2.12.14

quase aqui

o chamado que não diz o porquê. a coisa, o lugar: ai meu deus, a vida anda urgente. e eu sempre esperando a chuva. eu sempre desejando a chuva. não sei até quando, só sei que é assim. e isso deve ser uma espécie de sempre em mim. desejar a chuva. e descobrir que de repente a chuva mesma me constitui. e agora neste instante exato de fim de dia me colo no todo de novo, não sou mais eu, sou todas de mim. e não há certo ou errado, só beleza - torta, reta, feita de sangue ou de vento. se sou? há um infinito que me percorre, então sou.


teve uma noite em que eu chorei e o peito apertou de saudade das estrelas. nem sabia que era possível uma saudade assim. fiz uma foto do meu rosto e olhei: queria saber como era a saudade das estrelas vista de fora de mim. fotografar que é quando me silencio e aceito. que me acalmo de tudo. igual a chorar. ou a rezar. ou a amar. eu aceito o depois e o quando de tudo. às vezes, só de saber que depois chove, eu aceito. ou depois de perceber que sou infinita. antes era mais raro e eu sofria mais. acontece que há uma coisa que não deixa, que não se deixa pronunciar. ela é pela beira, ela é pelas pontas dos dedos, vai ali pelo peito e pulsa pulsa, ela só dança. só existe o perto dessa coisa, não se pega ela nunca. as palavras vão e dançam para essa coisa, sopram, respiram, são. porque encostar no mar inteiro é impossível. então o que se pode fazer é dizer como faz o pássaro: ele voa e assim ele encosta na coisa.

então me deu uma gastura depois do fim de tarde, acumulou poesia de novo bem no canto dos meus pés e nas asas e nos olhos. precisava pegar com as mãos aquela substância delicada, pegar como quem toca a pele da rosa. ir para o voo substancial, ir com os pés, ir para o abismo encantado. até ficar infinita de novo.

25.11.14

vida e poeira 

A poeira como a vida: nada poupa e se espalha pelos cantos. É imortal. É sem-fim, sem-começo, sem porquê ou para-onde. A vida-poeira: que não acaba nunca.

10.11.14

um miniconto astrológico

  — trabalha, formiga, trabalha — ordenava Saturno.

 e enquanto isso dentro da formiga a cigarrava gritava mais alto. Saturno servia então ao poder de fazer poesia com a vida que se tinha nas mãos.

4.11.14

um dia no parque

foi assim: o dia estava insuportável porque era calor e estavam enchendo o parque de lixo e barulho. andar e andar e andar como se anda num deserto. 


– lugar errado, na hora errada... - disse baixinho, perturbada - e por que você está cantando?


ela cantarolava enquanto caminhávamos na rua bombardeada. ela, que dispunha de uma alma tão colorida e forte, que conseguia cantar ali mesmo. respirou então, e parando de cantarolar o desespero, olhou bem nos meus olhos:


– porque estou tentando ficar calma...?


então o silêncio. e alguma coisa riu dentro de mim, um riso contrariado porque eu estava tão brava com a vida. uma risada desesperada. uma risada de beira de abismo.


foi quando aconteceu aquilo. estava tão cansada. ah, do barulho do mundo. achei que enlouqueceria. saí correndo e fui sentar num banco perto da beira do rio-tão-poluído. como faz quem não aguenta dar mais nenhum passo. e mesmo querendo gritar, só chorei. e chorei e chorei. de cabeça baixa, as mãos no rosto. queria dar minhas lágrimas pra terra. chorar, que é uma forma de dizer sim pra tudo e depois acalmar. pelo menos isso. dizem que evitar o choro faz mal à saúde e principalmente ao fígado humano. mas eu chorei mesmo de não aguentar mais tanto barulho. como faz um bicho cansado, não o cansaço de um pedreiro ou de um executivo, mas um cansaço antes de tudo incorporal, ancestral, cansaço de quem não acha lugar. 


– deixa eu deitar aqui?


e o meu olhar devia ser de quase-ausência. foi então que parti pra um tempo infinito, fechei os olhos. minhas asas protegidas. meu coração pego nas mãos. ah isso existe. aquela alma infinita e colorida me abraçando com um amor que eu não sabia que existia. e ela não fugiu. humanamente refiz as asas. 


precisava de um silêncio escuro pra me iluminar.

2.11.14

devir-clarice

era domingo. era depois. a gata veio e lambeu seu rosto cansado e amanhecido. seu destino era com os gatos, no ser-com o silêncio deles ela ficava maior e mais calma. foi então num entretempo que ela sentiu vontade. igualzinho quando a flor vai e se ergue no asfalto, ela teve vontade - mesmo cansada. ela que produzia, que fazia, que ia e que cansava, ela teve então vontade e foi enquanto caminhava no entretempo do dia. sentou-se com Clarice ali mesmo, olhou-a com a ternura de quem faz um café sem esperar nada da vida. pensou consigo que queria um pastel de feira com caldo de cana. e que seu dia seria singelo. viu que mesmo no árduo da vida ela podia ser. ela não se esquecia, quase nunca, de viver.

29.10.14

virando dia

a rua tão calma, tudo dorme. mas aqui dentro há um caos colorido, e o que eu quero dizer é do tamanho de um oceano. ah se eu me embalar nos meus excessos corro o risco de me sair ventando e o vento pode virar algum barco. é preciso cautela e prudência pra navegar em alto mar. eu não quero nada além de dizer, não a coisa em si, mas a pulsação da coisa. a pulsação que é inocente em si. ir pela palavra então é uma forma de conhecer a natureza da coisa. como quem beija e funda um outro tempo. e se eu puder pedir, peço isso: que as pessoas saibam ser-consigo. antes de tudo, isso. e que tenham paz e pouso. o dever-ser como caminho fácil pra lugar nenhum. árduo mesmo é ir pelo desejo. que o desejo é quem sabe do âmago das nossas forças. é ele que ergue as mangas pra criar. é dele que vem o ar. e a gente sabe se o caminho é o nosso na medida em que a gente se alegra com a chuva... quero estar assim: no perto das minhas chuvas, sem medo da cor que é existir. saber de mim, do que me atravessa. ser-com a estrela da madrugada. e isso é bonito porque respirar a estrela acende o meu peito de imensidão. e eu sou simples, infinita e inacabada. estou aprendendo a viver.

22.9.14

Sua Vênus quer dançar

Nunca vou deixar de gostar de ouvir Arrepio no modo repeat. Nunca vou deixar de me sentir tão viva no silêncio que é quando eu encontro com o mar. Nunca vou deixar de sentir meu corpo virar mais corpo quando minha alma dança e vice-versa. Nunca vou deixar de me acalmar quando chove. Nunca vou olhar nos olhos e não sentir nada. Nunca vou regar uma planta e não querer sentir o seu cheiro. Dizem que nunca não existe mas e se o nunca for um sempre atravessado no tempo? Um sempre de mim que me espera e me segue como uma sombra? Desse sempre-nunca, então, vou fazer a minha força. E é com ele que vou me libertar: pegando esse sempre de mim, levando comigo, fazendo ele dançar.

21.5.14

dance

porque dentro de mim há um lago fundo, um alto escuro luminoso que nem eu conheço direito. há em mim o tempo das coisas, vestido de borboleta amarela. vestido de rosa da noite. eu então dou um passo à frente, tiro o tempo pra dançar. arrumo a gravata e a saia, estou descalça. estou de joelhos. agora sou eu que te levo, tempo? que eu aprecio dançar.  

a verdade é que uma dor tem em si todas as dores e cansaços ancestrais. às vezes a vida dói e parece que vamos quebrar, mas não. porque o tempo vem dizer assim "é a minha vontade" ou será que ele diz "eu te desafio" ou "a vida é tudo e qualquer coisa" ou "calma e desespero são a mesma coisa" ou "dança simplesmente"? ah, me resta, como sempre, fazer o que se faz quando vira noite: eu vou até dentro do vento, procuro no escuro as faíscas. 

o que aconteceu é que eu não sei mais viver sem estar viva.

