1.2.12
incompleto
O sol veio mostrar depois da chuva que pode haver luz na quase noite ou que, se escurece, é porque há uma nova luz à espera. Escurece a cada inocente que se perde.
Céu avermelhado. A chuva dialoga com o sol neste fim de tarde. É preciso estar perto. Aí a vida multiplica e fica querendo transbordar. Disso renasço. Disso acordo chovendo de novo. Antes do próximo passo.
O sol veio mostrar depois da chuva que pode haver luz na quase noite ou que, se escurece, é porque há uma nova luz à espera. Escurece a cada inocente que se perde.
Céu avermelhado. A chuva dialoga com o sol neste fim de tarde. É preciso estar perto. Aí a vida multiplica e fica querendo transbordar. Disso renasço. Disso acordo chovendo de novo. Antes do próximo passo.
22.12.11
Brasil: o país da mentira
Brasil. Um país de vulgares abençoados. De terras encapadas de concreto e sem ciclovias. Um país de altos impostos para alimentar políticos safados. Terra de Lulas cínicos. De bundas em telenovelas. De gente gananciosa andando com ar de vitória. Onde a pobreza miserável contrasta com as mansões nos condomínios fechados. País feito para quem se encaixa numa sociedade doente. Feito para os que gastam o tempo sem deixar uma nesga de luz neste mundo. Feito para os que pairam na superfície. Terra da exclusão. Das regras podres. Da sonolência e da mentira. Terra contaminada a despeito de suas belezas raras.
Terra do cinismo, de Malufs risonhos, de um povo esquecido de si mesmo.
E ainda me espanto. Me espanto ao saber que uma assassina responderá em liberdade. Mesmo com todas as provas. Com gente de vários países pedindo justiça. Ainda assim, o Brasil mostra a quem serve. Devemos achar normal que uma mulher que mata o próprio cachorro pague uma cesta básica. E eu ainda me espanto…
(Texto publicado no Cotidiano Vegano, em dezembro de 2011)
Brasil. Um país de vulgares abençoados. De terras encapadas de concreto e sem ciclovias. Um país de altos impostos para alimentar políticos safados. Terra de Lulas cínicos. De bundas em telenovelas. De gente gananciosa andando com ar de vitória. Onde a pobreza miserável contrasta com as mansões nos condomínios fechados. País feito para quem se encaixa numa sociedade doente. Feito para os que gastam o tempo sem deixar uma nesga de luz neste mundo. Feito para os que pairam na superfície. Terra da exclusão. Das regras podres. Da sonolência e da mentira. Terra contaminada a despeito de suas belezas raras.
Terra do cinismo, de Malufs risonhos, de um povo esquecido de si mesmo.
E ainda me espanto. Me espanto ao saber que uma assassina responderá em liberdade. Mesmo com todas as provas. Com gente de vários países pedindo justiça. Ainda assim, o Brasil mostra a quem serve. Devemos achar normal que uma mulher que mata o próprio cachorro pague uma cesta básica. E eu ainda me espanto…
(Texto publicado no Cotidiano Vegano, em dezembro de 2011)
19.12.11
faísca
olha como somos concretos
com nossas ruas secas cheias de calor
nem a chuva dá conta
de tanta secura de vida
porque quando chove é isto:
um aviso da vida querendo brotar.
olha como somos concretos
com nossas ruas secas cheias de calor
nem a chuva dá conta
de tanta secura de vida
porque quando chove é isto:
um aviso da vida querendo brotar.
15.12.11
"Lírios no peito"
Me arrumei toda pra ler o livro. Como se fosse isso também parte do meu grande trabalho de vida, fiquei toda livre e pronta. Preparei o café para que ele me acompanhasse.
O livro é uma porta para atravessar a “realidade” e chegar ao âmago de tudo, ou seja, à vida e a si mesmo. É algo vivo, um lugar-palavra onde se agitam coisas vivas. Os papeizinhos que carregam as palavras, e as palavras que carregam as coisas vivas são cascas. Sem elas (cascas), onde caberiam e como chegariam até nós? Como se transporta a água senão em um recipiente?
Tem certas decisões que doem de propósito. Poderíamos até dizer que doem com propósito. Uma ferida muitas vezes ajuda a curar um corpo inteiro. Pois o que dói mais: abandonar-se ou salvar-se? Sem sombra de dúvida, salvar-se. E salvar-se requer coragem e pode doer na pele. Crescer dói. Amar dói. É o instinto de salvar-se que faz doer. Para se abandonar, basta não fazer esforço algum, basta tudo como está, basta parar no tempo e se alienar de seu próprio brilho. Basta deixar-se num canto. E a dor é isso: um chamado para a felicidade embutida que se sacode ainda, um grito da vida estendendo o braço.
O que está dentro da dor é tudo que aquilo de que a gente precisa para se libertar. Rejeitar a dor é negar a própria vida. Isso não significa que todo mundo nasce pra ficar doendo, mas apenas que é preciso percorrer certas profundezas onde moram e nascem certas coisas, para que possamos ser livres.
Me arrumei toda pra ler o livro. Como se fosse isso também parte do meu grande trabalho de vida, fiquei toda livre e pronta. Preparei o café para que ele me acompanhasse.
O livro é uma porta para atravessar a “realidade” e chegar ao âmago de tudo, ou seja, à vida e a si mesmo. É algo vivo, um lugar-palavra onde se agitam coisas vivas. Os papeizinhos que carregam as palavras, e as palavras que carregam as coisas vivas são cascas. Sem elas (cascas), onde caberiam e como chegariam até nós? Como se transporta a água senão em um recipiente?
Tem certas decisões que doem de propósito. Poderíamos até dizer que doem com propósito. Uma ferida muitas vezes ajuda a curar um corpo inteiro. Pois o que dói mais: abandonar-se ou salvar-se? Sem sombra de dúvida, salvar-se. E salvar-se requer coragem e pode doer na pele. Crescer dói. Amar dói. É o instinto de salvar-se que faz doer. Para se abandonar, basta não fazer esforço algum, basta tudo como está, basta parar no tempo e se alienar de seu próprio brilho. Basta deixar-se num canto. E a dor é isso: um chamado para a felicidade embutida que se sacode ainda, um grito da vida estendendo o braço.
O que está dentro da dor é tudo que aquilo de que a gente precisa para se libertar. Rejeitar a dor é negar a própria vida. Isso não significa que todo mundo nasce pra ficar doendo, mas apenas que é preciso percorrer certas profundezas onde moram e nascem certas coisas, para que possamos ser livres.
10.12.11
Para Clarice
O café me acolhe na sua quentura e no seu cheiro de terra, assim como a chuva. Assim como estar com Clarice é tomar a vida nas próprias mãos.
Tomamos um café outro dia. Cheguei sem avisar e mesmo assim fui bem recebida.
Adentrei pela sala. Ela me recebeu com um abraço curto, mas sincero. Olhou-me quase demoradamente, como quem investiga com discrição. Indicou-me que me sentasse no sofá que ela ia pegar uma coca-cola ou um café, com bolo de chocolate.
Agradeci, aceitando o café e o bolo.
Tudo nela era ao mesmo tempo inocente e simples. Não tinha qualquer nesga de formalidade em nenhum de seus gestos. E nem buscava isso, era o seu próprio jeito de existir.
Ela então trouxe o pedaço de bolo com uma xícara de café.
Agradeci novamente, olhei para ela com carinho e perguntei:
- Você quem fez, Clarice?
Ela sorriu um pouco, quase sem graça. Moveu-se até a varanda. Acompanhei-a.
Eu estava ali como uma amiga, embora ela não me conhecesse. Havia lhe escrito uma carta e enviado um de meus textos, uma crônica curta, dizendo que gostaria de tomar um café com ela, qualquer hora dessas. Que não poderia passar a minha vida sem esse encontro.
Ela me retornou dizendo que aparecesse e que eu seria bem-vinda.
Ficamos em silêncio um tempo até que ela, num ímpeto, olhando para longe, deixou escapar como quem diz a si mesma:
- A vida é como uma entrega... mas apenas se entrega a quem está disposto a olhá-la nos olhos.
- Clarice, o mundo às vezes te apavora?
- Vivo me assustando. Mas sem susto é como um rio feito de água parada, não?
Reparei que enquanto ela falava, os meus goles de café duravam mais, parecia que aumentava meu prazer pela vida. Cada palavra que ela dizia continha tanto silêncio que sobravam poucas coisas a serem ditas.
Confesso que esperei muito por aquele encontro. Apesar de conhecê-la por meio da palavra, parecia já conhecê-la antes. Ela era também um susto para mim, uma presença que não precisava fazer esforço nenhum para ser verdadeira. Era como se pertencêssemos a um mesmo lugar.
