11.5.16

aquecimento 

[para, cabeça. cala a boca. deixa eu ser qualquer coisa. não me importar com quem vai ler isto, não me importar sequer se isto será publicado. me deixa ser este rio que me percorre sem me preocupar se está isso ou aquilo. olha, estará bom enquanto refletir meus fluxos, minhas percepções do continuum da vida que se mostra pra mim. que da bobagem e da coisa dita distraidamente nascerá também uma fundura interessante. eu sei que é assim: não se pode apertar nada pra que aconteça, pra que seja. tem que se deixar a água ir. e isto aqui é uma espécie de cosquinha inicial, um aquecer a si sem qualquer pretensão de que algo aconteça. e eu preciso disso porque as coisas todas que me acontecem têm uma vida própria e meu trabalho enquanto pessoa que quer ver e encostar e dizer essas coisas é apagar as luzes e ficar quieta. preciso calar a boca da minha cabeça, esse inferno cheio de luz e de informação desimportante - e olha que eu nem assisto televisão. quero o devir manoel de barros, a escuridão luminosa de clarice, quero o cinema e as músicas que me põem novamente no fluxo da vida. ai, cabeça, me deixa olhar o mar sem pressa de viver ou de morrer. me deixa viver sem precisar que ninguém goste ou desgoste. me deixa mexer do jeito que eu sei e sorrir. me deixa na minha urgência primeira, na minha respiração singular. minha ambição é profunda e ao mesmo tempo perigosa: desejo o escuro libertador. mas quero pegar as coisas com minhas próprias mãos, respirá-las nos meus olhos e dizê-las. apagar as luzes então é o que eu preciso fazer agora se quiser dizer qualquer coisa minimamente interessante. fecho os olhos, abro os poros e a alma acende em festa. não quero a coisa bonitinha que rende curtidas no facebook, quero a terra fresca que eu rego, quero a palavra como meio de cavalgar a coisa em si.]

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Comentário do Ó: um momento de olhar por escrito.