20.2.14




Aprendendo que esperar qualquer coisa que seja gera angústia. Esperar no sentido de querer que algo seja assim ou assado é um jeito de engessar-se no tempo, é um jeito de ferir o supra-sumo do acaso. Eu prefiro o desejo que deseja e inventa com o próprio passo e daí o que se encontrar é caminho. Caminho de uma potência que, ainda que tremulamente, deseja se efetuar.

25.12.13

no onde do sempre

a borboleta veio, pousou na flor tão colorida. eu que conheço o chão vi uma borboleta voar. eu que conheço o chão respirei fundo na borboleta. a borboleta me quis, como o vagalume me quis. a vida acendendo no meu rosto grave e urgente. chovo na borboleta. chovo no pouso da borboleta. chovo todos os pousos neste instante, choro de chuva inesperada. choro infinito. foi eu respirar a borboleta e ela me deu ar. no onde do sempre. lá onde as coisas vão pousar.

11.12.13



e esta sou eu: um voo no dentro das coisas. é que me emociona existir. então chove e 
eu poderia me proteger da chuva que está apertando, ficando mais forte, mas eu me rendo ainda mais. nada importa tanto quanto essa chuva. estou sendo regada e brotada do escuro. eu dentro dessa casca de mim. trêmula de silêncio. enxergo com as palmas dos dedos a poesia de toda beira de mundo. quanto de alma aguenta um corpo? 

29.11.13

mil compassos

minha gata está sonhando. e eu tenho medo que ela esteja dentro de um pesadelo. "devo acordá-la?", pensei. e ela acordou.


a cada decepção eu sinto que preciso celebrar alguma coisa. chorar não é senão uma rega? não, eu não me nego à chuva. eu que sou do reino da água. mas prudência sempre: regar nem demais nem de menos. suspiro, então. saudade de ver vagaluminhos.

e se eu vejo borboleta, se eu mergulho no céu da noite, é porque dentro de mim é cheio de estrelas que nunca morrem. vou pelo mundo, e me arrepio toda, ah quando se está vivo arrepia-se sempre. estar vivo é sempre melhor do que estar morto achando que se está vivo. e ouço o que existe e até o que não existe. clarice, onde estão as pessoas como você? a vida quase me basta só de eu saber que o mar existe. mas não basta. devorar o dentro dos instantes é o que me resta.

perdi a conta de quantas vezes já respirei na vida. e quantas mais, impossível contar, mas tem gente que conta. que conta os dias, as horas e as palavras. não quero desperdiçar intensidades em corpos vazios de sentidos. então eu abro os meus braços, aceito primeiro os meus próprios temporais.


28.11.13

atmosfera

chego junto com a chuva. o sofá é colorido. faz uma noite quente. o lugar que você escolhe é ali onde se enxerga tudo no escuro. à espreita e aos goles. sua força no sorriso, todos os mistérios nos seus olhos. e então eu vi por um segundo. o mundo mexe. estou viva. mesmo depois de morrer. chego perto. vejo seus olhos fechados. e quando eles abrem eu estou ali. dança e respiro. vou lá fora tomar um ar, medo de você ter ido embora, medo do nunca mais. não tem mais ar, apenas a sua fumaça. fico sem jeito, largo você pra fumaça. você não foi embora e eu então vivo uma alegria de criança quando recebe uma notícia boa. alegria curta e aguda. você não foi embora. eu danço muito perto, você olha quando eu não olho. e o tempo para pra sempre nesse silêncio tocando alto.

26.11.13

20 segundos

Há tanto dentro de mim que pode ser que você encoste e dê choque. Um dia eu abracei dois amigos e eles tomaram choque. Fiquei com medo de sair por aí dando choque nas pessoas. Abraço: vinte segundos e a pele da sua alma encostando na minha (a alma tem pele). Então o que eu estou descobrindo é que as existências se encostam umas nas outras todos os dias mas não se demoram. Há um medo de se demorar, um medo de uma pulsação de chuva. Morrer é mais importante. Acordar, comer e dormir, pagar as contas –respirar quando der. Já se acorda morrendo. Eu gosto de inverter, de inventar, mais do que gosto: eu preciso pisar no medo pra ele não pisar em mim. E às vezes ele pisa em mim. Mas pelo menos eu vou e olho nos olhos, nos seus olhos. Aqui um segredo: olhar, olhar mesmo, é respirar o que se olha. E abraçar é olhar com o corpo. É, o meu corpo dá choque, às vezes. E há tanto tanto dentro de mim que eu tenho vontade de ajoelhar e virar rio.

9.11.13

quanto

quanto mais tudo mais tudo. quanto mais fundo mais fundo. quanto mais nada mais nada. quanto mais aqui mais aqui. quanto mais tempo mais tempo. quanto mais vida mais vida. quanto mais do quê mais do quê. quanto mais, mais do quanto.

7.11.13

silêncios 


















tem o silêncio bom e cúmplice. silêncio de abraço. tem o silêncio sem jeito. tem o silêncio de casal quando briga. e que faz então a gente preferir a briga pra mudar de silêncio. tem o silêncio de dor e de morte, sem-fim, quase-sendo. tem o silêncio de quem cria. tem o silêncio perverso, de chumbo, que fere. tem o silêncio de música. tem silêncio de tarde. tem silêncio de passo, de rede, de gato, de comida no fogo. tem silêncio de calma e de vento. tem silêncio de medo, esmagado. tem silêncio de mar e de chuva. silêncio: lá onde cabem as coisas. lá onde conhecemos o fundo do mundo. 

5.11.13

o tudo e o nada

ah se ela pudesse sairia remando sem parar até cansar tanto que não houvesse coisa outra a fazer senão parar e dormir, sem pensamento, sem o tudo, e sem o nada. quanto ainda até aprender que a vida é um remar frenético e sem sentido. o lampejo de sentido que vem apenas no instante mais inesperado - que é estar à espera e nada acontece. a coisa que grita, grita tudo e é desordenada. eu tento ser delicada e pegar na mão. mas me escapa, me esquenta o corpo e eu tenho febre. febre de palavra perdida incendiando. eu tenho febre assim, pela calçada. e essa que eu sou dá tremedeira.

no vento e na água não tem vírgula não tem palavra. contra o quê a vida avança? que onde há lama as pessoas escorregam. a vida avança para onde. o dentro e o fora, tão dissonantes...

tudo eu imagino no presente. até o presente é como se me acontecesse agora. e também o passado sem fim. então eu ardo. queimo. e tenho febre. e não sei quando passa.

2.11.13

trânsitos de plutão

e eis que na minha solidão sísmica, esbarro numa moça de olhos bem-verdes. ela vestia um moletom cinza, pele bem clara, à vontade com a vida. deve ter tremido alguma coisa em volta de mim porque ela puxou assunto comigo. tinha um jeito simples e engraçado. pensei de cara “será que ganhei uma amiga?”, e ela me conta que vê logo quando alguém faz bem ou mal pra ela. então eu disse “e como você sabe?” ela: “ah, não consigo nem conversar com a pessoa”. eu: “é, tem gente que eu também não consigo nem ficar perto. vai me dando uma vontade de ir embora.” ela: “eu bocejo e as plantas morrem, é assim que eu sei”.


“uma vez fiquei triste quando um manjericão morreu de repente”, lembrei em voz alta.

ela ficou bem atrás de mim na escada rolante que descia. “deixar a esquerda livre pra quem quiser passar”, disse a mulher, sorrindo, pronta pra qualquer assunto.

“sou muito só”, continuou ela. e ela poderia ter dito “me sinto muito só”. tão diferente. não, ela era só, era a condição dela e ela me disse. ainda que casada. ainda que tudo. foi quando eu olhei pra ela: “nós somos tão sós, né?” 


"eu me visto assim, já fui até confundida com traficante", desconversou a mulher se referindo ao moletom. a mulher me fazia rir. e foram se dando alguns silêncios, o tempo ficando encorpado e leve, ela me contando dos trânsitos de plutão, eu rindo e ouvindo mais do que falando.

