o barco está pronto
ela então me ofereceu um calmante.
— mas eu não quero me acalmar – esbravejei.
meus olhos ganhando uma cor de céu bravo quando chove. e era um cansaço de muitos tempos. e era difícil saber comigo e com certeza até onde eu estaria sendo cruel e até onde era como eu poderia existir. é que eu sempre me confundo com o tempo de aceitar e o tempo de um não-redondo-de-alma.
e depois do filme foi vertigem e tremedeira. as coitadices do mundo me irritando a um grau irreversível. então decidi estar um pouco no lugar de fome, no lugar da alma onde não vem alento fácil nem amor externo para amaciar as minhas dores. meu barco está pronto. e é o que tenho pra agora: essa raiva, essa vertigem. e alguns clarões. e o mar que não acaba nunca.
precisarei ser ouvida ou precisarei apenas dizer? apenas lançar meus fluxos ao rio como uma oferenda me basta?
não, eu não quero me acalmar. porque isso seria novamente querer segurar um rio dentro de um copo de bar. vou andar, ainda assim, trêmula assim. assustada e calma, com a loucura que me cabe – amém. e não quero a calma, não quero a calma rasa de quem foge de si mesmo, de quem se abriga no amor do outro. o amor do outro: o pior dos vícios, que é quando você larga das suas danças mais profundas para "amar e ser amado".
o quando das coisas já não me importa mais. e o que eu preciso agora é isto: estou tentando engrossar a minha casca.
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Comentário do Ó: um momento de olhar por escrito.