4.11.14

um dia no parque

foi assim: o dia estava insuportável porque era calor e estavam enchendo o parque de lixo e barulho. andar e andar e andar como se anda num deserto. 


– lugar errado, na hora errada... - disse baixinho, perturbada - e por que você está cantando?


ela cantarolava enquanto caminhávamos na rua bombardeada. ela, que dispunha de uma alma tão colorida e forte, que conseguia cantar ali mesmo. respirou então, e parando de cantarolar o desespero, olhou bem nos meus olhos:


– porque estou tentando ficar calma...?


então o silêncio. e alguma coisa riu dentro de mim, um riso contrariado porque eu estava tão brava com a vida. uma risada desesperada. uma risada de beira de abismo.


foi quando aconteceu aquilo. estava tão cansada. ah, do barulho do mundo. achei que enlouqueceria. saí correndo e fui sentar num banco perto da beira do rio-tão-poluído. como faz quem não aguenta dar mais nenhum passo. e mesmo querendo gritar, só chorei. e chorei e chorei. de cabeça baixa, as mãos no rosto. queria dar minhas lágrimas pra terra. chorar, que é uma forma de dizer sim pra tudo e depois acalmar. pelo menos isso. dizem que evitar o choro faz mal à saúde e principalmente ao fígado humano. mas eu chorei mesmo de não aguentar mais tanto barulho. como faz um bicho cansado, não o cansaço de um pedreiro ou de um executivo, mas um cansaço antes de tudo incorporal, ancestral, cansaço de quem não acha lugar. 


– deixa eu deitar aqui?


e o meu olhar devia ser de quase-ausência. foi então que parti pra um tempo infinito, fechei os olhos. minhas asas protegidas. meu coração pego nas mãos. ah isso existe. aquela alma infinita e colorida me abraçando com um amor que eu não sabia que existia. e ela não fugiu. humanamente refiz as asas. 


precisava de um silêncio escuro pra me iluminar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentário do Ó: um momento de olhar por escrito.