24.12.09
Verdades boas para trocar
Acordei nostálgica. Já é quase Natal e eu comecei a lembrar de todos os Natais, e até de quando eu era pequena: a família reunida, o preparo da comida, depois a ceia, o amigo secreto, as poesias rimadas da minha tia.
Para o Natal, tenho dois sentimentos. Por um lado, confesso que ainda me sensibilizo com o lado humano que acomete as pessoas, com a tolerância que se manifesta, com a complacência, com essa vontade de paz, mesmo que rasteira. Tudo isso me comove. Ver que as pessoas ainda no fundo da alma tenham coisas puras, lágrimas, saudades, verdades boas para trocar.
Mas o presente não mais me importa hoje como quando eu era criança. Ficava ansiosa para que tudo corresse logo para a hora do amigo secreto. Queria dar e ganhar presentes. Hoje não. Hoje eu abriria mão de tudo isso por uma poesia, por qualquer texto com rima, mas que viesse do coração. Trocaria todos os presentes por uma gota de verdade vinda da alma de cada um.
Hoje me importa que estejamos em paz, unidos como pessoas que se respeitam em suas escolhas e que trocam boas verdades.
Gostaria que todos os Natais fossem feitos disso: de uma alegria pacífica, respeitosa, e profunda. Que lembrássemos de Jesus, de sua amorosidade para com todos os seres, de sua lição de amar e respeitar todos os seres. Que lembrássemos, sempre, que ao servirmos nossos irmãos em nossas mesas, estamos ferindo seus ensinamentos de paz, porque não devemos matar nossos irmãos: nem humanos, nem não humanos.
Esse é o Natal de paz que eu concebo: um encontro de profunda paz e respeito começando pela mesa e vindo de nossos corações. Nossos irmãos animais, que tanto nos ensinam, estão sofrendo, estão sendo mortos para ocuparem uma travessa no centro da mesa. O que estamos comemorando, então?
Sejamos mais humanos, mais humildes, mais completos. Não façamos de nossos corpos depósitos de sofrimento. Toda vida é sagrada e o que entra por nossa boca determinará o que somos.
Se não formos honestos conosco, não seremos com mais ninguém. Olhemos para dentro: de onde vêm as palavras de paz que proferimos?
Feliz Natal!
|
Acordei nostálgica. Já é quase Natal e eu comecei a lembrar de todos os Natais, e até de quando eu era pequena: a família reunida, o preparo da comida, depois a ceia, o amigo secreto, as poesias rimadas da minha tia.
Para o Natal, tenho dois sentimentos. Por um lado, confesso que ainda me sensibilizo com o lado humano que acomete as pessoas, com a tolerância que se manifesta, com a complacência, com essa vontade de paz, mesmo que rasteira. Tudo isso me comove. Ver que as pessoas ainda no fundo da alma tenham coisas puras, lágrimas, saudades, verdades boas para trocar.
Mas o presente não mais me importa hoje como quando eu era criança. Ficava ansiosa para que tudo corresse logo para a hora do amigo secreto. Queria dar e ganhar presentes. Hoje não. Hoje eu abriria mão de tudo isso por uma poesia, por qualquer texto com rima, mas que viesse do coração. Trocaria todos os presentes por uma gota de verdade vinda da alma de cada um.Hoje me importa que estejamos em paz, unidos como pessoas que se respeitam em suas escolhas e que trocam boas verdades.
Gostaria que todos os Natais fossem feitos disso: de uma alegria pacífica, respeitosa, e profunda. Que lembrássemos de Jesus, de sua amorosidade para com todos os seres, de sua lição de amar e respeitar todos os seres. Que lembrássemos, sempre, que ao servirmos nossos irmãos em nossas mesas, estamos ferindo seus ensinamentos de paz, porque não devemos matar nossos irmãos: nem humanos, nem não humanos.
Esse é o Natal de paz que eu concebo: um encontro de profunda paz e respeito começando pela mesa e vindo de nossos corações. Nossos irmãos animais, que tanto nos ensinam, estão sofrendo, estão sendo mortos para ocuparem uma travessa no centro da mesa. O que estamos comemorando, então?
Sejamos mais humanos, mais humildes, mais completos. Não façamos de nossos corpos depósitos de sofrimento. Toda vida é sagrada e o que entra por nossa boca determinará o que somos.
