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15.12.11

"Lírios no peito"

Me arrumei toda pra ler o livro. Como se fosse isso também parte do meu grande trabalho de vida, fiquei toda livre e pronta. Preparei o café para que ele me acompanhasse.

O livro é uma porta para atravessar a “realidade” e chegar ao âmago de tudo, ou seja, à vida e a si mesmo. É algo vivo, um lugar-palavra onde se agitam coisas vivas. Os papeizinhos que carregam as palavras, e as palavras que carregam as coisas vivas são cascas. Sem elas (cascas), onde caberiam e como chegariam até nós? Como se transporta a água senão em um recipiente?

Tem certas decisões que doem de propósito. Poderíamos até dizer que doem com propósito. Uma ferida muitas vezes ajuda a curar um corpo inteiro. Pois o que dói mais: abandonar-se ou salvar-se? Sem sombra de dúvida, salvar-se. E salvar-se requer coragem e pode doer na pele. Crescer dói. Amar dói. É o instinto de salvar-se que faz doer. Para se abandonar, basta não fazer esforço algum, basta tudo como está, basta parar no tempo e se alienar de seu próprio brilho. Basta deixar-se num canto. E a dor é isso: um chamado para a felicidade embutida que se sacode ainda, um grito da vida estendendo o braço.

O que está dentro da dor é tudo que aquilo de que a gente precisa para se libertar. Rejeitar a dor é negar a própria vida. Isso não significa que todo mundo nasce pra ficar doendo, mas apenas que é preciso percorrer certas profundezas onde moram e nascem certas coisas, para que possamos ser livres.

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