E entre os vários tipos de silêncio que existem, cabíamos nesse encontro.
- Clarice, eu acho que quem não te compreende é porque não conseguiu ainda reunir a coragem de olhar para dentro.
Ela sorriu novamente um sorriso generoso, delicado. Pediu-me licença para acender um cigarro e disse:
- Você é livre?
Devo ter ficado pálida, mas a resposta me veio num ímpeto:
- Eu tento tirar a poeira... para certas coisas na vida, como escrever, é preciso estar livre e descalço, senão fica falso...
Ela tragou o cigarro e soltou a fumaça voltando o olhar para mim, num gesto lento que parecia não acabar nunca, como se as horas fossem infinitas. Não disse nada, e ficamos ali mais um tempo em silêncio.
- Você deve receber muitos jovens escritores aqui.
- E eu gosto muito porque conversamos sem preocupação de precisar ser qualquer coisa.
Tragou mais duas vezes e jogou o cigarro no cinzeiro que estava na mureta da varanda.
- É bom quando podemos ser.
- E quando não podemos ser? Como são esses momentos, Clarice?
- Não podemos estar nuas o tempo todo. Imagina uma pessoa com o corpo descoberto num frio penetrante. O que é preciso saber não é ser ou deixar de ser, mas quando se entregar o que se é. Você precisa saber quem é pra você mesma. Depois escolhe quando pode estar nua na frente de alguém. Quando se entregar.
- Agora por exemplo... estamos sendo.
Por mim passaria mais muitas horas ali, mas fiquei com medo de atrapalhar os seus compromissos pessoais. Pensei em me despedir, mesmo querendo ficar, quando ela me atravessou com uma nova pergunta:
- Quantos anos você tem?
- Mais de 30 – sorri.
- Gostei do seu texto, mas você ainda não me parece totalmente livre. É preciso dar o salto.
- Assim como você, escrevo porque tenho fome.
- Eu sei. Mas você escreve toda vez que sente fome? Ou manipula o seu tempo como quem julga ter o controle da vida?
Fiquei sem ar. Engasgada. Não consegui nem encarar o olhar penetrante que ela me lançava. Quase quis me esconder e sair pela porta. Me veio uma dor na garganta, uma cansaço no corpo. Achei que desmaiaria. Entrei na sala e sentei-me. E finalmente sem forças para disfarçar meu desespero, comecei a chorar.
Ela adentrou a sala. Ficou em pé ao meu lado, apenas me olhando.
- Acho que não dou conta da vida, Clarice, de tudo que ela me exige. Consigo ser nesta vida apenas uma coisa, precisaria de um tempo alargado o suficiente para caber tudo que sou, para dar conta de lavar, trabalhar e amar e ainda escrever.
- Eu te entendo.
- Desculpe-me o choro. Mas que destempero...
- Isto pra mim é um presente. Desculpas por estar nua e frágil? Não por isso. Apenas veja a sua fome... pois ela não está aí à toa.
Olhamos novamente uma para a outra, mas desta vez vi que ela estava totalmente comovida e até preocupada. Chamou a empregada para me servir uma água. Agradeci, disse que não precisava.
Ela sabia ser amorosamente dura. Olhei para ela com uma espécie de gratidão e de felicidade, convencida de que a vida não mais me escaparia.
E nos demos um abraço longo. E o tempo parou à espera.
O café me acolhe na sua quentura e no seu cheiro de terra, assim como a chuva. Assim como estar com Clarice é tomar a vida nas próprias mãos.
Tomamos um café outro dia. Cheguei sem avisar e mesmo assim fui bem recebida.Adentrei pela sala. Ela me recebeu com um abraço curto, mas sincero. Olhou-me quase demoradamente, como quem investiga com discrição. Indicou-me que me sentasse no sofá que ela ia pegar uma coca-cola ou um café, com bolo de chocolate.
Agradeci, aceitando o café e o bolo.
Tudo nela era ao mesmo tempo inocente e simples. Não tinha qualquer nesga de formalidade em nenhum de seus gestos. E nem buscava isso, era o seu próprio jeito de existir.
Ela então trouxe o pedaço de bolo com uma xícara de café.
Agradeci novamente, olhei para ela com carinho e perguntei:
- Você quem fez, Clarice?
Ela sorriu um pouco, quase sem graça. Moveu-se até a varanda. Acompanhei-a.
Eu estava ali como uma amiga, embora ela não me conhecesse. Havia lhe escrito uma carta e enviado um de meus textos, uma crônica curta, dizendo que gostaria de tomar um café com ela, qualquer hora dessas. Que não poderia passar a minha vida sem esse encontro.
Ela me retornou dizendo que aparecesse e que eu seria bem-vinda.
Ficamos em silêncio um tempo até que ela, num ímpeto, olhando para longe, deixou escapar como quem diz a si mesma:
- A vida é como uma entrega... mas apenas se entrega a quem está disposto a olhá-la nos olhos.
- Clarice, o mundo às vezes te apavora?
- Vivo me assustando. Mas sem susto é como um rio feito de água parada, não?
Reparei que enquanto ela falava, os meus goles de café duravam mais, parecia que aumentava meu prazer pela vida. Cada palavra que ela dizia continha tanto silêncio que sobravam poucas coisas a serem ditas.
Confesso que esperei muito por aquele encontro. Apesar de conhecê-la por meio da palavra, parecia já conhecê-la antes. Ela era também um susto para mim, uma presença que não precisava fazer esforço nenhum para ser verdadeira. Era como se pertencêssemos a um mesmo lugar.
E entre os vários tipos de silêncio que existem, cabíamos nesse encontro.
- Clarice, eu acho que quem não te compreende é porque não conseguiu ainda reunir a coragem de olhar para dentro.
Ela sorriu novamente um sorriso generoso, delicado. Pediu-me licença para acender um cigarro e disse:
- Você é livre?
Devo ter ficado pálida, mas a resposta me veio num ímpeto:
- Eu tento tirar a poeira... para certas coisas na vida, como escrever, é preciso estar livre e descalço, senão fica falso...
Ela tragou o cigarro e soltou a fumaça voltando o olhar para mim, num gesto lento que parecia não acabar nunca, como se as horas fossem infinitas. Não disse nada, e ficamos ali mais um tempo em silêncio.
- Você deve receber muitos jovens escritores aqui.
- E eu gosto muito porque conversamos sem preocupação de precisar ser qualquer coisa.
Tragou mais duas vezes e jogou o cigarro no cinzeiro que estava na mureta da varanda.
- É bom quando podemos ser.
- E quando não podemos ser? Como são esses momentos, Clarice?
- Não podemos estar nuas o tempo todo. Imagina uma pessoa com o corpo descoberto num frio penetrante. O que é preciso saber não é ser ou deixar de ser, mas quando se entregar o que se é. Você precisa saber quem é pra você mesma. Depois escolhe quando pode estar nua na frente de alguém. Quando se entregar.
- Agora por exemplo... estamos sendo.
Por mim passaria mais muitas horas ali, mas fiquei com medo de atrapalhar os seus compromissos pessoais. Pensei em me despedir, mesmo querendo ficar, quando ela me atravessou com uma nova pergunta:
- Quantos anos você tem?
- Mais de 30 – sorri.
- Gostei do seu texto, mas você ainda não me parece totalmente livre. É preciso dar o salto.
- Assim como você, escrevo porque tenho fome.
- Eu sei. Mas você escreve toda vez que sente fome? Ou manipula o seu tempo como quem julga ter o controle da vida?
Fiquei sem ar. Engasgada. Não consegui nem encarar o olhar penetrante que ela me lançava. Quase quis me esconder e sair pela porta. Me veio uma dor na garganta, uma cansaço no corpo. Achei que desmaiaria. Entrei na sala e sentei-me. E finalmente sem forças para disfarçar meu desespero, comecei a chorar.
Ela adentrou a sala. Ficou em pé ao meu lado, apenas me olhando.
- Acho que não dou conta da vida, Clarice, de tudo que ela me exige. Consigo ser nesta vida apenas uma coisa, precisaria de um tempo alargado o suficiente para caber tudo que sou, para dar conta de lavar, trabalhar e amar e ainda escrever.
- Eu te entendo.
- Desculpe-me o choro. Mas que destempero...
- Isto pra mim é um presente. Desculpas por estar nua e frágil? Não por isso. Apenas veja a sua fome... pois ela não está aí à toa.
Olhamos novamente uma para a outra, mas desta vez vi que ela estava totalmente comovida e até preocupada. Chamou a empregada para me servir uma água. Agradeci, disse que não precisava.
