"meu silêncio fora silêncio ou uma voz alta que é muda?" (C. Lispector)
às vezes acordava fora do tempo.
era ela uma panela cheia d'água, prestes a entrar em estado de ebulição, a ferver?
e água quente, você sabe: se ferve toda pra fora. se derrama.
ela então acordou da noite longa e logo cedo já estava fervida.
sabia que se essa água não virasse uma espécie de rio que corre para algum lugar, ah, se não fosse esse rio, ela se queimaria toda.
era preciso então dispor de um rio para viver.
chovia, chovia. e a despeito dela querer assim ou assado, as coisas eram.
chover era o silêncio comendo o tempo-oco das horas e enfiando-se pelas frestas.
era como se a água finalmente desse vida à terra - e não o contrário.
acordou, então.
tomou café.
lembrou-se do que ainda nem existia.
teve certezas daquelas que apenas a instância de rio reconhece.
e sem guarda-chuvas partiu para a vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comentário do Ó: um momento de olhar por escrito.