“e você vem sábado?” perguntou ela, tão à vontade com a própria solidão. ela, a mulher engraçada e de olhos tão-verdes.

30.10.13

texto da tarde




















tão sozinha que quase me desintegro e talvez eu precise mesmo me esfacelar e estar quebrada, quebrada de ser função de alguma coisa ou de alguém. como inspirar profundamente o ar. e se isso é não ser inocente então eu não sou, eu não sou. aqui a verdade: eu acredito e eu sinto. longe perto qualquer coisa. tanta gente morrendo e eu morrendo pra tanta gente. mas enquanto eu estiver viva, sucederá que eu chore à noite. sucederá eu me alegrar com a existência da borboleta do vento e do mar encostando na minha. sucederá que eu ame os gatos desse jeito que eu sei amar. então venta agora um vento leve na superfície, diferente do vento de dentro, que é quente e de angústia pura.


eu saio pra rua nem nua nem eu, uma de mim. e vou reparando enquanto escrevo, reparando e andando enquanto escrevo. andando como tudo anda em mim, tudo-sempre. que eu encarnei os meus próprios fluxos, quero saber quem são e o que têm pra me dizer. estou aqui toda pronta para minha solidão. mas que solidão povoada. que silêncio povoado. a verdade: não se diz, se escapa. eu vim pra esse lugar, aqui onde borbulha coisa sem intermédio. 

eu vivo porque o mar. vivo porque existiu aquele dia na pedra e o vento me amou tanto tanto. por isso eu ainda existo e sinto e consigo acordar. a madrugada quase clara e tão escura ainda. só a vida fala essa língua que é a língua da vida, por isso a natureza da madrugada é tão solitária. e infinita, outro tempo. leva-se aliás uma vida pra aprender a viver. e então que seja assim. e se eu choro é porque estou viva. fecho os olhos e vem vindo uma música forte, chega no corpo e permite então que eu seja qualquer coisa. o raro instante, a liberdade. funda. ela mexe revira e tem pele. haja palavra pra tanta chuva.

29.10.13

tudo e agora

assim como agora, que tudo absolutamente tudo me atravessa mais. Ah então é isto: a música ou algo que me remeta me pressione a me demorar. E então parece que eu tomei vinho. Outra de mim a cada encontro de tudo comigo. Mas estou sóbria. O vinho está ali e eu não dei um gole sequer. O indo o indo, o sendo o sendo. Como pegar na mão e mostrar? Por exemplo: a moça do meu lado lendo um livro. Há outro jeito de contar: a gente se encostou num segundo de olhar e logo e desesperadamente tratou de desencostar. Seus óculos são coloridos. Voltei o olhar. Vou ficar mais uma estação. Virou a página. Passou a minha estação e a minha hora. E suas botas são marrons, pés firmes no chão. Segurando o livro ainda. Que será que você está lendo. Não te olho mais. Você mexe no livro, folheia, vai ficando mais inquieta, não sabe o porquê de você mesma. Você mexe no livro como ninguém mais mexeria e o instante não se repetirá, então por isso ele é vivo e sacode.  E já passou a minha estação e eu não me importo.  Eu poderia lhe dizer isto: “tem que apagar a luz e virar noite pra ver vagalume”, mas fico quieta. Você se prepara pra descer, é a sua estação, você guarda o livro, fecha a bolsa, tira os óculos e parece cansada. E então eu fico. Eu fico. E lá se vai você. E sua bolsa colorida como seus óculos. E bonita como um cansaço: bonita você, bonita a bolsa, bonito o instante em que me disponho a durar. Chegou o trem, e eu notei, eu notei quando você virou o corpo e a gente encostou de novo. Outro olhar que seria o último. Sem palavra nenhuma, apenas indo no indo do tempo. 

24.10.13

onde se encostam as existências

e se as pessoas se conhecessem primeiro do dentro-de-si para o dentro do outro? e se as coisas se dessem primeiramente na dimensão do dentro, apenas quando as cascas dormissem um pouco? por exemplo: em vez de uma existência encostar na outra primeiro pela fronteira, pela casca, pelo visível e aparente, o conhecimento ou o acesso ao outro se desse antes-de-tudo pelo que está dentro.

primeiro de tudo: o dentro. será isso possível? e o dentro de um gostando do dentro do outro, então o fora-de-si e o fora do outro partiriam para um entendimento pautado no dentro - ainda que os foras não se quisessem do mesmo jeito, ou ainda que os foras não fossem tão encontrados como os dentros. então, ao menos, as existências (a de si e a do outro, ambos conjuntos infinitos, sem dentros ou foras fixos, mas de natureza singular e inigualável)
teriam se encostado, de fato. de um dentro a outro. e depois, apenas depois, de um fora a outro.

será que esse mundo é possível? um mundo em que as existências se encostem primeiro no dentro e depois no fora? primeiro no sendo depois todo o resto? por que partimos quase sempre da forma que vemos, ou seja, do que já é efeito de tantas coisas que se deram dentro? como burlar a casca? é uma aflição tão grande ver tudo pelo efeito, nos escapando o dentro. mas se é o dentro o que mais me interessa primeiríssimo de tudo... então, inverter um pouco: primeiro o que é e então o que eu vejo derivando do que é. e não o que é derivando do que eu vejo. 

por que será que na vida é primeiro o fora e depois o dentro? será que se entregássemos o dentro estaríamos em perigo e indefesos? a capacidade de ver o que é-sendo nos é dada apriori? a capacidade de ver o todo-que é-sendo nos assustaria? há poros nas cascas? há cascas e cascas? há gente sem casca? há coisa sem casca? há cascas sem dentro? há instantes sem cascas? chegamos sempre ao que é de cada coisa?

eu sinceramente uso palavra porque não sei desenhar. é difícil dizer os fluxos, fazer a água caber. no prédio onde eu moro tem vários jardins e às vezes caem tatus-bola pelo chão. eles se perdem dos jardins, esquecem que nem tudo é jardim e terra fresca. então aconteceu que eu vi hoje um tatu-bola caído do jardim. peguei uma folha seca e ele voltou pro jardim. a existência dele encostando na minha e sem a gente dizer nada. outro dia também, de madrugada, eu vi um gato preto passeando pela rua, ele parecia feliz e livre. não há paz igual ao silêncio da madrugada. deve ser porque todas as cascas estão rendidas e cansadas. 

será que pra inverter basta demorar o olhar e então a casca perde o sentido, e o que está dentro escorre e aparece e acontece? e exatamente aí as existências se encostam? não as cascas, que cascas se encostam o tempo todo, afetam-se o tempo todo. as existências, os dentros, se encostam, se encontram. e daí se faz mais vida? assim?

14.10.13






















hoje a noite pede rua. a lua que me disse.


e pensar que numa outra vida estive naquele mesmíssimo lugar pra chorar, quase morta. revisitar os lugares é algo tão interessante porque é um jeito da gente descobrir se ainda há poeira. e chovia tanto naquele dia. mas hoje... hoje a lua me encontrou. olhei pro céu da noite, e bem num espacinho minúsculo entre as folhas estava a lua: eu precisava estar naquele lugar naquele instante pra ver o que eu vi. pra ver a lua tão viva bem no meio da árvore. acima da minha cabeça. eu esperava sem saber? talvez.


aqui no tempo paralelo: tomar cuidado com o pouso. com o retorno, que às vezes a gente quer ficar mais. saber o tempo de atravessar os mundos. porque não há um aqui sem que exista o sendo.


desde sempre e a cada passo, era preciso que eu visse. procuro quem diga perfeitamente sem dizer. na verdade eu mesma não sei dizer nada direito porque pra dizer uma dança eu teria que dançar, eu teria que me escapar inteira. então como é bom quando alguém escapa a si mesmo, é o que eu quero dizer. como um suor que escorre, quero escorrer.


então a noite como eu gosto: com uma lua e tudo mexendo no céu. e quando eu conheço alguém vou logo dizendo: nos meus braços moram rosas.