Se não formos honestos conosco, não seremos com mais ninguém. Olhemos para dentro: de onde vêm as palavras de paz que proferimos?
Feliz Natal!
23.12.09
As cores do Natal
Vou deixar um presente para os meus gatos. Vou colocar dentro de uma caixa dois brinquedos e duas comidinhas que eles adoram. Espero que nunca se esqueçam de mim. Por toda a minha existência, a minha alma anda junto com a alma deles: na lembrança, no futuro e no presente. Natal tem que ser isto: uma paz declarada, um amor infinitos, um pacto íntimo e silencioso.
|
Vou deixar um presente para os meus gatos. Vou colocar dentro de uma caixa dois brinquedos e duas comidinhas que eles adoram. Espero que nunca se esqueçam de mim. Por toda a minha existência, a minha alma anda junto com a alma deles: na lembrança, no futuro e no presente. Natal tem que ser isto: uma paz declarada, um amor infinitos, um pacto íntimo e silencioso.
22.12.09
De volta do mar para a vida em terra é meio assustador. Aqui tudo é mais seco, mas ainda assim é bom voltar. Estou aprendendo muito sobre a natureza humana. Desconstruindo imagens, construindo pontes. Estou desvendando a vida em pequenos passos. Vendo mais, mesmo que doa, para depois voar adiante.
|
6.12.09
Julia, Julie e o que fazemos de nós mesmos
Estou evitando a todo custo dizer que o filme mexeu comigo, porque aí eu cairia numa tentativa de explicar e eu não vou conseguir precisar esse impacto. Além disso, como disse Herman Hesse, “nada podemos oferecer a alguém que já não exista nele mesmo”, então cada um extrairá do filme segundo seu próprio universo.
Dadas essas limitações, direi, portanto, que um dos pontos fortes do filme é fazer a gente lembrar que profissão de verdade é aquilo que nos realiza profundamente e que, sempre que começamos algo, estamos diante do desconhecido. E que a única certeza que temos ao escolher algum caminho é que estamos inteiros ali, e que, por isso, aquilo nos devolverá um preenchimento sagrado. E que isso, em algum momento, ficará mais visível.
Escolhas realmente consistem em perdas e ganhos. Sim para uma coisa significa necessariamente não para outra.
Fiquei sabendo há alguns dias atrás que um menino treinado por mim nos tempos de livraria se inspirou no meu gesto relâmpago de simplesmente ir embora e nunca mais voltar. Para minha surpresa, ele me confessou que ao sair dali, um ano depois de entrar, perdeu 3 mil reais, mas ganhou um montão de vida.
Eu perplexa numa espécie de choque de efeito retardado, percebi que no fundo ainda guardava comigo uma certa dúvida se tinha feito a coisa certa: em pleno sábado ensolarado, ter pedido as contas, depois de ter lido o oráculo. Com esse gesto, sem cumprir aviso prévio, deixei de ganhar mais de 2 mil reais. E ganhei... ganhei alguma coisa muito preciosa – mas que só agora me dou conta.
Não preciso dizer que muita gente julgou a minha saída. Muita gente olhou pra mim naquele dia querendo fazer a mesma coisa. Muita gente me alertou que eu estivesse sendo precipitada. Apenas uma pessoa me recomendou que atendesse à minha voz interior (a mesma pessoa que me fez chorar abrindo um livro da annie leibovitz).
Isso é outro assunto por que esbarra o filme: o valor da amizade profunda. Amigo mesmo é aquela pessoa que não julga saber o que é o melhor para você, mas que se preocupa que você esteja alinhado com suas verdades fundamentais, que esteja em paz. No fundo, as pessoas que opinam muito sobre as atitudes alheias são pessoas que carregam muitas insatisfações sobre a própria vida e pouca coragem para fazer o que realmente gostariam. Essas pessoas normalmente são nocivas e excessivamente críticas, embora movidas por ótimas intenções. Diferentemente dos amigos, elas julgam e confundem, ou seja: cumprem a função do avesso da inspiração.
Os rompimentos ao longo da vida são isso: uns mais doídos e longos, outros mais doídos e seguidos de alívio, mas sempre servindo para que venham as coisas boas e necessárias. Escolhas são começos. Escolhas, talentos, pequenos atos de coragem: o filme trata da falta de visão que nos acomete quando somos impelidos a nos lançar. E da força recompensadora de, ainda assim, continuar até que finalmente se acenda alguma luz.
