29.9.16

a lagarta e eu

uma menina cheia de pressa sacudiu a mochila fazendo cair de si um bichinho.

vi que era comprido, escuro e que se mexia. fui olhar de perto: era uma lagarta indo pra lugar nenhum. e aquela lagarta era eu: ali, no meio do chão onde nada fazia sentido.

peguei a folha de papel que estava perfeitamente disponível. e ela veio pra mim sabendo do que se tratava.

naqueles instantes não olhei mais nos olhos de ninguém, porque nada importava mais, tudo temporariamente deixando de existir, exceto a intensidade inocente de uma cumplicidade recém-descoberta.

desapareci enquanto um mero corpo finito que vai e que vem na vida, sem substância e sem graça, e os meus olhos e tudo em mim servindo a um só caminho que era chegar ao jardim com aquela lagartinha.

: a lagartinha me salvou sem saber.

12.9.16

sobre o autorrespeito

o que nós fazemos quando alguém nos dá algo que não tem nada a ver com a gente? seja um presente, um afeto, um gesto, um alimento: algo que nos seja oferecido, mas que não queiramos, que não nos sirva, que não nos agrade.

sabemos que cada um só vai poder dar daquilo de que dispõe naquele momento. mas o que se dá – e apenas pelo fato de ser dado – deve sempre ser aceito? até que ponto as pessoas estariam preparadas para um "não, obrigada" sem que isso significasse uma resposta violenta a um "ato generoso"?

no ato de dar algo a alguém não estaria embutida uma palavra de ordem? no "direito" de dar, não estaria também implícita a obrigação de receber? até que ponto aceitar algo não é também uma violência (contra si)?

a premissa de que "recusar algo não é educado" passa a ser compreendida então como uma crença que carregamos, como um animal condenado a puxar uma carroça pesada numa estrada que não acaba nunca.

desde que haja um motivo consistente para recusar ou que seu coração diga "não quero", é um ato de respeito para consigo, e em consequência para com o direito ao autorrespeito de cada um, permitir-se não aceitar até mesmo coisas que sejam oferecidas com boas intenções e de forma amorosa. a recusa pode vir na mesma vibração com que se ofereceu, mas sempre partindo do respeito por si, que depois poderá ser estendido aos outros.

você não é obrigado a aceitar um par de sapatos velhos e sujos, por mais que a pessoa que os tenha oferecido tenha agido de boa intenção. caso tenha se sentido ofendido com tal gesto, uma cura é agradecer pelo ato de generosidade daquela pessoa, que ao seu modo considerou que seria legal doar aquilo a você. agradeça internamente, mas deixe claro também internamente que é o seu desejo que esses sapatos e outras coisas que não tenham a ver com você sejam doados para outras pessoas que realmente queiram e precisem. quanto ao autor do gesto, procurar cultivar apenas a gratidão em relação à boa intenção – ainda que desencontrada - de doar a você esses calçados, e que a sua recusa – sempre primeiramente interna – sirva de inspiração para que todas as pessoas respeitem a si mesmas e ajam com mais empatia (= ver e perceber o outro) ao praticarem gestos de doação como esse.

quanto mais organicamente aprendermos a nos permitir recusar tudo aquilo que nos é oferecido e que não nos contempla de nenhum modo– interna e externamente, ou seja, o fora em concordância com o dentro –, mais intensos e verdadeiros serão os nossos sins – tanto para o que damos quanto para o que recebemos.

essa reflexão não prega uma apologia ao não. de forma alguma. mas um sim à percepção de que, primeiramente, é preciso conhecer no seu íntimo os seus gostos, mapear-se, respeitar-se. para então sacar que ao desenvolver a capacidade de recusar o que não lhe serve, estará mais receptivo e livre para o que realmente o alegra.

e esse texto, essa reflexão, você pode ler e recusar. pode ler e não fazer sentido pra você. e tudo bem. ou ler e aceitar, e ter todo um sentido na sua vida. e tudo bem também. o que importa e me alegraria mesmo é você se perceber. se respeitar. não importa qual seja a doação, a questão sempre será: seu gesto de aceitar ou recusar está em consonância com o princípio importante e luminoso, que é o princípio do autorrespeito?

