozinha e desprotegida: foi essa a sensação que levei comigo. Será que eu estava pronta pra vivenciar isso? Não importa. O que importa é que algo me foi ensinado ali. E hoje me dou conta do recado. Hoje a ficha caiu.
O que Cecília Meireles teria me ensinado vinte e tantos anos depois, com seus versos “vai, sem caminho marcado. tu és o de todos os caminhos”, minha mãe, ao seu modo, me ensinou também.

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Comentário do Ó: um momento de olhar por escrito.