Apesar do dia atribulado, nossos talentos estão à espera. Basta um pouco de coragem e dedicação. O que gostamos de fazer não é mero detalhe na vida: é o que mais nos ajudará a seguir.
|
Estou evitando a todo custo dizer que o filme mexeu comigo, porque aí eu cairia numa tentativa de explicar e eu não vou conseguir precisar esse impacto. Além disso, como disse Herman Hesse, “nada podemos oferecer a alguém que já não exista nele mesmo”, então cada um extrairá do filme segundo seu próprio universo.
Dadas essas limitações, direi, portanto, que um dos pontos fortes do filme é fazer a gente lembrar que profissão de verdade é aquilo que nos realiza profundamente e que, sempre que começamos algo, estamos diante do desconhecido. E que a única certeza que temos ao escolher algum caminho é que estamos inteiros ali, e que, por isso, aquilo nos devolverá um preenchimento sagrado. E que isso, em algum momento, ficará mais visível.
Escolhas realmente consistem em perdas e ganhos. Sim para uma coisa significa necessariamente não para outra.
Fiquei sabendo há alguns dias atrás que um menino treinado por mim nos tempos de livraria se inspirou no meu gesto relâmpago de simplesmente ir embora e nunca mais voltar. Para minha surpresa, ele me confessou que ao sair dali, um ano depois de entrar, perdeu 3 mil reais, mas ganhou um montão de vida.
Eu perplexa numa espécie de choque de efeito retardado, percebi que no fundo ainda guardava comigo uma certa dúvida se tinha feito a coisa certa: em pleno sábado ensolarado, ter pedido as contas, depois de ter lido o oráculo. Com esse gesto, sem cumprir aviso prévio, deixei de ganhar mais de 2 mil reais. E ganhei... ganhei alguma coisa muito preciosa – mas que só agora me dou conta.
Não preciso dizer que muita gente julgou a minha saída. Muita gente olhou pra mim naquele dia querendo fazer a mesma coisa. Muita gente me alertou que eu estivesse sendo precipitada. Apenas uma pessoa me recomendou que atendesse à minha voz interior (a mesma pessoa que me fez chorar abrindo um livro da annie leibovitz).
Isso é outro assunto por que esbarra o filme: o valor da amizade profunda. Amigo mesmo é aquela pessoa que não julga saber o que é o melhor para você, mas que se preocupa que você esteja alinhado com suas verdades fundamentais, que esteja em paz. No fundo, as pessoas que opinam muito sobre as atitudes alheias são pessoas que carregam muitas insatisfações sobre a própria vida e pouca coragem para fazer o que realmente gostariam. Essas pessoas normalmente são nocivas e excessivamente críticas, embora movidas por ótimas intenções. Diferentemente dos amigos, elas julgam e confundem, ou seja: cumprem a função do avesso da inspiração.
Os rompimentos ao longo da vida são isso: uns mais doídos e longos, outros mais doídos e seguidos de alívio, mas sempre servindo para que venham as coisas boas e necessárias. Escolhas são começos. Escolhas, talentos, pequenos atos de coragem: o filme trata da falta de visão que nos acomete quando somos impelidos a nos lançar. E da força recompensadora de, ainda assim, continuar até que finalmente se acenda alguma luz.
Apesar do dia atribulado, nossos talentos estão à espera. Basta um pouco de coragem e dedicação. O que gostamos de fazer não é mero detalhe na vida: é o que mais nos ajudará a seguir.
25.11.09
Manga combina com morango
Esse soluço é pura ansiedade: eu tenho vontade de fechar a porta e o computador. O corpo mandou-me sair da cadeira e ir até a varanda tomar um ar. Vi de longe que a chuva não vinha. E pensei.
Não é preciso correr para lado algum, veja como me falta ar: isso é uma pressa entalada. Uma urgência desvairada do quê. De dizer? De viver? Voltei ao prato de salada de fruta.
Hoje ouvi que escrever-e-nadar é coisa de gente que leva uma vida medíocre. Engraçadamente percebi que toda uma humanidade que submete a sua vida ao como-tudo-deve-ser apresenta uma facilidade pálida em definir o que é bom para o outro.
Medíocre a gente só pode dizer da gente mesmo. Médio é a coisa pela metade. E como poderíamos dizer que é a metade um caminho que sequer conhecemos? Mas eu entendo que o julgamento é uma forma da gente defender alguma fugidia convicção sobre algo.