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5.9.16

flor do tempo

ela sabia que quando a lua entrasse em escorpião sentiria o alívio dos que saem de uma crise alérgica. a lua encontrando novamente sua natureza fria e úmida: e foi exatamente assim. a segunda-feira que começou lenta, ela decidiu que acordaria agradecendo por estar respirando de novo. e foi lavar a roupa acumulada, limpou a poeira seca e velha que os cantos da casa falavam. e então as coisas que se quebram pelo caminho - ela pensou - deve ser porque serviram de passagem e precisavam quebrar. e o dia seguiu entre o tenso e o divino, como se não houvesse tempo pra mais nada além do agora, nem nenhuma vida que não fosse a sua: era o tempo querendo se libertar do pó que esconde o invisível rio interior. 

mas que forças são essas que sustentam o coração quando o chão parece tremer? diante das coisas tão grandes sentir essa espécie de calma era assim tão estranho quanto não dormir de cansaço. estaria ela anestesiada ou bem desperta? o que doía era menor do que essa força visceral que corria nela ou o que doía era tão forte e grande que a alma dormia? não doer mais era um mistério pra ela: queria entender.

24.7.16

o barco está pronto

ela então me ofereceu um calmante. 

— mas eu não quero me acalmar – esbravejei.

meus olhos ganhando uma cor de céu bravo quando chove. e era um cansaço de muitos tempos. e era difícil saber comigo e com certeza até onde eu estaria sendo cruel e até onde era como eu poderia existir. é que eu sempre me confundo com o tempo de aceitar e o tempo de um não-redondo-de-alma.

e depois do filme foi vertigem e tremedeira. as coitadices do mundo me irritando a um grau irreversível. então decidi estar um pouco no lugar de fome, no lugar da alma onde não vem alento fácil nem amor externo para amaciar as minhas dores. meu barco está pronto. e é o que tenho pra agora: essa raiva, essa vertigem. e alguns clarões. e o mar que não acaba nunca. 

precisarei ser ouvida ou precisarei apenas dizer? apenas lançar meus fluxos ao rio como uma oferenda me basta?

não, eu não quero me acalmar. porque isso seria novamente querer segurar um rio dentro de um copo de bar. vou andar, ainda assim, trêmula assim. assustada e calma, com a loucura que me cabe – amém. e não quero a calma, não quero a calma rasa de quem foge de si mesmo, de quem se abriga no amor do outro. o amor do outro: o pior dos vícios, que é quando você larga das suas danças mais profundas para "amar e ser amado". 

o quando das coisas já não me importa mais. e o que eu preciso agora é isto: estou tentando engrossar a minha casca. 

11.5.16

aquecimento 

[para, cabeça. cala a boca. deixa eu ser qualquer coisa. não me importar com quem vai ler isto, não me importar sequer se isto será publicado. me deixa ser este rio que me percorre sem me preocupar se está isso ou aquilo. olha, estará bom enquanto refletir meus fluxos, minhas percepções do continuum da vida que se mostra pra mim. que da bobagem e da coisa dita distraidamente nascerá também uma fundura interessante. eu sei que é assim: não se pode apertar nada pra que aconteça, pra que seja. tem que se deixar a água ir. e isto aqui é uma espécie de cosquinha inicial, um aquecer a si sem qualquer pretensão de que algo aconteça. e eu preciso disso porque as coisas todas que me acontecem têm uma vida própria e meu trabalho enquanto pessoa que quer ver e encostar e dizer essas coisas é apagar as luzes e ficar quieta. preciso calar a boca da minha cabeça, esse inferno cheio de luz e de informação desimportante - e olha que eu nem assisto televisão. quero o devir manoel de barros, a escuridão luminosa de clarice, quero o cinema e as músicas que me põem novamente no fluxo da vida. ai, cabeça, me deixa olhar o mar sem pressa de viver ou de morrer. me deixa viver sem precisar que ninguém goste ou desgoste. me deixa mexer do jeito que eu sei e sorrir. me deixa na minha urgência primeira, na minha respiração singular. minha ambição é profunda e ao mesmo tempo perigosa: desejo o escuro libertador. mas quero pegar as coisas com minhas próprias mãos, respirá-las nos meus olhos e dizê-las. apagar as luzes então é o que eu preciso fazer agora se quiser dizer qualquer coisa minimamente interessante. fecho os olhos, abro os poros e a alma acende em festa. não quero a coisa bonitinha que rende curtidas no facebook, quero a terra fresca que eu rego, quero a palavra como meio de cavalgar a coisa em si.]