4.10.13

braços abertos



: todos os silêncios pousando nos meus braços. todos os cansaços culminando no segundo mais bonito. ninguém e todas as coisas. o instante durando nos meus dedos e na noite breve. na ponta dos olhos, outro gole de palavra. me atravessando. balançando as minhas asas. ai de mim se eu saio assim nua e urgente. ai de mim ser um estado de natureza. só que mais e mais sou um gerúndio. acontecendo e nunca fica tarde. a inocência que é estar no profundo estado de urgência. meu pedido de vida: um lugar para os instantes urgentes, onde o tempo não seja falso e arrastado.

30.9.13

Deixar chover




















A pior mentira é a que contamos para nós mesmos. Dar um passo, e depois outro, e depois outro, atendendo aos chamados da alma, tendo a coragem de ver o que houver pra ver: é essa nossa missão de vida fundamental. O resto deriva disso. O resto é horizonte à espera, é vida acontecendo. Escute-se e o que é da vida andará ao seu lado. Deixar chover. Deixar chover.

27.9.13

nem dia nem noite
nem noite nem dia
onde eu pouso?


gosto tanto das manhãs. quanto mais de manhãzinha, mais o ar tem gosto de promessa de vida, mais parece que a vida só começa e não termina.

de tarde não dá mais tempo. devia existir tarde só pra se ver o sol se pondo. a tarde: que não é nem dia nem noite. então à tarde a gente devia ser igual, ser tarde também, entender que dentro da gente está virando noite. mas quem é capaz de dar de cara com sua luz e sombra?

madrugada. as coisas começam a se mexer de novo, a acordar devagarinho. frescas, novas, nascidas no tempo e no não-tempo.


a tarde e a madrugada existem para que o dia e a noite sigam de mãos dadas.
madrugada e tarde deviam ser calmas. dias e noites, vividos. nada mais.

9.9.13

joana

perto da chegada da primavera, a vontade de vida maior, saí pra pedalar. aqui não tem ciclovia (o que tem aqui, afinal?), então vai-se pelo asfalto quente e seco. mas ainda assim, ainda assim!, grita vida por toda parte, por mais seco, por mais que o chão-em-chamas, esse chão duro das cidades, ainda assim!, voa uma joaninha na minha perna. “há de se aprender a voar, vamos voar?”, ela me diz, toda vermelha. e o céu ainda. e tudo lá em cima. a vida que grita, grita, grita - e acontece de repente. 

queima o chão e o vento da noite é diferente do vento do dia. o que ele me diz de dia é assim: calmo, fluido, amarelo vivo, é livre. à noite, o vento é mais calado, mais silêncio do que palavra. à noite o vento é silêncio puro que vai do corpo ao infinito. vento: a voz de cada coisa sendo.

enquanto eu pedalava, pousou uma joaninha na minha perna. nós duas ao vento. ela: vermelha, brilhante, viva. eu: verde e quente no asfalto, o chão me queimando de volta.

uma joaninha pousou na minha perna. eu voei, então?  

23.8.13

poeira e pressa

estou rodeada de árvores enquanto o mundo vai e enlouquece. simples assim: decidi pular pra fora do trem desgovernado. enquanto tanta gente se empobrece de poeira e de pressa.

um dos grandes problemas da forma como se vive hoje é que, ao estarem obsessivamente identificadas com a necessidade de sobrevivência, as pessoas acabam por dedicar cada vez menos tempo e energia psíquica para o desenvolvimento de suas consciências e potências. submetem-se mais e mais a um ciclo insano e automático do qual ficam reféns – e nesse ciclo, ao qual servem sem saber, vão se acostumando a viver sem horizonte.

a saída do labirinto consiste em retirar-se, conhecer-se, atravessar o tempo - para apenas então voltar ao mundo-das-coisas. mas há de se fazer esse caminho sempre e sempre, não uma ou duas vezes nem de vez em quando. falar de um “mundo melhor” ou de um “mundo bom pra se viver” é falar de criar condições para a vida florescer dentro da gente. é falar de indivíduos de mentalidade criadora, colaborativa, conectada, compassiva. é falar de um mundo feito de gente sabendo viver suas próprias potências, virtudes, saberes, gostos e, ao mesmo tempo, uma gente que respeita, que rega, que não se constitui de explorar e depreciar outras vidas.

sou feita de fogo então vivo uma certa urgência como se o tempo estivesse ao contrário. aí, pra me acalmar, eu me retiro, paro o tempo, só volto depois. é preciso, então, sair da servidão (deixar o que nos despotencializa). o que nos espera logo ali, depois do escuro e do susto, é uma vontade de vida - para si e para os outros. vale a pena fazer a travessia.

13.8.13

enquanto isso

sou adepta do “enquanto isso”. tem gente que faz uma coisa e outra. eu faço uma coisa enquanto outra: é bem diferente. enquanto a água do arroz ferve e o arroz cozinha, eu sento pra escrever, leio, adianto algum trabalho, organizo uma gaveta, brinco com os gatos. enquanto o cheiro da comida se espalha. é um jeito de ficar bem viva na espera. e às vezes a comida queima. no mundo do enquanto isso, as coisas podem queimar. é assim que eu cozinho, quase sempre. e a comida, quando vai ficando pronta, muda o cheiro. é impressão minha ou o enquanto isso muda o tempo? 

e para o café eu me preparo toda. enquanto ele vai ficando pronto, me arrumo como que pra uma merecida festa dentro de mim. é que do meu encontro com o café sempre surge uma vontade de vida. tudo que existe ficando mais perto. como estar com os pés bem descalços a beira mar, vendo a lua passar enorme pelo céu de fim de tarde.

colher tempero na horta também deixa os instantes menos duros. eu me componho bem com os cheiros, como se eles me guiassem pelo tempo, dizendo se está quente ou se está frio ou se é cedo ainda. já me peguei pensando algumas vezes: “se eu fosse cega, o mundo todo viria a mim pelo cheiro e pelo som e então como seria a minha vida? como eu seria afetada pelo mundo? e disso decorreria uma outra de mim?”. então, às vezes, quando meus olhos estão mais cansados, eu faço assim: reparo primeiro se não há nenhum buraco, e, bem no meio da calçada, dou uns dois ou três passos de olhos fechados. desacelero. dá medo. estar nesse mundo que a gente vê com os olhos e que é tão pouco do mundo. e acontece que, de olhos fechados, os instantes duram mais. o óbvio da vida nem sempre é a verdade. fico então por conta do corpo. e o corpo sabe o susto que é viver nesse lugar em que não se vê horizonte. ando meio cansada de lugares assim: onde as paredes e o chão e a poeira cobrem tudo. a natureza se desfazendo em desnatureza. por isso o meu total espanto com o mar, que é um estado de natureza. 

eu vou então me fazendo no tempo. tentando ser um eu infinito, no meu estado de natureza. enquanto tudo acontece.

4.8.13

A única coisa que me acalma profundamente, além do mar e da chuva, é olhar para o céu, à noite. Ver que sou uma coisinha minúscula piscando aqui embaixo, nesse planeta insano de humanos insanos, procurando (produzir ou encontrar?) algum sentido pra minha existência. Alguma coisa que justifique eu estar viva. E aí, a existência das estrelas e dos planetas, lá em cima, tão longe, parece de alguma forma se ligar à minha. Então eu penso: "alguma luz há de piscar dentro de mim também". Mesmo que eu não veja, que não sinta, que pareça escuro. A luz da noite é das mais bonitas.