Tibum. Para minha grande alegria estufante no peito, a chuva veio e me fez parar o soluço.
O céu está mandando chuva. Como eu poderia ter medo da chuva, se com ela eu comungo absolutamente tudo e mais um pouco? A chuva é como um livro: a companhia íntima perfeita – verdadeira, fresca, sincera e intensa. Chuva que apazigua e leva embora a poeira. Farei agora a minha devoção à chuva.O que fazem os homens diante da chuva forte? Nada fazem os homens, senão esperar. Porque têm medo de si mesmos na chuva. Têm medo do que fica depois que ela lava a poeira visível. Sinto pelos que têm medo dessa água divina caindo.
O gato ficou parado diante da fonte durante vários minutos. Ficou olhando para ela como se aquela presença fosse exatamente o que ele precisava, algo a ser admirado em silêncio por um bom tempo, todos os dias. A gratidão que ele tinha por ela estar ali, derramando sua água nas pedras, inteiramente disponível para sua sede, era infinita. Os animais são gratos, e isso faz deles seres graciosos capazes de nos fazer despertar para tantas coisas.
E assim como o gato tem uma devoção à água da fonte, devo às minhas verdades essa mesma fluidez e respeito. Para que mesmo quando eu ainda não souber a verdade, esteja atenta para reconhecê-la no meio de tantas coisas que se parecem com ela.
O que cada alma precisa não consta em livro algum, nem em doutrinas. A capacidade de ver está ligada ao quanto andamos descalços.
|
Esse soluço é pura ansiedade: eu tenho vontade de fechar a porta e o computador. O corpo mandou-me sair da cadeira e ir até a varanda tomar um ar. Vi de longe que a chuva não vinha. E pensei.
Não é preciso correr para lado algum, veja como me falta ar: isso é uma pressa entalada. Uma urgência desvairada do quê. De dizer? De viver? Voltei ao prato de salada de fruta.
Hoje ouvi que escrever-e-nadar é coisa de gente que leva uma vida medíocre. Engraçadamente percebi que toda uma humanidade que submete a sua vida ao como-tudo-deve-ser apresenta uma facilidade pálida em definir o que é bom para o outro.
Medíocre a gente só pode dizer da gente mesmo. Médio é a coisa pela metade. E como poderíamos dizer que é a metade um caminho que sequer conhecemos? Mas eu entendo que o julgamento é uma forma da gente defender alguma fugidia convicção sobre algo.
Tibum. Para minha grande alegria estufante no peito, a chuva veio e me fez parar o soluço.
O céu está mandando chuva. Como eu poderia ter medo da chuva, se com ela eu comungo absolutamente tudo e mais um pouco? A chuva é como um livro: a companhia íntima perfeita – verdadeira, fresca, sincera e intensa. Chuva que apazigua e leva embora a poeira. Farei agora a minha devoção à chuva.O que fazem os homens diante da chuva forte? Nada fazem os homens, senão esperar. Porque têm medo de si mesmos na chuva. Têm medo do que fica depois que ela lava a poeira visível. Sinto pelos que têm medo dessa água divina caindo.
O gato ficou parado diante da fonte durante vários minutos. Ficou olhando para ela como se aquela presença fosse exatamente o que ele precisava, algo a ser admirado em silêncio por um bom tempo, todos os dias. A gratidão que ele tinha por ela estar ali, derramando sua água nas pedras, inteiramente disponível para sua sede, era infinita. Os animais são gratos, e isso faz deles seres graciosos capazes de nos fazer despertar para tantas coisas.
E assim como o gato tem uma devoção à água da fonte, devo às minhas verdades essa mesma fluidez e respeito. Para que mesmo quando eu ainda não souber a verdade, esteja atenta para reconhecê-la no meio de tantas coisas que se parecem com ela.
O que cada alma precisa não consta em livro algum, nem em doutrinas. A capacidade de ver está ligada ao quanto andamos descalços.