Ela sabia ser amorosamente dura. Olhei para ela com uma espécie de gratidão e de felicidade, convencida de que a vida não mais me escaparia.
E nos demos um abraço longo. E o tempo parou à espera.
Marcadores: aniversário, clarice, encontro, escrita, lispector, literatura, poesia, vida
7.12.11
texto leve
Não, não faz sentido eu ficar aqui me estrebuchando enquanto o mundo gira em sua órbita usual e aos tropeços. Por causa de quem e por causa do quê? À merda a intenção dos outros. À merda o que esperam que eu seja. Por que é que eu preciso adentrar, se posso simplesmente fechar meus olhos, dormir e acordar?
O esforço de sair da cabeça é como o de conter um tsunami interno, as águas querem vazar pelos olhos, escorregar pela boca, voar para fora, esvaziar para depois acalmar. Porque tem coisa demais e eu agora estou sem forças.
Tremo tanto que agora eu sou só um cansaço do que me resta. Desse dia que eu não sei a cor. Dessa lágrima que não vem da chuva. Tambor de mim: que música sou?
O chá me faz deitar apesar do mundo, apesar dos outros que não brilham em mim. Começo pelas mãos. Acho que não me querem pensando, pés que me querem deitada e quieta. Quieta das merdas que eu não devo dizer.
Quando as horas se alargam a ponto de você quase não sobreviver, quando elas nada te entregam, a não ser a ponta da beira da ilusão que não serve mais.
Enlouqueço? Talvez metade sim, metade verdade. Calada. Um, dois, três, não posso. Se eu disser me arremesso.
Não, não faz sentido eu ficar aqui me estrebuchando enquanto o mundo gira em sua órbita usual e aos tropeços. Por causa de quem e por causa do quê? À merda a intenção dos outros. À merda o que esperam que eu seja. Por que é que eu preciso adentrar, se posso simplesmente fechar meus olhos, dormir e acordar?
O esforço de sair da cabeça é como o de conter um tsunami interno, as águas querem vazar pelos olhos, escorregar pela boca, voar para fora, esvaziar para depois acalmar. Porque tem coisa demais e eu agora estou sem forças.
Tremo tanto que agora eu sou só um cansaço do que me resta. Desse dia que eu não sei a cor. Dessa lágrima que não vem da chuva. Tambor de mim: que música sou?
O chá me faz deitar apesar do mundo, apesar dos outros que não brilham em mim. Começo pelas mãos. Acho que não me querem pensando, pés que me querem deitada e quieta. Quieta das merdas que eu não devo dizer.
Quando as horas se alargam a ponto de você quase não sobreviver, quando elas nada te entregam, a não ser a ponta da beira da ilusão que não serve mais.
Enlouqueço? Talvez metade sim, metade verdade. Calada. Um, dois, três, não posso. Se eu disser me arremesso.
27.11.11
cidade
ando um passo
ando outro
escorro na calçada
a noite me arrepia
me alerta
paro no farol
de novo mais um passo
me arrisco
pela rua
monte de música
saudade de chegada
estrela nenhuma no céu.
ando um passo
ando outro
escorro na calçada
a noite me arrepia
me alerta
paro no farol
de novo mais um passo
me arrisco
pela rua
monte de música
saudade de chegada
estrela nenhuma no céu.
16.11.11
a não ser pelas beiras poéticas
a felicidade está sempre numa beira poética: entre o tropeço e o desmaio. por aí. pelo caminho.
vou fazer hoje uma poesia deitada. resolvi aceitar meu cansaço e fazer dele uma oportunidade. deitada, à espera de nada. feliz, por que não? feliz por estar deitada e fazendo poesia. rabiscando, pensando sem fazer esforço.
essa aceitação é quase uma embriaguez: eu me levo, e tudo me leva. estou viva e calma. acordada e ainda.
poesia: a única forma possível de dizer certas coisas. não espero nada. apenas vou aceitando, até que alguma coisa me assuste um pouco, mesmo deitada.
hoje é a minha homenagem ao silêncio de quem não precisa fazer força. sabendo que as beiras estão por toda parte, e que na verdade nem são beiras: são entranhas. dor nenhuma ultrapassa essa clareza que vem aos poucos, em goles.
a felicidade está sempre numa beira poética: entre o tropeço e o desmaio. por aí. pelo caminho.
vou fazer hoje uma poesia deitada. resolvi aceitar meu cansaço e fazer dele uma oportunidade. deitada, à espera de nada. feliz, por que não? feliz por estar deitada e fazendo poesia. rabiscando, pensando sem fazer esforço.
essa aceitação é quase uma embriaguez: eu me levo, e tudo me leva. estou viva e calma. acordada e ainda.
poesia: a única forma possível de dizer certas coisas. não espero nada. apenas vou aceitando, até que alguma coisa me assuste um pouco, mesmo deitada.
hoje é a minha homenagem ao silêncio de quem não precisa fazer força. sabendo que as beiras estão por toda parte, e que na verdade nem são beiras: são entranhas. dor nenhuma ultrapassa essa clareza que vem aos poucos, em goles.
31.10.11
mãos ocupadas
I need to write but it's raining
I need to write but it's night
I need to write but it's cold
I need to write but there're too many people
I need to write but I'm in a hurry
I need to write but I'm afraid
I need to write
I need to write but it's early
I need to write but there's too much light
I need to write everything everymoment
I need to write I need to write
I need to write to be close
I need to write to enlighten myself
I need to write to be alive
I need to write for all the secrets
I need to write, closed eyes
I need to write right here
I need to write everywhere
I need to write all the colors and the dark
the yellow and the blank of the souls
everything I need to write
the words come and find me
they look into my eyes
still don't know what they mean
in the way I'll discover
but I need to write
and suddenly it's all being said
all that matters
and what has to come clearly
starts coming
close to the eyes
even if it's raining
even if it hurts
even if we don't want to hear
it comes to our eyes
it comes to our ears
it simply appears
to us
always
I need to write.
I need to write but it's raining
I need to write but it's night
I need to write but it's cold
I need to write but there're too many people
I need to write but I'm in a hurry
I need to write but I'm afraid
I need to write
I need to write but it's early
I need to write but there's too much light
I need to write everything everymoment
I need to write I need to write
I need to write to be close
I need to write to enlighten myself
I need to write to be alive
I need to write for all the secrets
I need to write, closed eyes
I need to write right here
I need to write everywhere
I need to write all the colors and the dark
the yellow and the blank of the souls
everything I need to write
the words come and find me
they look into my eyes
still don't know what they mean
in the way I'll discover
but I need to write
and suddenly it's all being said
all that matters
and what has to come clearly
starts coming
close to the eyes
even if it's raining
even if it hurts
even if we don't want to hear
it comes to our eyes
it comes to our ears
it simply appears
to us
always
I need to write.
30.10.11

hoje percebi o quanto me orgulho das artes marciais fazerem parte da minha vida e do que sou.
o kung fu é, ao meu ver, primordialmente, uma metáfora da vida íntima que temos fora do tatame e uma fonte de força vital interior. ele não só faz brotar, como nos ensina a saber cair. e nos ensina que não há vida sem quedas. e que não há quedas sem voltas.
quem confunde a prática com violência se engana profundamente. violência é prejudicar o outro ou, ainda, prejudicar a si mesmo (a autoviolência).
violência é comprometer as próprias capacidades: a de amar; a de viver livremente; a de sentir prazer; a de se encorajar a dizer; a de acreditar em si mesmo; a de sonhar o que vem lá do íntimo, de dentro. isso sim é violência. matar os sonhos alheios ou os próprios.
o kung fu é uma jornada interna que transparece no corpo. e acredito que seja assim com todas as artes marciais. o kung fu é onde não nos enganamos. onde vemos com clareza onde somos fracos e onde somos fortes. portanto é bonito por natureza, porque revela. porque engrandece.
eu defendo aqui, com minhas singelas palavras, o kung fu, que é a arte marcial que conheço de perto e que pratico há algum tempo. pouco, ainda, mas já profundamente arraigado na minha alma.
e por me devolver a minha própria força a mim mesma, eu lhe sou muito grata. acredito que muitos, senão todos, dos que praticam esse trabalho árduo com o corpo, compartilham do meu sentimento.
Marcadores: artes marciais, crescimento, intimidade, kung fu, superação, vida
18.10.11
Benjamin
Ontem quando cheguei em casa, lancei-me logo numa espécie de liberdade. Curei a ressaca do horário de verão com três copos de vinho e uma música incessante. Durou horas, mas pareceu uma existência inteira.