21.7.13




1.7.13

mania de fundura

eu gosto sempre de frisar que eu não me relaciono com o que uma pessoa me apresenta – a não ser na metade de um primeiro instante. eu me relaciono com o que ela é. por isso fico tão à vontade entre os gatos: se você me der algo diferente do que você é, não me serve.

e assim os encontros se dão: do que uma coisa é para o que outra coisa é. não há diálogo entre as aparências. não tem como haver troca de substância entre duas cascas. o que há é o que as aparências deixam escapar, o que passa através delas, e graças a isso não somos secos. graças a isso somos salvos de sermos tão artificiais, de ficarmos fingindo que estamos vivos. essa necessidade de tentar conter a pulsação que nos define: por que tão longe?

ah, sim. tem gente (e momentos) que não dá pra ser-com. quando você tenta uma conversa, tenta outra, tenta evocar qualquer coisa viva do outro, mas não dá liga. “aquilo não é?”, você pensa. não, é aquilo não-sendo. preguiça infinita de gente que não sai nem por um segundo da sua zona de conforto, que não sai nem que seja pra espiar o que há do lado de fora da casca. preguiça infinita de gente que não consegue olhar nos olhos.

teve uma época que eu sofri bullying no trabalho. eu trabalhava numa espécie de redação, fazia clipping de notícias para clientes diversos – algo mecânico e operacional, mas que paradoxalmente me permitia atingir um tamanho grau de cansaço que me levava a escrever, senão eu morria - então, em última instância, o que eu fazia era gerar cansaço para então criar algo a partir desse estado de poeira.

eu acordava num horário insano, folgava só de domingo. tinha um rapaz que era sobrinho do dono da empresa e ele trabalhava na mesma sala que eu, entre outros colegas mais. esse rapaz tinha problemas de caráter e cognitivos, era evidente, mas às vezes eu sentia dó dele por ele ser tão chato, achava comigo que no fundo poderia haver “algo mais”. e esse cara falava tanto, mas tanto, e o tempo inteiro, que eu ia dormir com zunido no ouvido. ele só dizia bobagens, só sabia dar risada escrota. e eu, por não demonstrar nenhuma vontade de participar ou rir das piadas que ele contava, era atacada por ele de várias formas: ouvindo risadinhas, cochichos, climinhas – quem completava a cena de bullying era a famosa neutralidade alheia, as pessoas que riam junto com ele, achando graça ou não do que ele dizia.
 foi um grande laboratório pra mim sobre estupidez e crueldade juntas. nesse emprego, eu só podia confiar em uma pessoa, que eu vou chamar aqui de G. o G gostava de mim e observava tudo que acontecia e sabia quem era quem. sabia o que faziam comigo. e via que eu não conseguia me defender, que eu procurava fazer meu trabalho e apenas ficava quieta e concentrada e constrangida,  aguentando tudo. o G era lúcido e fazia o que eu considero uma habilidade incrível: ele se expunha de um jeito que o tornava invisível para o imbecil verborrágico. ele não tentava evitá-lo ou confrontá-lo, ele simplesmente aparecia, jogando o jogo do cara sem se tornar um imbecil como ele. ele conseguia, eu não. então chegou um dia e o G me disse assim: “Fernanda, você é absolutamente despreparada para a maldade humana”.

e eu nunca, nunca mais esqueci o que o G me disse. e o que ele me disse foi uma verdade terrível: que eu sou uma tonta que procura ver sempre o que há no fundo das pessoas. só que agora eu cansei de ser assim. queria ser diferente. como faz pra não precisar ver o fundo das pessoas? preciso ver mais novela? o que há de errado comigo? é que não sei nadar onde tem pouca água. mania de fundura.
  

28.6.13

ensaio

não, a gente não sabe por que ama. e ao amar todos somos inocentes. porque amar não se escolhe. e mente quem diz que amar basta. não basta. só amar e amar? não basta. pode-se odiar amar quem se ama. pode-se tentar não amar mais. pode ser que o amor dure uma vida inteira. pode ser que o jeito de amar desencontre – uma das maiores dores de quem ama. pode ser que o olhar desencontre. que o tempo desencontre. que tudo desencontre, ainda que se ame. então amar não basta. não bastou. amar é a maior dor que eu conheço.

isso e aquilo

farsas festivas não fazem a minha cabeça. mesmo que delas participe todo tipo de gente, desde os mais hipócritas aos mais coerentes.

acho ótimo que as pessoas acordem, que pensem por si próprias, que tenham senso crítico, mas não adianta: o buraco é mais embaixo. fazer barulho, gritar por justiça, participar da revolução dos vinte centavos, poder dizer “eu estive lá”. que bonito levantar a bandeira. mas quem foi que acordou mesmo?

mesma coisa a parada gay. toda aquela festa. pra no dia seguinte se continuar vivendo escravo da vergonha e do constrangimento de ser o que se é, de amar quem se ama e “ter que” conter tudo isso na frente dos outros.

um dia desses me aconteceu um episódio clássico: o fulano estava acompanhado da namorada e eles se sentaram ao meu lado, no cinema. só que, a cada cinco minutos, a fulana tirava o celular da bolsa para responder torpedo. o celular acendia e apagava, acendia e apagava. o filme passando. eu contei até 500.

- oi, você vai ficar mexendo nesse celular o filme inteiro?


- vou, por quê? tá te incomodando?


- não, imagina. tá uma delícia essa luz na minha cara.

o namorado intercedeu me apontando o dedo:

- vá você se sentar em outro lugar!

não deu tempo de eu formular a resposta que o fulaninho merecia ouvir, então eu levantei da poltrona, aplaudi e disse bem alto:

- parabéns, vocês estão certos, a errada aqui sou eu.

e não saí da minha poltrona. a fulaninha não ligou mais o celular. mesmo enervada, permaneci ali porque não era certo eu me retirar. não era certo comigo. certo mesmo era todo celular que pisca no cinema explodir no primeiro torpedo, mas a vida quase sempre não é como a gente espera que ela seja. enfim.

fulaninhos assim, infelizmente, não são um caso isolado. tinha outros fulaninhos como eles no cinema
- nesse dia e em outros tantos -, com celular piscando nas mãos, gente que está pouco se fodendo para os direitos do outro.

gente que clama por justiça, que veste bandeira mas que não sabe ser justa. gente que joga papel no chão e que se foda que a rua está suja. nada contra a revolução dos vinte centavos. nada contra nenhuma revolução. mas o problema de quando a coisa vira massa é isso: periga virar uma farsa. periga denotar mudanças que, de fato, não aconteceram, primeiro, dentro dos indivíduos que compõem essa massa.

não é porque o povo tá fervendo, que eu vou ferver junto. essa animação festiva devia ferver dentro das pessoas todos os dias em seus mínimos gestos - é o que eu acho. porque eu sou isso que se dá a cada dia. fervo todos os dias sendo o que sou, ajudando como posso e como sei. e sendo justa. e se eu não estiver sendo justa, eu quero saber e mudar. ora, se eu estou com um celular piscando na sala de cinema, e alguém se incomoda, é claro que a errada sou eu e então eu peço desculpas. é disso que eu falo: de reconhecer os direitos dos outros tanto quanto os seus próprios.

eu não aposto em massas. aposto na atitude diária. na criação da vida e na criação do tempo.

quem muda o mundo é quem muda o dentro das pessoas, quem muda o dentro-de-si, para se tornar o que é. e isso quem faz somos nós enquanto indivíduos, essa construção não se dá coletivamente, se dá no íntimo. lendo, vivendo, sendo. e de ser, a gente chega ao outro, influencia sem apelo de massa, que isso não funciona. pode acontecer de mudar o cenário, mudar quem está no poder (e no plano das aparências quase sempre as coisas parecem mesmo mudar), mas no fundo, continua tudo igual, “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”: todos ainda escravos de algum sistema que só mudou de cara. todos ainda sem conseguir criar e levar uma vida própria, com pensamentos próprios, com substância psíquica própria, indo por um caminho de coisa viva.

contanto que não implique em grandes “sacrifícios”, as pessoas estão super dispostas às ditas revoluções, não é assim? basta ir às ruas e pronto: estou exercendo minha cidadania. a ética se resume a isso? aí fica fácil. difícil é sustentar um discurso no dia a dia, praticá-lo dentro de casa e nos arredores da vida. com quem está bem perto da gente. e em todos os lugares.

a polícia agiu com violência. injustificável. o assassino matou uma família inteira. uma brutalidade imperdoável. mas boa parte das pessoas que compõem a sociedade exploram animais e outra grande parcela compra carne no supermercado (só pra citar um exemplo). e aí? como não assumir que não há diferença entre cometer uma e outra violência? admitir o que não é justo (como a existência de um governo corrupto ou a ação de uma polícia truculenta) não implica em refletir, também, sobre os nossos próprios atos de violência?

sinceramente, Brasil? temo pelo que vejo. o que está mexendo é em cima, não embaixo. e pior do que a não-mudança é a aparente-mudança. é que tenho preguiça de berros de massa cuja essência não surja de atitudes cotidianas. não é só político que não presta. tem muita gente do povão festivo-indignado que não presta e que se estivesse no poder seria tão ou mais abominável.

a verdadeira revolução (aquela em que eu acredito) se dá na pia da cozinha. no calada da madrugada. no que dizemos pra nós mesmos quando o dia acaba. na palavra e no gesto que transformam o que a gente está sentindo e o jeito da gente enxergar a vida. no que fazemos com o tempo. no quanto nos damos vida. e quando todo barulho cessa: é aí que tudo começa.