21.11.09
Tijolos formando a oca parede – Parte II (final)
Se a ordem é cortar o caule de uma árvore sadia, façamos assim, então: para não ficar nada, jamais, em aberto. Costuremos esse ponto final no lugar de tudo o que poderia ser: mas da minha parte, espere apenas uma não-vingança depois de tanto susto e da falsa ideia de que existiria algum respeito verdadeiro. Da minha parte, nada diferente da pacífica distância e dos olhos sempre despertos e não contaminados. Isso ninguém nunca precisará fazer por mim: dizer sobre o outro. Porque eu mesma sei o que cada um é.
ao mesmo tempo em que fui idiota
querendo sentir uma remanescente paz,
fui tudo o que podia ser;
ao mesmo tempo em que cometi os meus enganos,
eu que me lancei humanamente,
tropeçaste também;
ao mesmo tempo em que convicções externas se acumulam inside you,
eu me liberto a cada dia do que não é verdade ou nunca foi.
ao mesmo tempo em que
você castiga sem perceber
(como se fosse possível não ver que se tem sangue nas mãos)
eu vivo os meus dias
plantando sementes
sementes-palavras
vivendo vivendo e vivendo
sem moralismos exagerados
sem precisar espremer nada no tempo
sem precisar carregar tantos tijolos
construídos e colocados para encobrir
a intimidadora presença
da verdade:
ela vem sempre
sempre que houver espaço.
|
Se a ordem é cortar o caule de uma árvore sadia, façamos assim, então: para não ficar nada, jamais, em aberto. Costuremos esse ponto final no lugar de tudo o que poderia ser: mas da minha parte, espere apenas uma não-vingança depois de tanto susto e da falsa ideia de que existiria algum respeito verdadeiro. Da minha parte, nada diferente da pacífica distância e dos olhos sempre despertos e não contaminados. Isso ninguém nunca precisará fazer por mim: dizer sobre o outro. Porque eu mesma sei o que cada um é.
ao mesmo tempo em que fui idiota
querendo sentir uma remanescente paz,
fui tudo o que podia ser;
ao mesmo tempo em que cometi os meus enganos,
eu que me lancei humanamente,
tropeçaste também;
ao mesmo tempo em que convicções externas se acumulam inside you,
eu me liberto a cada dia do que não é verdade ou nunca foi.
ao mesmo tempo em que
você castiga sem perceber
(como se fosse possível não ver que se tem sangue nas mãos)
eu vivo os meus dias
plantando sementes
sementes-palavras
vivendo vivendo e vivendo
sem moralismos exagerados
sem precisar espremer nada no tempo
sem precisar carregar tantos tijolos
construídos e colocados para encobrir
a intimidadora presença
da verdade:
ela vem sempre
sempre que houver espaço.
19.11.09
Tijolos formando a oca parede – Parte I
Quando as coisas não encaixam, por mais que nos digam o que é a verdade, paremos.
O principal elemento que nos tira a capacidade de perceber as coisas: o medo. E a mágoa entupindo a passagem por onde a lucidez quer adentrar. Colocamos às vezes uma parede inteira perante nós mesmos, paredes-convicções: que acreditamos serem verdades.
Mas é compreensível que façamos assim, chega a ser uma proteção contra outras dores possíveis. Eu entendo e respeito o tijolo e a parede que nos deixam seguros sobre o mesmíssimo chão conhecido. Mas aí há um perigo: o de nos perdermos da vida – e esse é um dos papéis sombrios que o medo cumpre.
Porque uma coisa é acharmos a nós mesmos, na profundidade e na beleza do que somos; outra é desenharmos o que o outro é em cima de frágeis sensações que facilmente se confirmam por forças futriqueiras – forças que agem e se fortalecem em cima do que está em aberto e precisamos completar.
Blessed is the truth, because it’s all we have.
Tudo milimetricamente construído sem saber que o edifício inteiro é uma muralha de segurança máxima. Cada convicção-tijolo comprada naquela mesma rua, toda semana, pontualmente, servindo para que alguma resposta preencha então os lugares em branco.
Se o gesto é para compartilhar uma descoberta boa, se é por um transbordamento que se quer dizer alguma coisa, então um impedimento não é suficientemente ofensivo para que se mande matar. Uma raiva que se sobreponha a qualquer coisa fazendo uma parede oca enfeitada de tijolos montados um a um é cegueira.
Primeiro eu me assusto. Para então entender tudo perfeitamente, e segundos depois voltar a me assustar com esse emaranhado desfeito: estou pronta para decidir algo importante.
|
Quando as coisas não encaixam, por mais que nos digam o que é a verdade, paremos.
O principal elemento que nos tira a capacidade de perceber as coisas: o medo. E a mágoa entupindo a passagem por onde a lucidez quer adentrar. Colocamos às vezes uma parede inteira perante nós mesmos, paredes-convicções: que acreditamos serem verdades.