Ficamos só eu e a liberdade naquele espaço pequeno, cabendo inteiras na música que tocava dentro e fora do corpo.
E talvez ainda sob o efeito mágico do vinho (sofro da síndrome do efeito retardado), hoje pela manhã me aconteceu algo absolutamente inusitado: eu ouvia a voz de tudo. Era como se tudo tivesse uma voz e se comunicasse comigo.Vinha um amontoado de palavras dos gatos e até os objetos pareciam querer se expressar. O que foi mesmo que o armário me disse?
Vinho bom... Recomendo para desempoeirar de vez em quando.
Ontem quando cheguei em casa, lancei-me logo numa espécie de liberdade. Curei a ressaca do horário de verão com três copos de vinho e uma música incessante. Durou horas, mas pareceu uma existência inteira.
Ficamos só eu e a liberdade naquele espaço pequeno, cabendo inteiras na música que tocava dentro e fora do corpo.
E talvez ainda sob o efeito mágico do vinho (sofro da síndrome do efeito retardado), hoje pela manhã me aconteceu algo absolutamente inusitado: eu ouvia a voz de tudo. Era como se tudo tivesse uma voz e se comunicasse comigo.Vinha um amontoado de palavras dos gatos e até os objetos pareciam querer se expressar. O que foi mesmo que o armário me disse?
Vinho bom... Recomendo para desempoeirar de vez em quando.
13.10.11
Depois que Saturno passou por Marte
Parece que faz séculos que não escrevo. Parece que é tanto tempo, que estremeço como num primeiro encontro.
Soube do tal trânsito de Saturno e que ele passaria por Marte durante uns dias de setembro e outubro. Tratei de programar o alarme do celular para o último dia do trânsito “aleluia, acabou”. E ontem o alarme tocou. Sinceramente: nem senti a queda. Talvez porque eu ande tão acelerada. Talvez porque esteja tão dentro da dor do mundo.
Ficar sem escrever muito tempo é, ao menos no meu caso, bem perigoso. Porque junta coisa demais e depois o trabalho é dobrado. Há quem afirme que quanto mais se espera para escrever mais visceralmente saem as verdades, comigo isso não acontece: passo fome. E se eu demorar demais, é justamente como a minha fome: passa ou fica suspensa, difícil de apanhar. Um verdadeiro desastre.
Tenho sentido que o tempo me atravessa. Vai além das minhas forças. E que eu não posso parar em pleno voo. Um dia aprendo um jeito de suspender o voo - e não o tempo.
Mas Saturno trouxe uma sensação de descompasso e at the same time uma clareza que me esquenta os olhos de cansaço. Ele sacode o barco com uma risadinha de canto de boca. Sabe que ninguém vai se afogar.
Olha, a verdade da vida é que tudo dói. Até o domingo mais chuvoso e o orgasmo mais duradouro. O amor, a liberdade, a vista pro mar. Estar vivo é uma ferida em constante cicatrização – a não ser para os que se anestesiaram e rodam feito baratas tontas. Esteja Saturno onde estiver.
Parece que faz séculos que não escrevo. Parece que é tanto tempo, que estremeço como num primeiro encontro.
Soube do tal trânsito de Saturno e que ele passaria por Marte durante uns dias de setembro e outubro. Tratei de programar o alarme do celular para o último dia do trânsito “aleluia, acabou”. E ontem o alarme tocou. Sinceramente: nem senti a queda. Talvez porque eu ande tão acelerada. Talvez porque esteja tão dentro da dor do mundo.
Ficar sem escrever muito tempo é, ao menos no meu caso, bem perigoso. Porque junta coisa demais e depois o trabalho é dobrado. Há quem afirme que quanto mais se espera para escrever mais visceralmente saem as verdades, comigo isso não acontece: passo fome. E se eu demorar demais, é justamente como a minha fome: passa ou fica suspensa, difícil de apanhar. Um verdadeiro desastre.
Tenho sentido que o tempo me atravessa. Vai além das minhas forças. E que eu não posso parar em pleno voo. Um dia aprendo um jeito de suspender o voo - e não o tempo.
Mas Saturno trouxe uma sensação de descompasso e at the same time uma clareza que me esquenta os olhos de cansaço. Ele sacode o barco com uma risadinha de canto de boca. Sabe que ninguém vai se afogar.
Olha, a verdade da vida é que tudo dói. Até o domingo mais chuvoso e o orgasmo mais duradouro. O amor, a liberdade, a vista pro mar. Estar vivo é uma ferida em constante cicatrização – a não ser para os que se anestesiaram e rodam feito baratas tontas. Esteja Saturno onde estiver.
21.9.11
nesga de luz
se eu te machuco é porque você feriu a minha capacidade de amar
se eu te evito agora é porque você me evitou tantas vezes
se eu sinto raiva é porque não coube meu amor
se eu choro é porque dói esse desamor que não sou eu...
por que você não me joga?
por que você faz de mim essa tristeza dura?
se não fosse essa nesga de luz
a me abraçar
eu nem me salvava esta noite
se eu te machuco é porque você feriu a minha capacidade de amar
se eu te evito agora é porque você me evitou tantas vezes
se eu sinto raiva é porque não coube meu amor
se eu choro é porque dói esse desamor que não sou eu...
por que você não me joga?
por que você faz de mim essa tristeza dura?
se não fosse essa nesga de luz
a me abraçar
eu nem me salvava esta noite
7.9.11
Santa bicicleta, santo percurso ao vento
Ensolarada de liberdade, olhei para os cisnes negros no lago. Parecia que eu via o mundo pela primeira vez. O vento me sorria na pele, a liberdade me percorria inteira em direção ao céu.
Hoje foi o melhor feriado da independência que eu já tive na vida: um passeio de bike pelo parque ensolarado.
Suspendi a calça até que ela virasse uma bermuda, só assim o pedal da bicicleta não me arrancaria outro pedaço da barra. Amarrei a jaqueta no guidão e saí pedalando como quem não vê a luz do sol há muito tempo.
Carros enfumaçam as cidades, ocupam os espaços das árvores, passam por cima de nossas raízes. Carros existem como meio de se exercer o poder sobre o outro: por isso existem carros tão grandes e luxuosos. Se o motivo para se ter um carro fosse o conforto e a praticidade, não se comprariam automóveis grandes, com banco de couro e motor excessivamente potente. Haveria apenas carros suficientemente funcionais para deslocamentos realmente necessários.
A bicicleta não. Ela agrega as pessoas, não há diferenciação entre as pessoas que pedalam (um ciclista não repara a marca da bicicleta alheia, pois sua atenção está no próprio percurso e o corpo leva a atenção para o equilíbrio necessário ao caminho). Quando se pedala, é como precisar estar desperto: é preciso estar atento pois se está no comando da própria vida. Se você não pedalar, ninguém o fará por você.
Ocupando um espaço ligeiramente maior do que o nosso próprio corpo, a bicicleta nos humaniza, nos devolve mais de nós mesmos. Enquanto o carro nos aprisiona, a bicicleta nos liberta, nos dá o vento no rosto, o olhar livre e vivo - o poder de escolher como e para onde dar o próximo passo. A bicicleta nos apresenta a possibilidade de chegar – sem depender de nada que não nossa própria força e discernimento.
A bicicleta pode ser, portanto, entendida como uma metáfora de nossa trajetória existencial e de como a percorremos, pois nos põe em contato com a postura contemplativa e lúcida de onde nos vem a força fundamental que nos sustenta. Só amadurecemos a partir de nossos próprios passos, ninguém jamais poderá fazer isso por nós. Com a bicicleta, ocorre algo parecido: se não pedalarmos, não sairemos do lugar.
Andar de bicicleta nos confere o que os esportes em geral propiciam: a chance de descobrirmos pelo corpo que somos capazes de ir sempre um passo além de onde estamos. Nos leva à simplicidade de espírito, ao lúdico que nos faz dignos. A bicicleta é um resgate da liberdade pacífica que nos pertence – e que, em última instância, acaba por nos permitir um contato direto com a vida.
A bicicleta é como a prática das artes marciais: nos coloca em condições igualitárias: ninguém é mais do que ninguém, e permeados por esse princípio, florescemos num respeito mútuo.
Isto, ao meu ver, é cidadania: poder exercer o direito à liberdade - mesmo que esse direito dure apenas alguns instantes. Ao menos já temos algum lampejo do que possa ser a liberdade.
Não tenho vergonha nenhuma de dizer e parecer uma sonhadora alucinada: eu sonho com um mundo feito de ruas, árvores e bicicletas. Um lugar em que se pode, além de continuar sonhando, vivenciar intimamente a sua própria natureza livre e sedenta por se aperfeiçoar a cada nova experiência – mas com os próprios pés e presença de espírito.