27.4.16

finalmente chovia

seus pés cantaram: era hora de acender a noite 
de estrelas

finalmente chovia 
e a vida se alegrava mais nela

o barulho são as coisas 
existindo de mau jeito

a noite é o lado escuro da lua
e o café é um respiro 
de tudo aquilo que continua

tudo dança
a despeito de sabermos
só que o corpo reconhece -enquanto natureza e silêncio-
o que arde e segue

a noite
é uma taça de realidade 
a transcoisa que a gente quase nunca lembra
e quando acorda
é uma espécie de ressaca:
um intervalo entre uma chuva
e o próximo café.

21.3.16

ser sol

entrar no âmago da experiência e assim existir. seus olhos repletos de um silêncio úmido e profundamente nutritivo. cada grão de tudo servindo aos seus olhos de ouvir. e o calor servindo para esquentar. o calor finalmente deixando de queimar a pele - era esse o seu destino: ser um calor que esquenta sem queimar. o calor que pode doer tanto quando não vira vento de palavra: quando a gente não escorre a própria alma o calor pode matar. então escrever - e ser - como quem respira um mar de realidade: molhar a pele onde estiver quente. e então escorrer, escorrer e escorrer - até enquanto puder brotar a beleza de tudo que é.

11.3.16

soltar 

a nuvem se vai
e eu aqui sob o céu
que a todo instante 
muda

como na tempestade
eu me molho e me molharei
eu aguento e saio viva
depois seco tudo no varal

acontece que
a música da vida 
não me deixa nunca
-quase nunca-
e eu gosto
de cantar

eu saberei a vez 
de me lançar?

26.11.15

suar borboletas azuis

noite é quando acordam as minhas dores alegres logo depois de olhar a lua cheia. ou é quando o chá está quente pra beber. nem que seja por um infinito instante cheio de ritmo. e com as pulsações sempre novas me abraço no tempo. espreguiçar, espreguiçar da poeira. que na solidão também se dança. o mundo me habita, ouço sua música. e continuo, continuo. ah eu descobri: a música é um desenho no ar se fazendo ainda. um espanto bonito. diferente da espera oca: é um estar junto do agora. sem glamour, nem atraso, nem pressa. estar toda dentro do que mexe. a beleza do real, que é quando o pássaro voa. que é quando eu poderia pensar que não está acontecendo nada e uma coisa nasce porque já existia antes. minha febre fervendo: estou pronta de quentura. salto na noite como um vagalume. vendo o rio, sendo suas águas: eu continuo.

23.11.15

e a única coisa que podia acalmá-la era mexer o corpo. soltou-se dos chinelos e com os pés descalços começou a sequência de artes marciais que ela não queria esquecer nunca, ali bem no meio da minúscula cozinha. fez uma, duas, cinco vezes talvez, e foi ali se repetindo até cansar a respiração. até que tudo nela tivesse menos urgente. a chuva caía larga e ardia ainda. o lençol devia já ter secado no varal, e ainda tanta coisa a fazer: a louça, a comida, as coisas da vida: ah, o dia não perdoa. então é assim que a vida vai levando, entre um fluxo e outro, a dança que nunca desiste, a condição suprema que é estar acordada num mundo de carne, osso e paredes.

15.10.15

o vento vem e diz 
sem esforço e sem intenção
dança os caminhos de vento
sopra acende ama
: ama porque dança os seus caminhos de vento

o bom que é o sul denunciando o norte. o bom que é não haver um para-onde. as personas achatadas onde nos escondemos: que em mar raso não se pode nadar. comigo só sei que esse horizonte que me silencia faz de mim um escuro estrelado. e dele colho pitangas. e quase me engasgo com a borboleta branca de tão perto. formas e formas que não mudam mais: "sou isso e sou aquilo", "dormir de noite e acordar de dia". o real inominável em nós tristemente capturado. e o dia que é solar contém agora amor e gastura. fecho então os meus olhos, acordo no mar onde tudo é inédito: toda a água do mar não me engana. eu sei e tudo que importa é eu não me perder do coração do instante que só sabe fluir. 