Mas é compreensível que façamos assim, chega a ser uma proteção contra outras dores possíveis. Eu entendo e respeito o tijolo e a parede que nos deixam seguros sobre o mesmíssimo chão conhecido. Mas aí há um perigo: o de nos perdermos da vida – e esse é um dos papéis sombrios que o medo cumpre.
Porque uma coisa é acharmos a nós mesmos, na profundidade e na beleza do que somos; outra é desenharmos o que o outro é em cima de frágeis sensações que facilmente se confirmam por forças futriqueiras – forças que agem e se fortalecem em cima do que está em aberto e precisamos completar.
Blessed is the truth, because it’s all we have.
Tudo milimetricamente construído sem saber que o edifício inteiro é uma muralha de segurança máxima. Cada convicção-tijolo comprada naquela mesma rua, toda semana, pontualmente, servindo para que alguma resposta preencha então os lugares em branco.
Se o gesto é para compartilhar uma descoberta boa, se é por um transbordamento que se quer dizer alguma coisa, então um impedimento não é suficientemente ofensivo para que se mande matar. Uma raiva que se sobreponha a qualquer coisa fazendo uma parede oca enfeitada de tijolos montados um a um é cegueira.
Primeiro eu me assusto. Para então entender tudo perfeitamente, e segundos depois voltar a me assustar com esse emaranhado desfeito: estou pronta para decidir algo importante.
16.11.09
Blessed is the truth about everything.
|
12.11.09
Always protected
Nada se compara à liberdade de poder escrever um texto: nada se antepõe à mais verdadeira intenção.
Olha só o que eu faço com o preconceito: olho pra ele durante um profundo instante, amasso ele com a medida certa de raiva e jogo ele todinho no lixo. Assim como eu faço agora com tudo que não presta: falsidade, coisa estragada por dentro, sorrisos idiotas.
Raro mesmo é gente com verdade no olhar. Gente cujo coração não precisa de coisa alguma para aceitar o outro.
Peço aos leitores, de coração, que se buscam vaidades, se buscam futricagem, polêmicas, se pensam que aqui é um lugar onde alguém escreve banalidades literárias, peço que fujam daqui. Isto aqui é um agora vivente. É uma água escorrendo, é um todo que não quer se perder em leituras empobrecidas e apressadas.
Aqui é sagrado porque é onde deixo escapar as verdades. E como eu não quero que verdades se percam em olhares pontiagudos, peço que se retirem da sala os que não me lerem com o coração.
Saibam também que estou devidamente protegida contra energias de qualquer natureza. Eu percebo tudo antes e mesmo sem saber o que é, já estou pronta. Na natureza é tudo assim: farejamos primeiro, e achamos na volta.
E se lhes falo em uma outra língua, é porque poeticamente a coisa penetra no lugar certo.
|
Nada se compara à liberdade de poder escrever um texto: nada se antepõe à mais verdadeira intenção.
Olha só o que eu faço com o preconceito: olho pra ele durante um profundo instante, amasso ele com a medida certa de raiva e jogo ele todinho no lixo. Assim como eu faço agora com tudo que não presta: falsidade, coisa estragada por dentro, sorrisos idiotas.
Raro mesmo é gente com verdade no olhar. Gente cujo coração não precisa de coisa alguma para aceitar o outro.
Peço aos leitores, de coração, que se buscam vaidades, se buscam futricagem, polêmicas, se pensam que aqui é um lugar onde alguém escreve banalidades literárias, peço que fujam daqui. Isto aqui é um agora vivente. É uma água escorrendo, é um todo que não quer se perder em leituras empobrecidas e apressadas.
Aqui é sagrado porque é onde deixo escapar as verdades. E como eu não quero que verdades se percam em olhares pontiagudos, peço que se retirem da sala os que não me lerem com o coração.
Saibam também que estou devidamente protegida contra energias de qualquer natureza. Eu percebo tudo antes e mesmo sem saber o que é, já estou pronta. Na natureza é tudo assim: farejamos primeiro, e achamos na volta.
E se lhes falo em uma outra língua, é porque poeticamente a coisa penetra no lugar certo.
9.11.09
Eu fico tão feliz quando esse calor exagerado vai embora. Quando descubro que tem mais uma caixa de congelados veganos na geladeira. Quando a chuva cai assim bem no ponto. E quando chove de novo como um triunfo do silêncio sobre a humanidade.