Ensolarada de liberdade, olhei para os cisnes negros no lago. Parecia que eu via o mundo pela primeira vez. O vento me sorria na pele, a liberdade me percorria inteira em direção ao céu.
Hoje foi o melhor feriado da independência que eu já tive na vida: um passeio de bike pelo parque ensolarado.Suspendi a calça até que ela virasse uma bermuda, só assim o pedal da bicicleta não me arrancaria outro pedaço da barra. Amarrei a jaqueta no guidão e saí pedalando como quem não vê a luz do sol há muito tempo.
Carros enfumaçam as cidades, ocupam os espaços das árvores, passam por cima de nossas raízes. Carros existem como meio de se exercer o poder sobre o outro: por isso existem carros tão grandes e luxuosos. Se o motivo para se ter um carro fosse o conforto e a praticidade, não se comprariam automóveis grandes, com banco de couro e motor excessivamente potente. Haveria apenas carros suficientemente funcionais para deslocamentos realmente necessários.
A bicicleta não. Ela agrega as pessoas, não há diferenciação entre as pessoas que pedalam (um ciclista não repara a marca da bicicleta alheia, pois sua atenção está no próprio percurso e o corpo leva a atenção para o equilíbrio necessário ao caminho). Quando se pedala, é como precisar estar desperto: é preciso estar atento pois se está no comando da própria vida. Se você não pedalar, ninguém o fará por você.
Ocupando um espaço ligeiramente maior do que o nosso próprio corpo, a bicicleta nos humaniza, nos devolve mais de nós mesmos. Enquanto o carro nos aprisiona, a bicicleta nos liberta, nos dá o vento no rosto, o olhar livre e vivo - o poder de escolher como e para onde dar o próximo passo. A bicicleta nos apresenta a possibilidade de chegar – sem depender de nada que não nossa própria força e discernimento.
A bicicleta pode ser, portanto, entendida como uma metáfora de nossa trajetória existencial e de como a percorremos, pois nos põe em contato com a postura contemplativa e lúcida de onde nos vem a força fundamental que nos sustenta. Só amadurecemos a partir de nossos próprios passos, ninguém jamais poderá fazer isso por nós. Com a bicicleta, ocorre algo parecido: se não pedalarmos, não sairemos do lugar.
Andar de bicicleta nos confere o que os esportes em geral propiciam: a chance de descobrirmos pelo corpo que somos capazes de ir sempre um passo além de onde estamos. Nos leva à simplicidade de espírito, ao lúdico que nos faz dignos. A bicicleta é um resgate da liberdade pacífica que nos pertence – e que, em última instância, acaba por nos permitir um contato direto com a vida.
A bicicleta é como a prática das artes marciais: nos coloca em condições igualitárias: ninguém é mais do que ninguém, e permeados por esse princípio, florescemos num respeito mútuo.
Isto, ao meu ver, é cidadania: poder exercer o direito à liberdade - mesmo que esse direito dure apenas alguns instantes. Ao menos já temos algum lampejo do que possa ser a liberdade.
Não tenho vergonha nenhuma de dizer e parecer uma sonhadora alucinada: eu sonho com um mundo feito de ruas, árvores e bicicletas. Um lugar em que se pode, além de continuar sonhando, vivenciar intimamente a sua própria natureza livre e sedenta por se aperfeiçoar a cada nova experiência – mas com os próprios pés e presença de espírito.
31.8.11
miosan
outro dia recorri a um analgésico por conta de um torcicolo que me infernizava os nervos. eu que quase não uso remédios devo ser mais sensível a essas substâncias, assim como ao álcool - nunca tomo e quando tomo é pra ficar bamba no primeiro gole.
aconteceu que o remédio fez efeito... mas não foi o efeito esperado, foi logo um belo efeito colateral. capotei na cama, num sono estranho de quem desliga a mente mas não desliga o corpo (ou terá sido o inverso?). não sei o que estava ligado, sei que acordei num pulo com meu próprio berro, tão assustada quanto aquela ursa panda que ficou em apuros ao ouvir o espirro repentino do filhote.
minha gata correu para o lugar mais alto da casa, coitada. de rabo grosso e olho arregalado, correu pra perto da porta enquanto eu descobria onde eu estava e se era dia.
deitei de volta. ainda sem contato com a realidade. por sorte, ninguém chamou os bombeiros e minha gata demorou a se aproximar de novo. a única vez que eu havia soltado um grito dessa natureza foi quando entrou um gafanhoto pela janela. ele pousou direto na minha cabeça. meu grito adentrou a madrugada, acho que até chegou do outro lado do mundo e só depois virou gargalhada. esse, não: foi de repente, fui dormir assustada. o outro foi sem pulo. esse foi de pancada.
o torcicolo? bom, acho que passou com a compressa.
outro dia recorri a um analgésico por conta de um torcicolo que me infernizava os nervos. eu que quase não uso remédios devo ser mais sensível a essas substâncias, assim como ao álcool - nunca tomo e quando tomo é pra ficar bamba no primeiro gole.
aconteceu que o remédio fez efeito... mas não foi o efeito esperado, foi logo um belo efeito colateral. capotei na cama, num sono estranho de quem desliga a mente mas não desliga o corpo (ou terá sido o inverso?). não sei o que estava ligado, sei que acordei num pulo com meu próprio berro, tão assustada quanto aquela ursa panda que ficou em apuros ao ouvir o espirro repentino do filhote.
minha gata correu para o lugar mais alto da casa, coitada. de rabo grosso e olho arregalado, correu pra perto da porta enquanto eu descobria onde eu estava e se era dia.
deitei de volta. ainda sem contato com a realidade. por sorte, ninguém chamou os bombeiros e minha gata demorou a se aproximar de novo. a única vez que eu havia soltado um grito dessa natureza foi quando entrou um gafanhoto pela janela. ele pousou direto na minha cabeça. meu grito adentrou a madrugada, acho que até chegou do outro lado do mundo e só depois virou gargalhada. esse, não: foi de repente, fui dormir assustada. o outro foi sem pulo. esse foi de pancada.
o torcicolo? bom, acho que passou com a compressa.
30.8.11
fome de madrugada
chuva de noite
enquanto o mundo tá quieto
delícia de chuva chovendo
como uma paz gigante
chuviscando
chuva de noite
enquanto o mundo tá quieto
delícia de chuva chovendo
como uma paz gigante
chuviscando
29.8.11
nem sempre
nem sempre
uma música
que a gente sabe cantar
vai ficar boa
não que a gente deixe
de saber cantar
a música
mas pode ser
que naquele momento
a música
não caiba em nós
nem sempre
o que a gente sabe
cabe
naquele momento.
nem sempre
uma música
que a gente sabe cantar
vai ficar boa
não que a gente deixe
de saber cantar
a música
mas pode ser
que naquele momento
a música
não caiba em nós
nem sempre
o que a gente sabe
cabe
naquele momento.
28.8.11
insight sobre a saudade
enquanto o mar
encontra os pés
e se despede
A saudade também é como o amor: vai e vem no ar - exatamente como diz aquela música bonita. Então quando ela vem, o abraço fica em espera. E quando o abraço vem, a saudade recua e espera.
O abraço reveza com a saudade. Eles no fundo são a mesma coisa, um não existe sem o outro. Se não houvesse a saudade, não haveria o abraço sincero. E se não houvesse o abraço, não haveria esse depois virando saudade.
Agora me dou conta: a saudade é um abraço em espera. Como o mar. Como o amor. Sempre esperando para fluir ao encontro.
Agora me dou conta: a saudade é um abraço em espera. Como o mar. Como o amor. Sempre esperando para fluir ao encontro.
21.8.11
Cidades
Escadas para subir.
Escadas para descer.
Elevador para quem tem pressa.
Vitrine para olhar.
Calçada para caber o passo.
Ruas para os carros.
Avenidas para passar o dinheiro
e parques para nos salvarmos um pouco das cinzas.
Bons tempos em que eu e minha "gangue" (es)corríamos pelas calçadas da cidade, pisando em poças, pulando em muros-paredes e fazendo com que virassem escorregadores fantásticos...
Quando somos crianças, tudo é um convite. Os espaços urbanos são vistos como meio para um lugar de espírito novo. Depois de alguns anos, já adultos, mal nos sentimos capazes de nos lançarmos a novos estados de espírito por meio de um lugar fisicamente construído e de transcendê-lo com liberdade.
O Parkour (esporte urbano criado na França) é uma dança, um contraponto aos elementos urbanos, um pulo quântico entre a dureza das cidades e a nossa liberdade mais íntima.