23.9.15

ser-livre

peguei o passarinho. medo de ele quebrar. eu que nunca tive nas mãos um ser que voasse. perguntei onde ele queria estar e ele me disse.

mas preciso enfatizar: o gato que pegou o passarinho era tão livre e inocente quanto eu e o passarinho. mau pro passarinho. bom pro gato. eu: nem bom nem mau acaso. apenas eu num devir ao qual me senti toda evocada.

será justamente este o cerne do ser-livre: tornar-se fluxo no encontro com o acaso?

17.9.15

sim, era sozinha que se existia. e pra cada instante que acontecia uma força fazia dançar dentro dela. aprendeu aprendeu. aprendeu que não adiantava querer ser outra coisa. 

comprou livro de receitas, foi ao supermercado, voltou e lembrou que tinha esquecido, cantou, tomou banho, abriu janela, conversou com ninguém, amou no fim de semana, se acostumou, foi e voltou, reclamou que não chovia, evitou fila, teve medo de não chover mais, choveu, saiu correndo, pegou as roupas do varal. arrumou os livros. cansou, acordou, sorriu, esperou. errou, acertou, descobriu. correu mais, não chegou. caiu, levantou. encontrou, desarrumou, sonhou, viveu, pulsou, doeu, cozinhou, regou, mudou. abriu e fechou portão no fim da tarde. quis ver o mar, foi ver o mar, sentou e conversou com o mar. trouxe o recado no peito. lembrou e esqueceu. comprou um amaciante que tinha cheiro de fumaça. desistiu, olhou pro céu. cortou o dedo, machucou os pés, criou calo. deu risada. pediu pão na chapa. chorou e se acalmou com a beleza, e escreveu - já que não podia gritar. deitou sem saber que aquilo era voar. viu o tempo oco. e viu o tempo das rosas. jogou coisa fora. batucou na praia. tatuou uma rosa selvagem. sentiu a areia nos pés. aceitou jogar frescobol com o menino alegre. olhou nos olhos do horizonte. dançou sozinha sem se sentir sozinha. descobriu que era feita da mesma poeira das estrelas. ficou zonza depois do beijo. iluminou-se de realidade. e iluminou-se de realidade. viu os abismos de perto, pulou várias vezes. lavou louça na hora do vazio mais seco. respirou. falou demais. interrompeu. teve medo. correu, se atrasou. teve até um dia que regou a planta da vizinha pra não secar. acordou e não sentiu nada, se desesperou. foi à feira, pegou do chão um maço de manjericão. para os livros, era a estante amarela. e a galocha vermelha era para os dias de chuva. consertou o chuveiro. espalhou pétalas de rosas pra ela. colou frase na parede. estudou filosofia, alargou-se. guardou canetas dentro da caneca. fez caber o impossível dentro de espaços pequenos. descobriu que gosta de batata-doce e que fica uma delícia cozinhar o alho na casca junto da pipoca. quebrou um dente na véspera do aniversário. amou mais quando pensava estar perdida. aprendeu sobre o sim e sobre o não. desabrochou - e desabrochou com os próprios pés.

29.8.15

seguir

tinha um talento para os dias. sabia sem saber que seguir era o mesmo que viver. seguir semente de. brotadeira no tempo. fumaça e flor nascendo nela. espinhos rasgando de beleza. de resto é tudo mentira. é querer-ser. só o que é é o que existe e pulsa. e sentia e descobria que um dia se abraçava no outro, pela madrugada. a madrugada: onde o rio encontra o mar. paz é um lugar onde é possível nadar no infinito. e é por isso que me acalma olhar as estrelas no céu. e o grito que não é possível gritar eu transformo em canção que canto de olhos fechados. e de vez em quando acontece de eu ver um milagre. como a flor de arruda que deu no meu jardim. e me fez sorrir e querer fazer uma foto. e em cada gole que decido dar, há o escuro luminoso. o dom que é evocar o café na hora do tempo mais oco. a tagarelice lamacenta em que estamos mergulhados. saber o que se é: se estrela da noite ou estrela do dia; saber se é o quente ou o frio que mais faz pulsar. saber e aceitar. e ser livre de novo. tão difícil. tinha medo de secar de tanto não saber.

18.8.15

passarinho

e subindo a ladeira eu ouvi um passarinho existindo. eu ouvi um canto vindo de muito além dele. era quase noite, e tudo que não fosse o existir tornando-se desimportante. o cansaço e o ar seco virando uma poeirinha. era o cantar a despeito de, encostar na vida a despeito de. porque tudo é. porque aquele canto era a voz de uma coisa que nunca acaba de existir. então a noite passarinho, a rua passarinho, a maçã e tudo, no fundo, passarinho.