Mas feliz mesmo eu fiquei quando consegui dar o digno fim a um filme que me atormentava há meses. Acabei doando o chatíssimo banheiro do papa para uma casa espírita. Desatenção grave da minha parte não perceber que aquilo não era exatamente uma doação muito adequada, mas fui logo salva pelo destino: o filme foi derrubado pelos rapazes que vieram buscar as mercadorias doadas, ficando pelo caminho. Achei o DVD no chão do corredor, e desacreditando que ele havia voltado para mim, tratei de jogá-lo no lixo imediatamente. Qualquer coisa, menos o banheiro do papa! O homem demorou um século para fazer aquela privada, para o papa não aparecer. O filme é realmente deprimente. Lento, lento, lento, pra depois não acontecer mais nada e ainda acabar em miséria. Eu não premiaria uma produção como aquela, que me fez dormir tantas vezes.
Uma vez ouvi de uma pessoa muito querida que devemos dar vida aos objetos. Para este novo ano que logo chega, eu aconselharia a todos os que querem desbravar novos caminhos, renovar as energias e cuidar para que tudo cresça, que revejam suas vidas começando por seus armários e gavetas. Roupas guardadas que você não usa há séculos, biquínis esgarçados, remédios vencidos, escovas de dente desmanteladas, blusas rasgadas, cuecas e meias furadas, e mesmo as coisas inteiríssimas mas que nada mais têm a ver com o que você é hoje: passe a bola, manda pra frente. Alguém pode dar vida a um objeto que você simplesmente afunda num canto escuro do armário para não ver.
Se não soubermos cuidar da gente, como saberemos cuidar do que quer que seja? Cheiro de poeira quer dizer descuido, quer dizer que estamos ausentes perante as coisas que precisam dos nossos cuidados. E nesta vida tudo que existe precisa de várias idas e voltas, vide o pano no móvel, vide a louça na água, vide a rega diária na planta cuja sede dura uma vida inteira. E olhar para os objetos, tomar contato com eles é exatamente como cuidar da sua própria história e vida.
Mudar é eterno, mas isso não quer dizer que o que fazemos sempre seja a mesma coisa só porque vivemos do eterno retorno: o copo é o mesmo, mas a água é sempre nova.
Faz silêncio. As mentes todas deitadas. Pena que amanhã cedo despertam as almas atormentadas. E começa de novo aquele buzuzu de gente correndo, indo pra lugar nenhum. Cantoria desvairada da cidade. Todo dia nasce tudo de novo. Sim, o dia é novo embora não pareça.
|
Mas feliz mesmo eu fiquei quando consegui dar o digno fim a um filme que me atormentava há meses. Acabei doando o chatíssimo banheiro do papa para uma casa espírita. Desatenção grave da minha parte não perceber que aquilo não era exatamente uma doação muito adequada, mas fui logo salva pelo destino: o filme foi derrubado pelos rapazes que vieram buscar as mercadorias doadas, ficando pelo caminho. Achei o DVD no chão do corredor, e desacreditando que ele havia voltado para mim, tratei de jogá-lo no lixo imediatamente. Qualquer coisa, menos o banheiro do papa! O homem demorou um século para fazer aquela privada, para o papa não aparecer. O filme é realmente deprimente. Lento, lento, lento, pra depois não acontecer mais nada e ainda acabar em miséria. Eu não premiaria uma produção como aquela, que me fez dormir tantas vezes.
Uma vez ouvi de uma pessoa muito querida que devemos dar vida aos objetos. Para este novo ano que logo chega, eu aconselharia a todos os que querem desbravar novos caminhos, renovar as energias e cuidar para que tudo cresça, que revejam suas vidas começando por seus armários e gavetas. Roupas guardadas que você não usa há séculos, biquínis esgarçados, remédios vencidos, escovas de dente desmanteladas, blusas rasgadas, cuecas e meias furadas, e mesmo as coisas inteiríssimas mas que nada mais têm a ver com o que você é hoje: passe a bola, manda pra frente. Alguém pode dar vida a um objeto que você simplesmente afunda num canto escuro do armário para não ver.
