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10.12.11

Para Clarice

O café me acolhe na sua quentura e no seu cheiro de terra, assim como a chuva. Assim como estar com Clarice é tomar a vida nas próprias mãos.

clariceTomamos um café outro dia. Cheguei sem avisar e mesmo assim fui bem recebida.

Adentrei pela sala. Ela me recebeu com um abraço curto, mas sincero. Olhou-me quase demoradamente, como quem investiga com discrição. Indicou-me que me sentasse no sofá que ela ia pegar uma coca-cola ou um café, com bolo de chocolate.

Agradeci, aceitando o café e o bolo.

Tudo nela era ao mesmo tempo inocente e simples. Não tinha qualquer nesga de formalidade em nenhum de seus gestos. E nem buscava isso, era o seu próprio jeito de existir.

Ela então trouxe o pedaço de bolo com uma xícara de café.

Agradeci novamente, olhei para ela com carinho e perguntei:

- Você quem fez, Clarice?

Ela sorriu um pouco, quase sem graça. Moveu-se até a varanda. Acompanhei-a.

Eu estava ali como uma amiga, embora ela não me conhecesse. Havia lhe escrito uma carta e enviado um de meus textos, uma crônica curta, dizendo que gostaria de tomar um café com ela, qualquer hora dessas. Que não poderia passar a minha vida sem esse encontro.

Ela me retornou dizendo que aparecesse e que eu seria bem-vinda.

Ficamos em silêncio um tempo até que ela, num ímpeto, olhando para longe, deixou escapar como quem diz a si mesma:

- A vida é como uma entrega... mas apenas se entrega a quem está disposto a olhá-la nos olhos.

- Clarice, o mundo às vezes te apavora?

- Vivo me assustando. Mas sem susto é como um rio feito de água parada, não?

Reparei que enquanto ela falava, os meus goles de café duravam mais, parecia que aumentava meu prazer pela vida. Cada palavra que ela dizia continha tanto silêncio que sobravam poucas coisas a serem ditas.

Confesso que esperei muito por aquele encontro. Apesar de conhecê-la por meio da palavra, parecia já conhecê-la antes. Ela era também um susto para mim, uma presença que não precisava fazer esforço nenhum para ser verdadeira. Era como se pertencêssemos a um mesmo lugar.

E entre os vários tipos de silêncio que existem, cabíamos nesse encontro.

- Clarice, eu acho que quem não te compreende é porque não conseguiu ainda reunir a coragem de olhar para dentro.

Ela sorriu novamente um sorriso generoso, delicado. Pediu-me licença para acender um cigarro e disse:

- Você é livre?

Devo ter ficado pálida, mas a resposta me veio num ímpeto:

- Eu tento tirar a poeira... para certas coisas na vida, como escrever, é preciso estar livre e descalço, senão fica falso...

Ela tragou o cigarro e soltou a fumaça voltando o olhar para mim, num gesto lento que parecia não acabar nunca, como se as horas fossem infinitas. Não disse nada, e ficamos ali mais um tempo em silêncio.

- Você deve receber muitos jovens escritores aqui.

- E eu gosto muito porque conversamos sem preocupação de precisar ser qualquer coisa.

Tragou mais duas vezes e jogou o cigarro no cinzeiro que estava na mureta da varanda.

- É bom quando podemos ser.

- E quando não podemos ser? Como são esses momentos, Clarice?

- Não podemos estar nuas o tempo todo. Imagina uma pessoa com o corpo descoberto num frio penetrante. O que é preciso saber não é ser ou deixar de ser, mas quando se entregar o que se é. Você precisa saber quem é pra você mesma. Depois escolhe quando pode estar nua na frente de alguém. Quando se entregar.

- Agora por exemplo... estamos sendo.

Por mim passaria mais muitas horas ali, mas fiquei com medo de atrapalhar os seus compromissos pessoais. Pensei em me despedir, mesmo querendo ficar, quando ela me atravessou com uma nova pergunta:

- Quantos anos você tem?

- Mais de 30 – sorri.

- Gostei do seu texto, mas você ainda não me parece totalmente livre. É preciso dar o salto.

- Assim como você, escrevo porque tenho fome.

- Eu sei. Mas você escreve toda vez que sente fome? Ou manipula o seu tempo como quem julga ter o controle da vida?

Fiquei sem ar. Engasgada. Não consegui nem encarar o olhar penetrante que ela me lançava. Quase quis me esconder e sair pela porta. Me veio uma dor na garganta, uma cansaço no corpo. Achei que desmaiaria. Entrei na sala e sentei-me. E finalmente sem forças para disfarçar meu desespero, comecei a chorar.

Ela adentrou a sala. Ficou em pé ao meu lado, apenas me olhando.

- Acho que não dou conta da vida, Clarice, de tudo que ela me exige. Consigo ser nesta vida apenas uma coisa, precisaria de um tempo alargado o suficiente para caber tudo que sou, para dar conta de lavar, trabalhar e amar e ainda escrever.

- Eu te entendo.

- Desculpe-me o choro. Mas que destempero...

- Isto pra mim é um presente. Desculpas por estar nua e frágil? Não por isso. Apenas veja a sua fome... pois ela não está aí à toa.

Olhamos novamente uma para a outra, mas desta vez vi que ela estava totalmente comovida e até preocupada. Chamou a empregada para me servir uma água. Agradeci, disse que não precisava.

Ela sabia ser amorosamente dura. Olhei para ela com uma espécie de gratidão e de felicidade, convencida de que a vida não mais me escaparia.

E nos demos um abraço longo. E o tempo parou à espera.

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Comments:
=)
 
impressionante a maturidade da sua escrita e, principalmente, a ousadia em colocar palavras, frase,pensamentos na boca de um totem como a clarice. o texto tem um 'quê' de sonho, ou delírio, uma aura irreal circundante que o fez especialmente mágico.
estou realmente encantada, e isso não é redundância, pois a cada novo texto seu que leio o encantamento é sempre outro, novo, genuíno, fresco.
que presente! vc foi, mais uma vez, brilhante!
beijo clariciano, na alma!
 
hoje foi um dia especial. em que só caberia esse grande abraço de saudade... tentei me aproximar, pelas palavras, do que poderia ter sido, um dia, um encontro com essa pessoa ao mesmo tempo tão humana e divina. essa alma ao mesmo tempo tão forte e frágil, que tem o poder raro de nos devolver a nós mesmos: clarice.
lancei-me num lugar de espírito onde pudesse encontrá-la. nem que por acidente. nem que apenas por alguns instantes. alguns abraços na vida são assim: dão-se num outro plano.
 
Este comentário foi removido pelo autor.
 
Ah, que lindo, Fernanda!! Adorei! Beijocas!
Mau
 
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