Expressar-se nas cidades vai muito além de obedecer ao que os espaços sugerem. Aparentemente inofensivos, os espaços em que circulamos acabam por controlar nossos corpos e tomar nossos sonhos até sobrar apenas aquele último suspiro - felizmente intomável. Depois, quando nos damos conta, viramos amebas-urbanas. Apáticas e duras como as cidades.
O Parkour, assim como a poesia, propõe o desvio da dureza fria da vida e nos revela um lugar de liberdade. É um grito sob a forma de uma música contínua que beira o contorno das cidades, fazendo com que pertençamos sem pertencer. Voo do espírito a despeito de todas as coisas duras - que nos limitam o movimento interno e externo.
O Parkour nos convida a experimentar a nossa própria natureza. É uma viagem para dentro para quem pratica e uma inspiração vibrante para quem presencia sua força e verdade.
Marcadores: artes marciais, cidades, cultura, liberdade, parkour, poesia, urbano
10.8.11
31.7.11
Meio poema
Num ímpeto poético, sacou o lápis de pintar os olhos, olhou-se no espelho e escreveu metade de um poema em cada um dos pés.
Pensou “por que ninguém nunca pensou em fazer uma música infinita, que não acabasse nunca?”
A realidade era como uma roupa pesada, então havia momentos de grande desespero em que queria se ver livre daquele tecido que não lhe pertencia, que lhe aterrava os pés e as mãos.
A realidade, ao contrário do que parece, é quem entorpece. É preciso saber atravessá-la, senão morre-se aos poucos – de overdose.
Sentia como se atendesse ao pedido do mundo sem nem ao menos matar sua sede.
Queria estar nua, e nessa nudez se encontrar. Mas quem entenderia que era necessário estar nua? Bastava-lhe a nudez, e era justamente esse o lugar tão bravamente evitado pelo mundo.
Na sua pele caberiam apenas palavras cruas, pintadas à mão. Porque se um dia ela não enxergasse ao menos as palavras estariam todas ali na sua nudez, disponíveis sobre a pele.
Tudo bem atender ao mundo, mas precisava ela mesma cantar antes.
A vida não poderia ser pela metade, sem voos de silêncio, sem ao menos uma dose de poesia por dia.
Passou a mão sobre os lábios, e olhou novamente no espelho. Um sorriso curto lhe escapou: lembrou que seu sangue era quente.
Pensou “por que ninguém nunca pensou em fazer uma música infinita, que não acabasse nunca?”
A realidade era como uma roupa pesada, então havia momentos de grande desespero em que queria se ver livre daquele tecido que não lhe pertencia, que lhe aterrava os pés e as mãos.
A realidade, ao contrário do que parece, é quem entorpece. É preciso saber atravessá-la, senão morre-se aos poucos – de overdose.
Sentia como se atendesse ao pedido do mundo sem nem ao menos matar sua sede.
Queria estar nua, e nessa nudez se encontrar. Mas quem entenderia que era necessário estar nua? Bastava-lhe a nudez, e era justamente esse o lugar tão bravamente evitado pelo mundo.
Na sua pele caberiam apenas palavras cruas, pintadas à mão. Porque se um dia ela não enxergasse ao menos as palavras estariam todas ali na sua nudez, disponíveis sobre a pele.
Tudo bem atender ao mundo, mas precisava ela mesma cantar antes.
A vida não poderia ser pela metade, sem voos de silêncio, sem ao menos uma dose de poesia por dia.
Passou a mão sobre os lábios, e olhou novamente no espelho. Um sorriso curto lhe escapou: lembrou que seu sangue era quente.
13.7.11
antes de atravessar o farol
olha pra cima, e desvia da mira da pomba que está sentada no fio de alta tensão. lembra também de olhar para todos os lados, pois pode vir um carro na contramão. olha pra baixo e vê se não tem um buraco. desvia de novo, e sempre que precisar. desviar é parte da natureza urbana.
olha pra cima, e desvia da mira da pomba que está sentada no fio de alta tensão. lembra também de olhar para todos os lados, pois pode vir um carro na contramão. olha pra baixo e vê se não tem um buraco. desvia de novo, e sempre que precisar. desviar é parte da natureza urbana.
11.7.11
poesia engajada
gatos lambem.
gatos roncam.
gatos dormem junto.
gatos apreciam o calor.
gatos sonham.
gatos ficam ao seu lado.
gatos olham o mundo
do lugar de poder.
gatos escondem-se.
gatos escancaram-se.
gatos escolhem quem é digno
de seu afeto.
gatos beijam e conversam.
gatos nunca perdem o senso de humor apurado.
gatos rejeitam presentes caros.
gatos são elegantes e graciosamente desastrados.
gatos ficam sentados.
gatos ficam quietos.
gatos amam sobretudo a simplicidade
e riem, quase sempre, dos humanos.
gatos lambem.
gatos roncam.
gatos dormem junto.
gatos apreciam o calor.
gatos sonham.
gatos ficam ao seu lado.
gatos olham o mundo
do lugar de poder.
gatos escondem-se.
gatos escancaram-se.
gatos escolhem quem é digno
de seu afeto.
gatos beijam e conversam.
gatos nunca perdem o senso de humor apurado.
gatos rejeitam presentes caros.
gatos são elegantes e graciosamente desastrados.
gatos ficam sentados.
gatos ficam quietos.
gatos amam sobretudo a simplicidade
e riem, quase sempre, dos humanos.
Marcadores: afeto, animais, engajamento, gatos, poesia
7.7.11
Não, obrigada
A mulher segue forçando a barra. A minha sorte foi que, por alguma bênção do universo, ela mesma ligou para cancelar o dia da tal “seletiva”.
- Mas eu posso saber o nome da empresa?
- Então, é uma empresa séria, tá, é uma multinacional, tá, e que garantidamente te dará ganhos bem altos.
Eu tento falar, mas não consigo.
- Então que dia você prefere vir para a seletiva?
Sim, ela disse “seletiva”. Eu fui chamada para um processo seletivo para...? Ãrrã, com certeza eu irei a um processo em que serei “selecionada” não sei nem para quê. Claro, oportunidade única.
Respiro. Respiro. Interrompo, educada:
- Olha, eu não posso comparecer a um lugar em que eu sequer sei se tenho interesse em atuar. Sinto muito, se vocês não podem dar mais informações, não posso também desperdiçar meu tempo.
A mulher altera a voz e fica visivelmente impaciente com minhas perguntas impertinentes.
É aqui que eu começo a me divertir: quando a mulher começa a perder as estribeiras ao perceber que a mentira lavada dela está com os minutos contados.
Interrompo, já prevendo o terreno em que estou pisando:
- Ah, outra dúvida, a pessoa terá de pagar algo para entrar na empresa? Tem que investir algum capital para começar a trabalhar com vocês?
Juro por Deus: a mulher ficou muda.
Mas alguns segundos depois da pergunta, ela se refez e respondeu tentando disfarçar a vontade de me mandar à merda:
- Depende do que você chama de investimento. Por exemplo, você considera um investimento comprar um taier, comprar um uniforme?
Juro que ela deu esse exemplo.
- Não, quero dizer pagar mesmo.
- Sim, sim, a pessoa paga uma taxa ao fazer um cadastro conosco, tá.
Cansei da brincadeira, cansei da mulher sem-noção.
- Olha, não tenho interesse, tá?
Às vezes, dizer um não redondo é de um prazer indescritível. Dar um não para quem merece compensa todos os “nãos” dados e recebidos na vida. É uma dádiva terapêutica.
Vai saber, podia ser um sequestro relâmpago ou, quem sabe, eu posso até ter escapado de participar de alguma pegadinha com o Ivo Holanda. Who knows...
A mulher segue forçando a barra. A minha sorte foi que, por alguma bênção do universo, ela mesma ligou para cancelar o dia da tal “seletiva”.
- Mas eu posso saber o nome da empresa?
- Então, é uma empresa séria, tá, é uma multinacional, tá, e que garantidamente te dará ganhos bem altos.
Eu tento falar, mas não consigo.
- Então que dia você prefere vir para a seletiva?
Sim, ela disse “seletiva”. Eu fui chamada para um processo seletivo para...? Ãrrã, com certeza eu irei a um processo em que serei “selecionada” não sei nem para quê. Claro, oportunidade única.
Respiro. Respiro. Interrompo, educada:
- Olha, eu não posso comparecer a um lugar em que eu sequer sei se tenho interesse em atuar. Sinto muito, se vocês não podem dar mais informações, não posso também desperdiçar meu tempo.