3.7.15

"meu silêncio fora silêncio ou uma voz alta que é muda?" (C. Lispector) 

às vezes acordava fora do tempo. era ela uma panela cheia d'água, prestes a entrar em estado de ebulição, a ferver? e água quente, você sabe: se ferve toda pra fora. se derrama. ela então acordou da noite longa e logo cedo já estava fervida. sabia que se essa água não virasse uma espécie de rio que corre para algum lugar, ah, se não fosse esse rio, ela se queimaria toda. era preciso então dispor de um rio para viver. chovia, chovia. e a despeito dela querer assim ou assado, as coisas eram. chover era o silêncio comendo o tempo-oco das horas e enfiando-se pelas frestas. era como se a água finalmente desse vida à terra - e não o contrário. acordou, então. tomou café. lembrou-se do que ainda nem existia. teve certezas daquelas que apenas a instância de rio reconhece. e sem guarda-chuvas partiu para a vida.

27.6.15

lua que cresce

como se a minha realidade fosse um outro mundo - feito das coisas vivas e intensas que acordam porque ali sempre estiveram. e agora se mexem de novo. e de repente o pouso amortecido de quem não sente nada. outro chão, bem mais duro e com uma terceira perna. da diferença entre perceber a maçã e a maçã-em-continuidade-com-tudo: é preciso uma dança antes de dizer uma coisa dessas. ir para uma instância de mim, que significa não estar em outras. ah, a vida não está nos rostos. e o absurdo então acontece: depois que você se perde é que a vida percorre o chão e se abre em música. como o mar nas ondas: indo e vindo, forte e calmo, longe-perto. fiz um mergulho e me enchi de realidade. estou ainda.

12.2.15

da vida

lua e pele dizendo do chão e das estrelas. enquanto o coração pulsa da vontade de soprar palavras fundas. elas que são tão antigas quanto a vida. e nadam em mim. e do fundo do mar eu me ergo. enxergo primeiro pra depois abrir os olhos. que eu posso (e preciso) mergulhar e nadar de volta. ver e desver: para então transver. eis o segredo do fundo do mar.

9.2.15

entre a rua e o tempo

no meio da tarde enluarada sentiu como se carregasse o mundo dentro da sua barriga. doía - tanta coisa pedindo pra nascer e ainda assim: tão no meio do dia. e bem no meio da dor ela decidiu que não desistiria da dor e que nasceria. fez como fazem as borboletas: fechou então os olhos e deixou a pele ir virando realidade. deixou que o tempo. aceitou então a rua e continuou a caminhar. repetiu-se: que respirar era existir de novo.

29.1.15

linha de fuga 















 (...) e alguma coisa em mim vem e vai, vem e vai e se agita: mil entradas e mil saídas. até que finalmente grita, baixo, mas grita: "faz de conta que é chuva". e a força então é a de um grito liberto.

9.1.15

parindo à tarde

Eu: cansada de rótulos, de "sou isso", "sou aquilo", "sou gay", "sou anti-açúcar", "sou abolicionista", "sou a putaquepariu". Algum trânsito de Urano? Talvez. Antes eu via tudo ao contrário: achava que o vegetarianismo tinha que estar no começo, que era o ponto de partida para uma existência minimamente ética. Agora vejo que, como qualquer coisa, o vegetarianismo tem um valor verdadeiramente ético enquanto efeito de uma necessidade de vida que nos atravessa e que nos toca e que nos inclui. Efeito já de um modo de conceber e me relacionar com tudo que vive. Um devir alargado porque a vida precisa seguir e o continuum da beleza-vivente me alegra. Então o vegetarianismo, como o sorriso, como o comer, como o falar: interessantes enquanto efeito de uma afirmação de vida anterior. E não porque disseram que. A dor, a cor, alguma coisa precisa encostar em mim e alterar a minha pulsação e por puro espanto eu continuarei respirando. Devir-vegetariano, devir-palavra, devir-abraço, devir-silêncio, devir-qualquer-coisa: como efeito e não como norma. No filme "Laranja Mecânica", temos a ilustração bastante indigesta da construção artificial de uma suposta ética, onde pra não ser violento, um jovem é "educado" (torturado) e transformado em um ser humano de plástico, fake, com valores fakes, uma ficção e não uma transmutação ou um uso interessante da violência, ou seja, ao meu ver, o filme remete a isto que vivemos, predominantemente: vivemos uma não-ética ou uma pseudo ética, uma ética moralizante e infantil que nos joga cada vez mais para o buraco - aí vêm as ofertas constantes de um céu que nos redima, tipo um carro zero ou um cargo-de-respeito ou rezar x vezes o pai-nosso. A moral nos dá o caminho pronto e nos diz "isso é certo", "vá por aqui" ou "vá por ali", "faça assim, porque eu já fui e sei o que é melhor". A ética não: ela vem aos berros, silenciosa e mortal, ela não fala, ela grita: "vive, vive, vive, vive e dança". E desse grito silencioso, desse viver, tudo se faz. De resto é ausência pura. Ao final do filme "Blade Runner", pergunta-se: "mas quem vive?", e essa pergunta seria interessante fazermos todos os dias: se estamos, de fato, vivendo. Se estamos, de fato, indo e navegando com a nossa bússola imanente. Cantando a nossa própria natureza singular. Deixar-viver, então, é efeito.