23.6.13

(a)mar

É noite. E a única luz que me orienta é a da lua. Dentro de mim um não-sei-para-onde, uma aceitação acompanhada de uma vontade de existência e de uma das poucas certezas que tenho, que é a do caminho - todo e qualquer caminho onde estejam os meus pés. Aceitar: quando a gente está sendo com a vida.

O caminho para o mar. O caminho para a cidade. Antes, depois, agora. Num céu de todas as cores. A beleza que arde, arde - ela fura a gente, faz tremer. Dói e é divina. Tudo que é tão vivo não tem como não arder. Ou alguém aqui já amou sem doer? Eu sempre choro quando vejo o mar.

E é noite. O caminho de volta para a cidade-sem-mar. Parece que já é outro dia, outra de mim. Outro tempo, nem infinito nem igual. Mas a minha paz é saber que o mar sabe tudo que eu sei, sabe de mim, do que eu sou. E, nisso, ele me ama, e eu amo o mar. Pertenço.     

24.5.13

todas as coisas

entre uma ladeira e outra, vou me tornando aquilo que sou sem a poeira. hoje dei um tapa na cara do tempo duro e concreto, o suposto tempo, e prometi pra mim que cuidaria da horta. "vai, tempo, e não me arrasta", eu disse pra ele. e então me dei conta de algo tão sério: que o quanto eu cuido das plantas é exatamente o quanto estou cuidando-de-mim-no-tempo. cuidando de florescer, de existir-com. de não deixar a alma com fome.

e como eu amo regar as plantas, tirar as folhas secas, cheirar a terra, ver se precisa mais água. o manjericão que estava dando flor e que quase morreu esta semana: fiquei triste, triste, como se ele fosse eu, como se eu fosse ele. a inocência do que ele é: pegando o lixo alheio e secando por dentro. e ele estava florindo. o mal precisa encontrar um meio de partir. tomou pra si e quase morreu. e eu amo esse manjericão. vou cuidar dele até enquanto houver vida pra ser cuidada. outra vida nele.

e tudo que eu cuido cuidando de mim sem eu saber. tudo e cada coisa, que tudo é frágil e forte, quente, escuro, calmo e espantado como eu.

20.5.13

eu: precisando inventar palavra. que, se a gente para e repara, as palavras são cheias de paredes. fazendo caber nem sempre o que a gente queria dizer. hoje, por exemplo, ontem por exemplo. a lua e o sol ao mesmo tempo. um céu inteiro de azul. aquela que eu sou e tudo que me escapa. e por quê? não tenho palavra. então é quentura, é gastura, é fundura, é ser-com. Inventar palavra como quem busca um nome para uma coisa que nasce e que ninguém ainda soube dizer.

12.5.13

poema do poema


6.5.13

o infinito das horas



segunda-feira. e as horas bonitas que vêm sem avisar. o meu vestido ao vento. deixando o cansaço físico levar embora. que eu amo ir com o corpo. estar aonde ele vai. amo ser a alma que ele carrega. vulgar mesmo é não existir.

26.4.13

vagaluminho

hoje foi noite de vaga-lume. fomos até o escuro da beira do rio e então eu vi tão de perto: um vagaluminho passando por cima da minha cabeça. uma benção da noite, do rio, do lugar. que a vida nos dá pequenas grandes luzes e a gente nem percebe, nem olha. esse vagaluminho me quis. ele quis que eu o visse. ele existiu pra mim e me fez importante.

20.4.13

a luz e a não-luz

deus, não me deixa querer coisas que não me façam bem. não adianta eu pedir sem saber o que pedir, não é mesmo? então, peço que eu saiba pedir, que eu saiba querer. deus, me faz saber querer? me deixa querer ver o mar, ouvir o vento, e aguentar a minha solidão? como quem ouve uma música tão bonita e prossegue sabendo querer. me deixa assim querendo apenas o que humanamente eu posso ser?


17.4.13

na estação

fiquei observando as pessoas correndo pra lá e pra cá na estação. poucas, bem poucas encararam o meu olhar. umas duas ou três. é. as pessoas fogem dos olhares, como fogem dos assuntos mais delicados da vida. 


e agora dei pra puxar assunto com gente que não conheço. outro dia reparei uma tatuagem bonita no pé bonito de uma moça bonita. aí eu perguntei pra ela: "dói muito?", ela sorriu um sorriso lento e respondeu "dá pra aguentar". eu então contei que estava me preparando para tatuar um poema e ela riu mais: "quanto mais fina a pele, maior a dor". e fomos conversando e ela perdeu a estação. é. as pessoas gostam de ser vistas.

e uma outra moça me parou pra perguntar do meu cabelo grisalho.
"você é uma alma velha?" não, isso ela não me perguntou. ela disse de outro jeito: "você faz luzes?". aí fui eu que sorri: "não, é natural". o cabelo dela também grisalho, então ela me contou que fez quimioterapia, que seus cabelos só agora estavam mais hidratados. é. as pessoas precisam falar das suas dores.

outro dia abracei uma amiga que há tempos eu não via. e passamos horas conversando. até quase ela perder a hora do trem. e nos abraçamos de novo na despedida. abraço bom é o abraço que se dá em mão dupla, fazendo o tempo parar de machucar.

e
teve o dia que uma outra amiga muito sensível (daquelas que dizem as coisas com os olhos) me convidou para um vinho argentino. e vimos um filme até quase o vinho acabar. e foi tão rápido e bom e pra sempre. é. as pessoas precisam de calor.


o caminho nosso de todos os dias. o abraço que não pode faltar. a alma que não pode passar fome. não nos esqueçamos jamais: assim na terra como no céu.


e na estação, as pessoas correm, ainda.

13.4.13

Chove

"E eis que ninguém está vivendo", me disse ontem uma amiga em mais uma dessas conversas sobre a vida, olhos nos olhos, lá fora a sempre-chuva.

E é verdade. Todos atentos a alguma tela, grudados no celular, de olho no email que não chega. Estamos doentes de pressa e de ansiedade. Uma ansiedade que só aumenta e aumenta e aumenta na medida em que os encontros vão ficando cada vez mais raros. Eu disse encontros:
lugares-no-tempo-e-no-espaço de existência e sensibilidade profundas, onde se pode ser-com-o-outro. Mas acontece que deixamos de ser porosos e adentráveis: estamos blindados. E o que precisamos, de vez em sempre, é da não-palavra. É do animal humano fluir silêncio dos olhos.

Encontros são sempre bons para o espírito. Pois o que é da natureza do encontro vem e salva. Quando encontrei com o mar, eu estava destroçada. Quando encontrei com o livro eu estava sozinha num escuro sem-fim. Quando encontrei o vento, eu não sabia que ele me amava. Lá fora chove ainda e a chuva se encontra comigo. E eu existo, só existo, porque existe o encontro - o encontro que brota de um silêncio que significa profundament
e.

Por isso sou tão feliz numa pista de dança, no meu encontro com a música. O silêncio, o bastar-se no instante. Alcançar a graça de quando nada mais é preciso.


