2.12.14

quase aqui

o chamado que não diz o porquê. a coisa, o lugar: ai meu deus, a vida anda urgente. e eu sempre esperando a chuva. eu sempre desejando a chuva. não sei até quando, só sei que é assim. e isso deve ser uma espécie de sempre em mim. desejar a chuva. e descobrir que de repente a chuva mesma me constitui. e agora neste instante exato de fim de dia me colo no todo de novo, não sou mais eu, sou todas de mim. e não há certo ou errado, só beleza - torta, reta, feita de sangue ou de vento. se sou? há um infinito que me percorre, então sou.


teve uma noite em que eu chorei e o peito apertou de saudade das estrelas. nem sabia que era possível uma saudade assim. fiz uma foto do meu rosto e olhei: queria saber como era a saudade das estrelas vista de fora de mim. fotografar que é quando me silencio e aceito. que me acalmo de tudo. igual a chorar. ou a rezar. ou a amar. eu aceito o depois e o quando de tudo. às vezes, só de saber que depois chove, eu aceito. ou depois de perceber que sou infinita. antes era mais raro e eu sofria mais. acontece que há uma coisa que não deixa, que não se deixa pronunciar. ela é pela beira, ela é pelas pontas dos dedos, vai ali pelo peito e pulsa pulsa, ela só dança. só existe o perto dessa coisa, não se pega ela nunca. as palavras vão e dançam para essa coisa, sopram, respiram, são. porque encostar no mar inteiro é impossível. então o que se pode fazer é dizer como faz o pássaro: ele voa e assim ele encosta na coisa.

então me deu uma gastura depois do fim de tarde, acumulou poesia de novo bem no canto dos meus pés e nas asas e nos olhos. precisava pegar com as mãos aquela substância delicada, pegar como quem toca a pele da rosa. ir para o voo substancial, ir com os pés, ir para o abismo encantado. até ficar infinita de novo.

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Comentário do Ó: um momento de olhar por escrito.