12.9.16

sobre o autorrespeito

o que nós fazemos quando alguém nos dá algo que não tem nada a ver com a gente? seja um presente, um afeto, um gesto, um alimento: algo que nos seja oferecido, mas que não queiramos, que não nos sirva, que não nos agrade.

sabemos que cada um só vai poder dar daquilo de que dispõe naquele momento. mas o que se dá – e apenas pelo fato de ser dado – deve sempre ser aceito? até que ponto as pessoas estariam preparadas para um "não, obrigada" sem que isso significasse uma resposta violenta a um "ato generoso"?

no ato de dar algo a alguém não estaria embutida uma palavra de ordem? no "direito" de dar, não estaria também implícita a obrigação de receber? até que ponto aceitar algo não é também uma violência (contra si)?

a premissa de que "recusar algo não é educado" passa a ser compreendida então como uma crença que carregamos, como um animal condenado a puxar uma carroça pesada numa estrada que não acaba nunca.

desde que haja um motivo consistente para recusar ou que seu coração diga "não quero", é um ato de respeito para consigo, e em consequência para com o direito ao autorrespeito de cada um, permitir-se não aceitar até mesmo coisas que sejam oferecidas com boas intenções e de forma amorosa. a recusa pode vir na mesma vibração com que se ofereceu, mas sempre partindo do respeito por si, que depois poderá ser estendido aos outros.

você não é obrigado a aceitar um par de sapatos velhos e sujos, por mais que a pessoa que os tenha oferecido tenha agido de boa intenção. caso tenha se sentido ofendido com tal gesto, uma cura é agradecer pelo ato de generosidade daquela pessoa, que ao seu modo considerou que seria legal doar aquilo a você. agradeça internamente, mas deixe claro também internamente que é o seu desejo que esses sapatos e outras coisas que não tenham a ver com você sejam doados para outras pessoas que realmente queiram e precisem. quanto ao autor do gesto, procurar cultivar apenas a gratidão em relação à boa intenção – ainda que desencontrada - de doar a você esses calçados, e que a sua recusa – sempre primeiramente interna – sirva de inspiração para que todas as pessoas respeitem a si mesmas e ajam com mais empatia (= ver e perceber o outro) ao praticarem gestos de doação como esse.

quanto mais organicamente aprendermos a nos permitir recusar tudo aquilo que nos é oferecido e que não nos contempla de nenhum modo– interna e externamente, ou seja, o fora em concordância com o dentro –, mais intensos e verdadeiros serão os nossos sins – tanto para o que damos quanto para o que recebemos.

essa reflexão não prega uma apologia ao não. de forma alguma. mas um sim à percepção de que, primeiramente, é preciso conhecer no seu íntimo os seus gostos, mapear-se, respeitar-se. para então sacar que ao desenvolver a capacidade de recusar o que não lhe serve, estará mais receptivo e livre para o que realmente o alegra.

e esse texto, essa reflexão, você pode ler e recusar. pode ler e não fazer sentido pra você. e tudo bem. ou ler e aceitar, e ter todo um sentido na sua vida. e tudo bem também. o que importa e me alegraria mesmo é você se perceber. se respeitar. não importa qual seja a doação, a questão sempre será: seu gesto de aceitar ou recusar está em consonância com o princípio importante e luminoso, que é o princípio do autorrespeito?

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Comentário do Ó: um momento de olhar por escrito.