12.4.13

movimento

às vezes tudo corre e pensamos estar fazendo tantas coisas e a vida parece se mexer tanto, mas é que o movimento excessivo nos engana: achamos que, justamente por fazermos "tantas coisas" com as horas, não estamos estagnados. não estamos alheios aos nossos próprios caminhos. estamos salvos. salvos de nós mesmos. de ser.

já fiz de tudo: já acordei muito cedo para trabalhar trabalhar trabalhar e só voltar bem à noite pra casa. já não tive férias. já vivi para dormir, acordar e correr com as horas e só. já me entupi de movimento acelerado. já estive tão fora de mim, que quase me perco de vez e pra sempre. e só não me perdi de vez porque quase se perder é também parte do plano de se encontrar.

no final das contas, o que salva mesmo é alguma coisa selvagem e simples que grita e que ganha a gente num berro de silêncio amoroso. essa coisa que tenta de tudo. e que vem em sonho e em cores. a coisa que é aquilo-que-sabe. e nunca é alguém que nos diz "vem por aqui". nunca o que é para nos ajudar-a-ser diz isso.

cumprir com a própria órbita é o que nos cabe. fazer um movimento próprio, ser e expressar o que se é. sem ferir ou interferir no direito de ser e de viver do outro. eis o que é existir.

7.4.13

no caminho




















parei a bicicleta. a avenida no domingo é tão mais calma, então deu pra ver, deu pra parar. é que bem ali, no meio do asfalto, estava um corpinho com asas: uma borboleta querendo viver. quando a encontrei ela já estava sem forças, ou quase sem. o peso da vida para ela, ali sozinha, era insuportável. que eternidade é quando se tenta erguer-se sozinho do chão. as asas da borboleta: tão intactas mas sem a força do voo.


em questão de segundos, eu estava com a borboleta nas minhas mãos. tive que agir rapidamente, antes que. e o contraste? minhas mãos tão grosseiras tocando aquele corpo inocente de borboleta, tentei ficar leve pra ela. então a coloquei numa folha bem verde, no canteiro da avenida. um lugar mais protegido,
 pra que ela tivesse tempo. o vento soprando, empurrando para o voo. eu vi, eu vi como o vento tentava ajudá-la. a borboleta laranja e preta começou então a mover as asas. frágil e forte e lentamente. abria e fechava. abria e fechava. ela estava viva e isso me alegrava. eu fiquei ali olhando pra ela. não podia intervir. e o mundo parou, o tempo. fiquei ali, fui até onde eu poderia estar. porque não podia fazê-la voar. não posso dar ao outro o que nem eu mesma sei. e foi assim que a deixei: batendo suas asas bonitas, ao vento, ela percebendo que tinha asas e que estavam intactas. será que ela voou?

pois eu saí sem saber em que momento. mas fiquei pensando assim, torcendo por ela: “borboleta, voa com o vento, voa para sempre”.

2.4.13

a rua sem fim

descalça subi a rua sem fim até me transformar no meu próprio cansaço. e assim fui subindo, queimando as coisas pelo corpo. até os meus pés não aguentarem mais e me fazerem chorar de dor física - meus pés: único corpo capaz de me devolver ao chão. subi até que restasse apenas eu mesma e a minha própria pulsação. eu pedindo a deus. e no final das contas quanto mais se corre mais a coisa nos alcança. por isso decidi pela subida, e quanto mais longa ela fosse tanto melhor, porque pouca coisa vence o cansaço. eu querendo saber estar e ser só, como eu sou mesmo: assim como vim ao mundo. e eu teria tanto pra dizer, mas escolho dizer e fazer isso: apelar ao cansaço, machucar os meus pés descalços.

e amanhã é quarta-feira. nem que eu tenha que subir outra ladeira. e cansar meus pés de novo. eu vou e volto inteira? deus, me ajude.

31.3.13

quando

eu hoje acordei me achando tão absurda. quem nunca se sentiu absurdo? eu, essa coisa pulsante, viva e frágil. e estar sob o sol, pedindo que ele me aqueça sempre. então apenas quando o café esfria eu me levanto, me ergo para o dia. existir em cada coisa é o que a vida me pede. e aguentar o impossível tempo. e a vida que é pouca e a vida que é muita. porque pode caber tão pouco num espaço grande e caber tanto num único verso, num único instante. e é domingo, faz sol. a vida revira e revira dentro de mim. olho tudo como se alguma música movesse o mundo. estou perplexa de um susto infinito.

30.3.13

e num poema curto pode caber uma vida inteira.

25.3.13

do que uma escritora precisa

um gravador e sonhos pra gravar. gatos ao redor. louça pra lavar. planta pra regar. livro de receitas. fogo pra criar, cama pra deitar, amar, sonhar de novo. tempo. movimento e calor. cadernos, folhas soltas e guardanapos. espaços livres para as palavras.
café, o que fazer, onde pousar. headphones. estante com livros, cds, gavetas, calça xadrez. filmes que façam tremer. humor pra suportar a vida. compaixão. ternura. humanidade. capacidade de ouvir, de olhar com a pele. capacidade de silêncio: isso não pode faltar. pausas e mais pausas. dizer não. dizer sim. doer, cicatrizar e ainda ser capaz de contar, de aprender. dias escuros, dias claros. chuva. mar. cantar no chuveiro. chorar no chuveiro. estar perto de gente de verdade, que chore lágrima quente, gente de bom coração. gente simples, que saiba abraçar. gente que não interrompe quando vê a palavra estampada no olhar - isso existe? tomara.

23.3.13

até onde

Fui ver um filme e me deu vontade de saltar da poltrona e dar um grito. Eu quis gritar muito alto. E do meu lado tinha uma japonesa muito elegante e que bufava e se revirava toda na cadeira do cinema, como eu. Como se alguma coisa estivesse queimando. Porque aflição tem limite e chega um ponto que ela explode em gesto. Fazia tempo que um filme não me punha no limite: à beira de gritar.

E a perplexidade era tanta que eu não via degrau, quase tropecei, pálida, sem saber pra que lado. Que será que pensou quem viu o meu rosto depois do filme? Acho que ninguém viu. Saí com tanta pergunta na cabeça. Por exemplo: por que acontecem coisas ruins para pessoas boas? De onde vem essa fúria me percorrendo as mãos? Por que esse filme me atinge?

Não, o filme não é pesado, mas também não é leve. Não é pesado de afundar, nem leve de superfície. O filme é de limite, de até onde aguentamos parados. É disso exatamente que o filme trata. Ele é mágico e cruel, faz isso com quem assiste: coloca você cara a cara com a sua aflição maior, ele mostra onde você mudaria tudo, em que momento. A hora do grito, a hora do basta.  

Então vou logo avisando a quem tiver intenção: pra assistir, recomendo alguém do lado pra apertar a mão, pra gritar junto o palavrão nem que seja no silêncio. Aliás, será no silêncio, mas será gritado.

Ah, sim, o nome do filme: “Depois de Lúcia”. 

20.3.13

era setembro






















e dentro do avião eu só pensava neles. a aflição que era esperar aquele remédio fazer efeito e eu querendo dormir logo. mas se estou na janela, eu vou olhando: desafio tudo em mim, e olho lá pra baixo, olho as luzes, acho tudo lindo, esqueço. depois de adulta a gente fica assim, cheia de manias. milho só na espiga, fruta só se for batida, café só se for bem quente, noticiários-chatos só se forem com você, noite só se for com chuva, e voos sem turbulência, pode ser? lembrar de fazer tudo o que está escrito na minha mão: essa é minha mania mais antiga.

é que em tudo há a chance de um nunca-mais, é apavorante e no entanto é o tempo todo: tudo que é agora pode não ser mais. a saudade que faz a gente tremer por dentro. sacode tudo e tanto, que a gente chora. eu pensava nos meus gatos e em todas as coisas simples da minha vida. as coisas simples... o sofá azul no meio da sala. e voando (esse lugar de medo e fascínio) é quando mais se percebe que se quer estar vivo – para alguém ou para alguma coisa.

prefiro quando o avião pousa. ficar sem chão por tantas e tantas horas. isso não é comigo. eu sou do chão, sou da água. não sou do ar. não sei, não sei voar.

palavra nenhuma

a gata dorme na mochila
e eu sem entender o que me acontece
de o sono dela ser tão bonito
de ela sorrir com o corpo
de saber tanto de gerúndio
de me querer por perto

o gerúndio-instante
como é que você ainda duvida
(como é que você ainda duvida?)
palavra nenhuma adianta pra gente
[só escrevo porque é madrugada
quando o longe vira perto
quanto tudo mais é dizível
quando a tagarelice do mundo dorme
quando sobra só aquele pouco desprotegido
que é algo bem perto do que somos]

ah se eu pudesse fazer a vida conjugar o tempo
na sua boca
você diria assim:
eu não duvido mais.