26.12.14

o impossível

porque a vespa voar é um milagre. mas ela voa. ainda assim. voa porque não sabe que não pode voar. voa porque não conhece outro jeito a não ser o seu próprio jeito de afirmar a existência. ela vai.

Preciso ir. Assim como o sol nasceu e à tarde precisa ir embora até nascer outra vez. O agora-urgente, que ele não chama: ele grita. Um grito de horror e de êxtase, o grito do calor do concreto que queima, o agora da chuva imensa, o agora das horas que oferecem. Eu não sei mais falar, só sei ir. O falar como um depois da coisa em si, alargado e real. O falar como ato de existência, como pulsação ainda. O agora que arrebenta o tempo e vem e diz. O falar assim.

o raio de perto

Ah eu estive lá. Bem no meio d'aguaceira hora atemporal da tempestade. E na minha frente eu vi um raio. Que foto, que nada: era um raio mais rápido que o tempo. Acontecendo muito perto, do céu até o chão, e só deu pra ver que era um raio e que estava perto. E tudo chovia onde eu era. Mas hoje eu tive a honra, hoje a chuva escolheu mais um livro pra deixar cicatriz: "Singularidades Criadoras", do filósofo Amauri Ferreira . Que não ando sem livro e sem música - a vida que a gente vai e pega com os sentidos do corpo. Então é isso: na minha mochila um tudo de coisas e a chuva foi e molhou o meu livro que era pra ver se eu contava uma história.

25.12.14

Acordou, tossiu, bateu as asas. 
Foi para o lugar mais difícil e mais raro: 
o agora.

2.12.14

quase aqui

o chamado que não diz o porquê. a coisa, o lugar: ai meu deus, a vida anda urgente. e eu sempre esperando a chuva. eu sempre desejando a chuva. não sei até quando, só sei que é assim. e isso deve ser uma espécie de sempre em mim. desejar a chuva. e descobrir que de repente a chuva mesma me constitui. e agora neste instante exato de fim de dia me colo no todo de novo, não sou mais eu, sou todas de mim. e não há certo ou errado, só beleza - torta, reta, feita de sangue ou de vento. se sou? há um infinito que me percorre, então sou.


teve uma noite em que eu chorei e o peito apertou de saudade das estrelas. nem sabia que era possível uma saudade assim. fiz uma foto do meu rosto e olhei: queria saber como era a saudade das estrelas vista de fora de mim. fotografar que é quando me silencio e aceito. que me acalmo de tudo. igual a chorar. ou a rezar. ou a amar. eu aceito o depois e o quando de tudo. às vezes, só de saber que depois chove, eu aceito. ou depois de perceber que sou infinita. antes era mais raro e eu sofria mais. acontece que há uma coisa que não deixa, que não se deixa pronunciar. ela é pela beira, ela é pelas pontas dos dedos, vai ali pelo peito e pulsa pulsa, ela só dança. só existe o perto dessa coisa, não se pega ela nunca. as palavras vão e dançam para essa coisa, sopram, respiram, são. porque encostar no mar inteiro é impossível. então o que se pode fazer é dizer como faz o pássaro: ele voa e assim ele encosta na coisa.

então me deu uma gastura depois do fim de tarde, acumulou poesia de novo bem no canto dos meus pés e nas asas e nos olhos. precisava pegar com as mãos aquela substância delicada, pegar como quem toca a pele da rosa. ir para o voo substancial, ir com os pés, ir para o abismo encantado. até ficar infinita de novo.