A mulher altera a voz e fica visivelmente impaciente com minhas perguntas impertinentes.
É aqui que eu começo a me divertir: quando a mulher começa a perder as estribeiras ao perceber que a mentira lavada dela está com os minutos contados.
Interrompo, já prevendo o terreno em que estou pisando:
- Ah, outra dúvida, a pessoa terá de pagar algo para entrar na empresa? Tem que investir algum capital para começar a trabalhar com vocês?
Juro por Deus: a mulher ficou muda.
Mas alguns segundos depois da pergunta, ela se refez e respondeu tentando disfarçar a vontade de me mandar à merda:
- Depende do que você chama de investimento. Por exemplo, você considera um investimento comprar um taier, comprar um uniforme?
Juro que ela deu esse exemplo.
- Não, quero dizer pagar mesmo.
- Sim, sim, a pessoa paga uma taxa ao fazer um cadastro conosco, tá.
Cansei da brincadeira, cansei da mulher sem-noção.
- Olha, não tenho interesse, tá?
Às vezes, dizer um não redondo é de um prazer indescritível. Dar um não para quem merece compensa todos os “nãos” dados e recebidos na vida. É uma dádiva terapêutica.
Vai saber, podia ser um sequestro relâmpago ou, quem sabe, eu posso até ter escapado de participar de alguma pegadinha com o Ivo Holanda. Who knows...
3.7.11
Uma noite no MuBE
- É Maria Bethânia! – gritou uma das pessoas que rodopiavam na pista, enquanto tocava Moraes Moreira.
Não demorou para que caísse uma menina sentada, na tentativa do passo de frevo, e para que derrubassem o extintor no lago artificial que ficava ao lado da pista.
Na segunda taça, decidi que já estava pronta para dançar com as mãos livres. Na ausência do garçom larguei a taça no chão mesmo e rodopiei mais um pouco até a música parar.
Já era hora da premiação dos filmes, “favor dirigirem-se ao auditório”, sugeriu um dos anfitriões da festa.
A perna já formigava, a cabeça esquentava. Entramos no auditório, sentamos no ponto mais alto. Quando não é um pescoço comprido na sua frente, pode ter certeza que um sujeito irá lhe pinicar na cadeira detrás. Então mudei de cadeira e senti o alívio infinito de quem não tem alguém chutando suas costas.
Enquanto aguardava o início da entrega dos prêmios, o anfitrião olha para a platéia e solta no microfone:
- Perdi alguma piada?
O tom era sério, grave, pensamos logo que aquilo era um teatro, algum tipo de piada que fazia parte da cerimônia.
Silêncio na platéia. Volta um burburinho e o homem se enerva de novo:
- Oi? Será que podemos ficar em silêncio? Ao menos em respeito à sétima arte?
O olhar irado do anfitrião nervoso fixava-se nos meninos da fileira da frente. Não era piada, o homem era realmente uma mistura de paranóia com arrogância. Parecia que tinham-lhe servido uma comida estragada.
- Mas que homem nervoso – pensamos em voz alta.
Ainda sob o efeito das taças achei aquilo engraçado, mas não aplaudi nenhuma de suas subidas ao palco. Ganhou o média-metragem que havíamos votado. O melhor. Mais que merecido. Adoro.
Mas acabou a noite – sim, a noite é finita - e o que ficou foi o frevo vibrante, as luzes verdes da música, o barulho do extintor caindo no lago e a quentura suave das taças passando aos poucos.
- É Maria Bethânia! – gritou uma das pessoas que rodopiavam na pista, enquanto tocava Moraes Moreira.
Não demorou para que caísse uma menina sentada, na tentativa do passo de frevo, e para que derrubassem o extintor no lago artificial que ficava ao lado da pista.
Na segunda taça, decidi que já estava pronta para dançar com as mãos livres. Na ausência do garçom larguei a taça no chão mesmo e rodopiei mais um pouco até a música parar.
Já era hora da premiação dos filmes, “favor dirigirem-se ao auditório”, sugeriu um dos anfitriões da festa.
A perna já formigava, a cabeça esquentava. Entramos no auditório, sentamos no ponto mais alto. Quando não é um pescoço comprido na sua frente, pode ter certeza que um sujeito irá lhe pinicar na cadeira detrás. Então mudei de cadeira e senti o alívio infinito de quem não tem alguém chutando suas costas.
Enquanto aguardava o início da entrega dos prêmios, o anfitrião olha para a platéia e solta no microfone:
- Perdi alguma piada?
O tom era sério, grave, pensamos logo que aquilo era um teatro, algum tipo de piada que fazia parte da cerimônia.
Silêncio na platéia. Volta um burburinho e o homem se enerva de novo:
- Oi? Será que podemos ficar em silêncio? Ao menos em respeito à sétima arte?
O olhar irado do anfitrião nervoso fixava-se nos meninos da fileira da frente. Não era piada, o homem era realmente uma mistura de paranóia com arrogância. Parecia que tinham-lhe servido uma comida estragada.
- Mas que homem nervoso – pensamos em voz alta.
Ainda sob o efeito das taças achei aquilo engraçado, mas não aplaudi nenhuma de suas subidas ao palco. Ganhou o média-metragem que havíamos votado. O melhor. Mais que merecido. Adoro.
Mas acabou a noite – sim, a noite é finita - e o que ficou foi o frevo vibrante, as luzes verdes da música, o barulho do extintor caindo no lago e a quentura suave das taças passando aos poucos.
4.6.11
A quem serve a poesia
Assim como existem os serviços de telefonia e manutenção de piscinas, existe quem faça poesia – seja por meio das mãos, da música, ou de qualquer expressão/forma que materialize as verdades sobre as quais vivemos, nossas dores, nosso tudo.
É este o serviço prestado por quem escreve: atender a um chamado e entregar à alma das pessoas o que vivem, sofrem, choram e sonham. O escritor devolve a pessoa a ela mesma. E nada ganha por isso. Mas ele não tem outro caminho a não ser respirar e metade de seu ar está no ato de escrever. Disso flui sua paz.
A diferença entre quem presta um serviço de desentupimento de pia e quem faz poesia é que neste segundo caso não se escolhe o ofício. Escolhe-se seguir um chamado, apenas isso. Não se escolhe nascer para isso, simplesmente se é. Ou será que alguém em sã consciência escolheria a escrita como condição de encontrar-se com a verdade? Quem e por que alguém escolheria nascer para a escrita?
O tempo do escritor é digressivo, foge das verborragias dos lugares e ao mesmo tempo se inunda dela. Se afunda e se ilumina na cidade. Ele sofre dos excessos e renasce neles. É um ser feito de água o escritor? Mergulhado na incompreensão e fluindo com ela. Ele tem sua poesia consumida, mas tem que se sustentar com um outro ofício – normalmente algo como desentupir pias ou atender telefone ou construir pontes ou cortar madeira.
Escrever, ainda hoje, é para o resto do tempo. E isso me dói, é um rasgo constante na pele, pois fere o que sou. Não sou para o resto do tempo. Não posso deixar-me na gaveta e então sacar-me por alguns minutos e às vezes passar dias sem me convidar para um café.
Quem escolheria para si um ofício que nada lhe dá em retorno, a não ser uma realização profunda e íntima, mas que sabidamente não lhe pagará as contas?
Na escrita as horas são belas. E é desse lugar que se pode transformar qualquer coisa. Experiências incessantes viram um amontoado de poeira, se não são colocadas em nossas mãos, se não lhes damos forma.
Não se escolhe a escrita, assim como não se escolhe ser gay, assim como não se escolhem os caminhos mais cheios de gente olhando feio para sua cara. Simplesmente se é e se não seguirmos nossa orientação viveremos uma vida de mentira. E esta – ao menos para mim – não é uma opção.
Que a poesia, então, aprenda a invadir, que aprenda a adentrar onde não foi convidada. Chegando sempre como quem olha nos seus olhos quando você já não espera mais nada da vida.
Assim como existem os serviços de telefonia e manutenção de piscinas, existe quem faça poesia – seja por meio das mãos, da música, ou de qualquer expressão/forma que materialize as verdades sobre as quais vivemos, nossas dores, nosso tudo.
É este o serviço prestado por quem escreve: atender a um chamado e entregar à alma das pessoas o que vivem, sofrem, choram e sonham. O escritor devolve a pessoa a ela mesma. E nada ganha por isso. Mas ele não tem outro caminho a não ser respirar e metade de seu ar está no ato de escrever. Disso flui sua paz.