18.3.13

dar vida

 















“que afinal vai dar em nada. nada nada nada... do que eu pensava encontrar.”


nasce dia, morre dia, e o livro tomando chuva comigo. fazendo eu ressuscitar. ele me diz assim: vai. ama e cria. olha: a vida dói, mas ainda assim, persiste. ouvi falar que existe amor brotando na calçada e que o mar é capaz de curar todas as feridas - ele me diz. é preciso ressuscitar.

começa a anoitecer agora. o dia e tudo tão à mostra. o coração entre os dedos, cuidando pra não cair. esperando da noite e do céu alguma resposta. e a dor, ela podia ser pouca. mas não é. ela podia não queimar no peito de quem ama. mas queima. não é justo. não é justo que amar doa tanto. e se doer-com for algum alívio, eu estou aqui.

a dor. ela é uma senhora de mãos não muito delicadas, cansada de tanto esforço. gritando à espera de calor e de abraço. apontando onde. dor-cansaço antes de virar dia.

16.3.13

eu-semente

























estou pegando cada vez mais gosto por cuidar das plantas e cheirá-las e regá-las, arrumar toda a terra, cavar pra caber a semente, depois ver a horta dar-se toda em cheiros. e elas, as plantas, fazem tanto por mim. me enchem de vida, me devolvem o ar, com o cheiro único delas. elas-vivas, eu-semente e vice-versa. antes o tempo encurtado e eu correndo na vida. pra quê. pra onde. eu que passei a vida achando que devia correr como todo mundo. e só agora tenho certeza: ser jardineira é pra sempre.
e hoje eu sou uma pessoa melhor, porque cuido de plantas. e elas cuidam de mim.

15.3.13

acontece  





























às vezes acontece assim: de duas pessoas se amarem e não saberem o que fazer desse amor. há os que não param para pensar, para olhar, os esquecidos. há os que jogam, pisam, brincam com o amor como se ele não fosse quebrável. há os que o tratam como figurante, como se ele não fosse aquilo que tudo move, que tudo sabe, o espírito das coisas. há os que correm de medo ao se deparar com a primeira dificuldade, como se amar não exigisse algumas mortes e força para suportar a vida que brota delas. há os que ignoram as banalidades vitais, como dar as mãos na calçada ou o beijo antes da madrugada. 


mas o fato é: amar não se escolhe, como não se escolhe o próprio nome. simplesmente acontece. amar é dos fenômenos mais bonitos e perversos. porque faz viver, mas tira o ar, te põe no avesso. não sei ainda do que o amor não é capaz. acho que ele faz de um tudo, ele refaz. ele é mutante: machuca e ama. machuca e ama. quem sabe amar que levante a mão: você não deve ser humano. amar nunca se sabe. nunca. 

11.3.13

"cadê eu?"


























o que nos dá a capacidade de olhar para as próprias feridas e nos ajuda e nos move a reunir forças para cuidar de curá-las
, isso sim vale toda nossa dedicação e zelo. pode ter certeza que essa dedicação valerá a pena, valerá a sua vida. tem muita gente por aí pregando “fazer o bem” a qualquer custo. mas acredite: até o que parece muito bom pode ser a pior das armadilhas.

conselhos estúpidos, daqueles de superfície, não faltam neste planeta. o melhor conselho que alguém pode dar na vida é assim: dedique-se, da forma que for, do seu jeito, à expressão da sua alma. procure não machucar ninguém, nem humanos nem animais nem plantas, deixe a natureza em paz, absorva a paz e exale-a de volta. e dentro dessa ética, respeite-se também e acima de tudo. pois como vamos fazer ao outro o que sequer fazemos a nós mesmos?

tenho um certo pavor dessa onda atual de gente que não fala não pensa não vive outra coisa na vida a não ser o prepotente mantra “vamos salvar o mundo”. gente prepotente diz isso, pensa isso. e normalmente essa mesma gente não está muito acostumada a olhar pra dentro. ai que perigoso. fica achando que a merda toda está fora. e eu bem que gostaria de que esse mundo fosse outro: vegano, com as árvores preservadas, ciclovias repletas de uma paisagem delicada, pessoas que ouvem as outras, que olham nos olhos, educadas e verdadeiras, que apreciam os pés descalços em contato com o mar – não perfeitas, apenas mais atentas à vida. por mim, esse discurso de salvar o mundo morreria, e as pessoas começariam a regar mais as plantas para aprender sobre a vida, começariam a cozinhar mais sua própria comida, lavariam a louça, e assistiriam a filmes tocantes, leriam livros inspirados, dormiriam e acordariam se sentindo amadas. e aí, enquanto fizessem tudo isso, os pequenos tesouros da vida, justamente aí elas começariam a se tornar melhores em tudo: no amor, na liberdade, na disciplina e lucidez que a vida exige, aprenderiam sobre o que são, sobre o que sabem fazer, sobre o que podem ser para o mundo. no lugar de “vamos salvar o mundo”, que tal cuidarmos primeiro das nossas almas? salvar o mundo é para os prepotentes. o mundo estará salvo
quando os humanos não estiverem mais com a alma tão doente.

o problema não está em fazer algo voltado para uma causa legal e necessária, porque realmente “nosso” planeta está um caco. mas há um grito, um chamamento maior por trás disso tudo. o que eu reparo é que muitas dessas ações estão cercadas de exageros, no sentido de que as pessoas deixam de cuidar de si, deixam de cultivar o pequeno, deixam de lado coisas importantes, e aí a planta seca na varanda. e então elas começam a remar freneticamente, movidas pelo mais lindo dos discursos, até que chega um belo dia e elas constatam (ou não) que conseguiram finalmente o feito de se resumirem a isso aí que defendiam a todo custo. remar compulsivamente como quem foge do susto que é morrer e nascer todo o tempo.

novamente: se você quer fazer algo legal na vida, ser uma pessoa legal, isso não está longe, viu? não está em nenhum lugar fora de você. isso está no quanto você juntou, e ainda pode juntar, ao longo de sua vida, capacidade e força para olhar para o que você é, e atender ao que a sua alma chama. e saber o que você é, ah isso requer trabalho. isso requer ouvir e estar com gente que sabe da vida. e isso nem sempre vem fácil, não tem aula disso na escola. mas está inteiramente à sua disposição se você assim quiser. você consegue ouvir essa voz? a sua voz? consegue identificá-la e distingui-la das demais? se a resposta é sim, você é uma pessoa legal, está se tornando cada vez mais o que nasceu para ser. keep walking. mas se a resposta é não, se você ainda não sabe a diferença entre a sua voz e as vozes que te atormentam, que te sufocam, que te levam pra longe de você, se você acorda e se pergunta “cadê eu?”, então você tem que mudar de trilhos, trocar os sapatos. primeiro de tudo, você tem que escolher sapatos que caibam perfeitamente nos seus pés. e que sejam, de preferência, esses que você mesmo fez à mão.

a vida existe na simplicidade. as coisas gigantes são feitas para as cartilhas escolares. e, se pensarmos, as coisas gigantes mesmo, aquelas de importância e consistência, são formadas por pequenas gotas, são coisas-oceano, coisas-chuva. o que vale é o que tem pulsação enquanto acontece. isso é o que faz com que existamos no tempo. a pulsação. então acontece que àqueles que dependem sempre e que se tornam escravos de fazer coisas absolutamente gigantes, a esses a vida escapa. porque o mais delicado mora no mínimo, mínimo gesto.

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