parindo à tarde
Eu: cansada de rótulos, de "sou isso", "sou aquilo", "sou gay", "sou anti-açúcar", "sou abolicionista", "sou a putaquepariu". Algum trânsito de Urano? Talvez. Antes eu via tudo ao contrário: achava que o vegetarianismo tinha que estar no começo, que era o ponto de partida para uma existência minimamente ética. Agora vejo que, como qualquer coisa, o vegetarianismo tem um valor verdadeiramente ético enquanto efeito de uma necessidade de vida que nos atravessa e que nos toca e que nos inclui. Efeito já de um modo de conceber e me relacionar com tudo que vive. Um devir alargado porque a vida precisa seguir e o continuum da beleza-vivente me alegra. Então o vegetarianismo, como o sorriso, como o comer, como o falar: interessantes enquanto efeito de uma afirmação de vida anterior. E não porque disseram que. A dor, a cor, alguma coisa precisa encostar em mim e alterar a minha pulsação e por puro espanto eu continuarei respirando. Devir-vegetariano, devir-palavra, devir-abraço, devir-silêncio, devir-qualquer-coisa: como efeito e não como norma. No filme "Laranja Mecânica", temos a ilustração bastante indigesta da construção artificial de uma suposta ética, onde pra não ser violento, um jovem é "educado" (torturado) e transformado em um ser humano de plástico, fake, com valores fakes, uma ficção e não uma transmutação ou um uso interessante da violência, ou seja, ao meu ver, o filme remete a isto que vivemos, predominantemente: vivemos uma não-ética ou uma pseudo ética, uma ética moralizante e infantil que nos joga cada vez mais para o buraco - aí vêm as ofertas constantes de um céu que nos redima, tipo um carro zero ou um cargo-de-respeito ou rezar x vezes o pai-nosso. A moral nos dá o caminho pronto e nos diz "isso é certo", "vá por aqui" ou "vá por ali", "faça assim, porque eu já fui e sei o que é melhor". A ética não: ela vem aos berros, silenciosa e mortal, ela não fala, ela grita: "vive, vive, vive, vive e dança". E desse grito silencioso, desse viver, tudo se faz. De resto é ausência pura. Ao final do filme "Blade Runner", pergunta-se: "mas quem vive?", e essa pergunta seria interessante fazermos todos os dias: se estamos, de fato, vivendo. Se estamos, de fato, indo e navegando com a nossa bússola imanente. Cantando a nossa própria natureza singular. Deixar-viver, então, é efeito.
Intenso. Nada raso. Um grito. Que ecoa. Ressoa. Demais, Fê. beijo, Ju
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