25.11.14

vida e poeira 

A poeira como a vida: nada poupa e se espalha pelos cantos. É imortal. É sem-fim, sem-começo, sem porquê ou para-onde. A vida-poeira: que não acaba nunca.

10.11.14

um miniconto astrológico

  — trabalha, formiga, trabalha — ordenava Saturno.

 e enquanto isso dentro da formiga a cigarrava gritava mais alto. Saturno servia então ao poder de fazer poesia com a vida que se tinha nas mãos.

4.11.14

um dia no parque

foi assim: o dia estava insuportável porque era calor e estavam enchendo o parque de lixo e barulho. andar e andar e andar como se anda num deserto. 


– lugar errado, na hora errada... - disse baixinho, perturbada - e por que você está cantando?


ela cantarolava enquanto caminhávamos na rua bombardeada. ela, que dispunha de uma alma tão colorida e forte, que conseguia cantar ali mesmo. respirou então, e parando de cantarolar o desespero, olhou bem nos meus olhos:


– porque estou tentando ficar calma...?


então o silêncio. e alguma coisa riu dentro de mim, um riso contrariado porque eu estava tão brava com a vida. uma risada desesperada. uma risada de beira de abismo.


foi quando aconteceu aquilo. estava tão cansada. ah, do barulho do mundo. achei que enlouqueceria. saí correndo e fui sentar num banco perto da beira do rio-tão-poluído. como faz quem não aguenta dar mais nenhum passo. e mesmo querendo gritar, só chorei. e chorei e chorei. de cabeça baixa, as mãos no rosto. queria dar minhas lágrimas pra terra. chorar, que é uma forma de dizer sim pra tudo e depois acalmar. pelo menos isso. dizem que evitar o choro faz mal à saúde e principalmente ao fígado humano. mas eu chorei mesmo de não aguentar mais tanto barulho. como faz um bicho cansado, não o cansaço de um pedreiro ou de um executivo, mas um cansaço antes de tudo incorporal, ancestral, cansaço de quem não acha lugar. 


– deixa eu deitar aqui?


e o meu olhar devia ser de quase-ausência. foi então que parti pra um tempo infinito, fechei os olhos. minhas asas protegidas. meu coração pego nas mãos. ah isso existe. aquela alma infinita e colorida me abraçando com um amor que eu não sabia que existia. e ela não fugiu. humanamente refiz as asas. 


precisava de um silêncio escuro pra me iluminar.

2.11.14

devir-clarice

era domingo. era depois. a gata veio e lambeu seu rosto cansado e amanhecido. seu destino era com os gatos, no ser-com o silêncio deles ela ficava maior e mais calma. foi então num entretempo que ela sentiu vontade. igualzinho quando a flor vai e se ergue no asfalto, ela teve vontade - mesmo cansada. ela que produzia, que fazia, que ia e que cansava, ela teve então vontade e foi enquanto caminhava no entretempo do dia. sentou-se com Clarice ali mesmo, olhou-a com a ternura de quem faz um café sem esperar nada da vida. pensou consigo que queria um pastel de feira com caldo de cana. e que seu dia seria singelo. viu que mesmo no árduo da vida ela podia ser. ela não se esquecia, quase nunca, de viver.

29.10.14

virando dia

a rua tão calma, tudo dorme. mas aqui dentro há um caos colorido, e o que eu quero dizer é do tamanho de um oceano. ah se eu me embalar nos meus excessos corro o risco de me sair ventando e o vento pode virar algum barco. é preciso cautela e prudência pra navegar em alto mar. eu não quero nada além de dizer, não a coisa em si, mas a pulsação da coisa. a pulsação que é inocente em si. ir pela palavra então é uma forma de conhecer a natureza da coisa. como quem beija e funda um outro tempo. e se eu puder pedir, peço isso: que as pessoas saibam ser-consigo. antes de tudo, isso. e que tenham paz e pouso. o dever-ser como caminho fácil pra lugar nenhum. árduo mesmo é ir pelo desejo. que o desejo é quem sabe do âmago das nossas forças. é ele que ergue as mangas pra criar. é dele que vem o ar. e a gente sabe se o caminho é o nosso na medida em que a gente se alegra com a chuva... quero estar assim: no perto das minhas chuvas, sem medo da cor que é existir. saber de mim, do que me atravessa. ser-com a estrela da madrugada. e isso é bonito porque respirar a estrela acende o meu peito de imensidão. e eu sou simples, infinita e inacabada. estou aprendendo a viver.