A diferença entre quem presta um serviço de desentupimento de pia e quem faz poesia é que neste segundo caso não se escolhe o ofício. Escolhe-se seguir um chamado, apenas isso. Não se escolhe nascer para isso, simplesmente se é. Ou será que alguém em sã consciência escolheria a escrita como condição de encontrar-se com a verdade? Quem e por que alguém escolheria nascer para a escrita?
O tempo do escritor é digressivo, foge das verborragias dos lugares e ao mesmo tempo se inunda dela. Se afunda e se ilumina na cidade. Ele sofre dos excessos e renasce neles. É um ser feito de água o escritor? Mergulhado na incompreensão e fluindo com ela. Ele tem sua poesia consumida, mas tem que se sustentar com um outro ofício – normalmente algo como desentupir pias ou atender telefone ou construir pontes ou cortar madeira.
Escrever, ainda hoje, é para o resto do tempo. E isso me dói, é um rasgo constante na pele, pois fere o que sou. Não sou para o resto do tempo. Não posso deixar-me na gaveta e então sacar-me por alguns minutos e às vezes passar dias sem me convidar para um café.
Quem escolheria para si um ofício que nada lhe dá em retorno, a não ser uma realização profunda e íntima, mas que sabidamente não lhe pagará as contas?
Na escrita as horas são belas. E é desse lugar que se pode transformar qualquer coisa. Experiências incessantes viram um amontoado de poeira, se não são colocadas em nossas mãos, se não lhes damos forma.
Não se escolhe a escrita, assim como não se escolhe ser gay, assim como não se escolhem os caminhos mais cheios de gente olhando feio para sua cara. Simplesmente se é e se não seguirmos nossa orientação viveremos uma vida de mentira. E esta – ao menos para mim – não é uma opção.
Que a poesia, então, aprenda a invadir, que aprenda a adentrar onde não foi convidada. Chegando sempre como quem olha nos seus olhos quando você já não espera mais nada da vida.
1.6.11
para não morrer de frio
escreve como quem se aquece
apenas se leve
sem o compromisso de ser lido
estava equidistante da irritação e da serenidade absoluta. com o frio, seus dedos andavam duros e preguiçosos para escrever o que era para se estar anotando da vida. pulsava uma coisa viva dentro dela. e era isso que a ligava ao mundo inteiro - e não escrever era se destroçar.
como seria o momento em que cada um para o tempo pra ficar consigo mesmo? como seria o silêncio íntimo das pessoas que conheço? será que ele existe? será que têm medo?
a coisa viva fez com que ela escrevesse. então tirou uma luva e pegou a caneta. torcia para o trem demorar mais um pouco. e confidenciou à caneta "não larga de mim pois sinto frio".
e ficou mais calma. apenas por obedecer. suspensa dentro do vagão não viu mais nada, nem o tempo. dessa vez não foi arrastada. ela nem sabia ao certo o que era para ser escrito, mas se acalmou com o calor que veio da escrita.
não se sabe o tempo que ficou ali, sabe-se apenas que parou para não morrer de frio.
escreve como quem se aquece
apenas se leve
sem o compromisso de ser lido
estava equidistante da irritação e da serenidade absoluta. com o frio, seus dedos andavam duros e preguiçosos para escrever o que era para se estar anotando da vida. pulsava uma coisa viva dentro dela. e era isso que a ligava ao mundo inteiro - e não escrever era se destroçar.
como seria o momento em que cada um para o tempo pra ficar consigo mesmo? como seria o silêncio íntimo das pessoas que conheço? será que ele existe? será que têm medo?
a coisa viva fez com que ela escrevesse. então tirou uma luva e pegou a caneta. torcia para o trem demorar mais um pouco. e confidenciou à caneta "não larga de mim pois sinto frio".
e ficou mais calma. apenas por obedecer. suspensa dentro do vagão não viu mais nada, nem o tempo. dessa vez não foi arrastada. ela nem sabia ao certo o que era para ser escrito, mas se acalmou com o calor que veio da escrita.
não se sabe o tempo que ficou ali, sabe-se apenas que parou para não morrer de frio.
25.5.11
trajetória
começou a conversa desajeitadamente
pôs ordem na casa
amanheceu caoticamente
(e ordenou ao tempo que estancasse
correu então por cima dos minutos
disse um basta.
basta. eu vou na frente.)
decidiu falar quando houvesse verdade
e calar quando fosse cansativa a palavra
(o mundo gasta palavras
como quem mente compulsivamente)
por isso renasço
para saber o começo
para saber se começo a conversa calada e sem pressa
ou se revisto meu silêncio de palavras
depois de tantos elevadores.
começou a conversa desajeitadamente
pôs ordem na casa
amanheceu caoticamente
(e ordenou ao tempo que estancasse
correu então por cima dos minutos
disse um basta.
basta. eu vou na frente.)
decidiu falar quando houvesse verdade
e calar quando fosse cansativa a palavra
(o mundo gasta palavras
como quem mente compulsivamente)
por isso renasço
para saber o começo
para saber se começo a conversa calada e sem pressa
ou se revisto meu silêncio de palavras
depois de tantos elevadores.
6.5.11
Hein?
Tô cansada de ouvir essa frase: "prefiro os animais aos humanos". Gente, vamos parar de dizer o óbvio, e vamos parar de achar que é o máximo quem diz isso. Pois a coisa mais fácil do mundo é amar um animal: eles são dotados de uma sinceridade rara e de uma pureza que desconhecemos. Assim fica fácil.
Mas uma vida assim é limitada a uma zona de conforto nociva e o reino humano tem muito que evoluir. Portanto dizer que os animais prestam e os humanos não é uma forma absolutamente infantil de negar a própria capacidade de ser melhor na condição de humano.
Eu não quero preferir nem uma coisa nem outra. Não vou idolatrar humano, não vou idolatrar animal. Vou admirar cada um no que ele tem de mais transcendente e verdadeiro. Quero que tudo conviva em paz, num aprendizado mútuo que leva todo mundo pra frente. É para esse objetivo que caminhamos, não?
Tô cansada de ouvir essa frase: "prefiro os animais aos humanos". Gente, vamos parar de dizer o óbvio, e vamos parar de achar que é o máximo quem diz isso. Pois a coisa mais fácil do mundo é amar um animal: eles são dotados de uma sinceridade rara e de uma pureza que desconhecemos. Assim fica fácil.
Mas uma vida assim é limitada a uma zona de conforto nociva e o reino humano tem muito que evoluir. Portanto dizer que os animais prestam e os humanos não é uma forma absolutamente infantil de negar a própria capacidade de ser melhor na condição de humano.
Eu não quero preferir nem uma coisa nem outra. Não vou idolatrar humano, não vou idolatrar animal. Vou admirar cada um no que ele tem de mais transcendente e verdadeiro. Quero que tudo conviva em paz, num aprendizado mútuo que leva todo mundo pra frente. É para esse objetivo que caminhamos, não?
3.5.11
A água do sentimento
Não sei que dor é a mais difícil, se é a que dói de repente, ou se é aquela vai doendo aos poucos. O que sei é que nunca estamos preparados nem para nascer nem para morrer. E a dor de quem amamos sempre dói na gente, porque moramos em todos os lugares, e estamos mais ligados do que imaginamos.
Quando alguém vai embora é um pulo no abismo, é um desaviso, é um tiro no peito, é um mundo mais escuro. Só depois de algum tempo tudo pode ser que volte ao normal.
Sobrevivem neste mundo os que são capazes de enfrentar, reconhecer e conviver com a dor, esse corpo estranho que vai se tornando "amigável" com o tempo. Sobrevivem os que são capazes de chorar, de cantar, de sofrer o que cabe na lágrima.
A dor nos ensina: tudo que couber numa lágrima deve ser transbordado lágrima por lágrima. Palavra por palavra.
Faz parte, um dia entenderemos.
Não sei que dor é a mais difícil, se é a que dói de repente, ou se é aquela vai doendo aos poucos. O que sei é que nunca estamos preparados nem para nascer nem para morrer. E a dor de quem amamos sempre dói na gente, porque moramos em todos os lugares, e estamos mais ligados do que imaginamos.
Quando alguém vai embora é um pulo no abismo, é um desaviso, é um tiro no peito, é um mundo mais escuro. Só depois de algum tempo tudo pode ser que volte ao normal.
Sobrevivem neste mundo os que são capazes de enfrentar, reconhecer e conviver com a dor, esse corpo estranho que vai se tornando "amigável" com o tempo. Sobrevivem os que são capazes de chorar, de cantar, de sofrer o que cabe na lágrima.
A dor nos ensina: tudo que couber numa lágrima deve ser transbordado lágrima por lágrima. Palavra por palavra.
Faz parte, um dia entenderemos.