Se não soubermos cuidar da gente, como saberemos cuidar do que quer que seja? Cheiro de poeira quer dizer descuido, quer dizer que estamos ausentes perante as coisas que precisam dos nossos cuidados. E nesta vida tudo que existe precisa de várias idas e voltas, vide o pano no móvel, vide a louça na água, vide a rega diária na planta cuja sede dura uma vida inteira. E olhar para os objetos, tomar contato com eles é exatamente como cuidar da sua própria história e vida.
Mudar é eterno, mas isso não quer dizer que o que fazemos sempre seja a mesma coisa só porque vivemos do eterno retorno: o copo é o mesmo, mas a água é sempre nova.
Faz silêncio. As mentes todas deitadas. Pena que amanhã cedo despertam as almas atormentadas. E começa de novo aquele buzuzu de gente correndo, indo pra lugar nenhum. Cantoria desvairada da cidade. Todo dia nasce tudo de novo. Sim, o dia é novo embora não pareça.
7.11.09
pacto autobiográfico
planta viva
pé molhado
chuva boa
tarde livre
café com horta
rede colorida
horas de presença
sono de inocência
jardim ensolarado
nós em completude.
|
planta viva
pé molhado
chuva boa
tarde livre
café com horta
rede colorida
horas de presença
sono de inocência
jardim ensolarado
nós em completude.
31.10.09
Senhora gata
Vento bom de piscina, eu pós-banho. No céu passam as nuvens e um helicóptero. Decidi que a pausa era agora.
Ontem minha gatinha tomou um banho com shampoo de criança. O budum estava forte e eu decidi que daquele dia não passava. Usei um mini secador, mas mesmo assim ela ficou um pouquinho estressada. Ela deve ter juntado um cheiro de poluição, com a própria baba de gata, e aí foi virando um cheiro que o meu olfato não reconhecia como digno de um ser elegante como ela.
O banho foi com um paninho. Como ela já vem sendo submetida a um estresse por conta do tratamento renal (soro toda semana), preferi que fosse o mais suave possível, o que eu não podia era deixar a gata cheirando gaveta empoeirada. O bafinho não tem jeito mesmo, o estômago dela está um pouco debilitado por conta dos remédios e da própria deficiência renal que ela apresenta. Mas deixaria ela cheirosinha, sim, mesmo com um pano perflex.
Ela é de uma força incrível, continua subindo na máquina de lavar roupa, que fica numa altura que ela só alcança por pura força de vontade. É uma senhora gata. Sabe do seu lugar, sabe os momentos e os cantos da casa onde pode se esbaldar de dormir. Aquilo tudo é dela.
O veterinário a apelidou de Matusalém, pois ela já está perto de completar os seus 20 anos de idade. Para mim, além da graça de ser uma gata, ela é também uma linda prova da vontade de viver, da força da presença, da elegância e ao mesmo tempo de uma doce fragilidade. Tuti Maria, uma senhora gata: siamesa, sabida e agora cheirosa.
|
Vento bom de piscina, eu pós-banho. No céu passam as nuvens e um helicóptero. Decidi que a pausa era agora.
Ontem minha gatinha tomou um banho com shampoo de criança. O budum estava forte e eu decidi que daquele dia não passava. Usei um mini secador, mas mesmo assim ela ficou um pouquinho estressada. Ela deve ter juntado um cheiro de poluição, com a própria baba de gata, e aí foi virando um cheiro que o meu olfato não reconhecia como digno de um ser elegante como ela.
O banho foi com um paninho. Como ela já vem sendo submetida a um estresse por conta do tratamento renal (soro toda semana), preferi que fosse o mais suave possível, o que eu não podia era deixar a gata cheirando gaveta empoeirada. O bafinho não tem jeito mesmo, o estômago dela está um pouco debilitado por conta dos remédios e da própria deficiência renal que ela apresenta. Mas deixaria ela cheirosinha, sim, mesmo com um pano perflex.
Ela é de uma força incrível, continua subindo na máquina de lavar roupa, que fica numa altura que ela só alcança por pura força de vontade. É uma senhora gata. Sabe do seu lugar, sabe os momentos e os cantos da casa onde pode se esbaldar de dormir. Aquilo tudo é dela.
O veterinário a apelidou de Matusalém, pois ela já está perto de completar os seus 20 anos de idade. Para mim, além da graça de ser uma gata, ela é também uma linda prova da vontade de viver, da força da presença, da elegância e ao mesmo tempo de uma doce fragilidade. Tuti Maria, uma senhora gata: siamesa, sabida e agora cheirosa.