22.9.14

Sua Vênus quer dançar

Nunca vou deixar de gostar de ouvir Arrepio no modo repeat. Nunca vou deixar de me sentir tão viva no silêncio que é quando eu encontro com o mar. Nunca vou deixar de sentir meu corpo virar mais corpo quando minha alma dança e vice-versa. Nunca vou deixar de me acalmar quando chove. Nunca vou olhar nos olhos e não sentir nada. Nunca vou regar uma planta e não querer sentir o seu cheiro. Dizem que nunca não existe mas e se o nunca for um sempre atravessado no tempo? Um sempre de mim que me espera e me segue como uma sombra? Desse sempre-nunca, então, vou fazer a minha força. E é com ele que vou me libertar: pegando esse sempre de mim, levando comigo, fazendo ele dançar.

21.5.14

dance

porque dentro de mim há um lago fundo, um alto escuro luminoso que nem eu conheço direito. há em mim o tempo das coisas, vestido de borboleta amarela. vestido de rosa da noite. eu então dou um passo à frente, tiro o tempo pra dançar. arrumo a gravata e a saia, estou descalça. estou de joelhos. agora sou eu que te levo, tempo? que eu aprecio dançar.  

a verdade é que uma dor tem em si todas as dores e cansaços ancestrais. às vezes a vida dói e parece que vamos quebrar, mas não. porque o tempo vem dizer assim "é a minha vontade" ou será que ele diz "eu te desafio" ou "a vida é tudo e qualquer coisa" ou "calma e desespero são a mesma coisa" ou "dança simplesmente"? ah, me resta, como sempre, fazer o que se faz quando vira noite: eu vou até dentro do vento, procuro no escuro as faíscas. 

o que aconteceu é que eu não sei mais viver sem estar viva.

20.2.14




Aprendendo que esperar qualquer coisa que seja gera angústia. Esperar no sentido de querer que algo seja assim ou assado é um jeito de engessar-se no tempo, é um jeito de ferir o supra-sumo do acaso. Eu prefiro o desejo que deseja e inventa com o próprio passo e daí o que se encontrar é caminho. Caminho de uma potência que, ainda que tremulamente, deseja se efetuar.

25.12.13

no onde do sempre

a borboleta veio, pousou na flor tão colorida. eu que conheço o chão vi uma borboleta voar. eu que conheço o chão respirei fundo na borboleta. a borboleta me quis, como o vagalume me quis. a vida acendendo no meu rosto grave e urgente. chovo na borboleta. chovo no pouso da borboleta. chovo todos os pousos neste instante, choro de chuva inesperada. choro infinito. foi eu respirar a borboleta e ela me deu ar. no onde do sempre. lá onde as coisas vão pousar.

11.12.13



e esta sou eu: um voo no dentro das coisas. é que me emociona existir. então chove e 
eu poderia me proteger da chuva que está apertando, ficando mais forte, mas eu me rendo ainda mais. nada importa tanto quanto essa chuva. estou sendo regada e brotada do escuro. eu dentro dessa casca de mim. trêmula de silêncio. enxergo com as palmas dos dedos a poesia de toda beira de mundo. quanto de alma aguenta um corpo? 

29.11.13

mil compassos

minha gata está sonhando. e eu tenho medo que ela esteja dentro de um pesadelo. "devo acordá-la?", pensei. e ela acordou.


a cada decepção eu sinto que preciso celebrar alguma coisa. chorar não é senão uma rega? não, eu não me nego à chuva. eu que sou do reino da água. mas prudência sempre: regar nem demais nem de menos. suspiro, então. saudade de ver vagaluminhos.

e se eu vejo borboleta, se eu mergulho no céu da noite, é porque dentro de mim é cheio de estrelas que nunca morrem. vou pelo mundo, e me arrepio toda, ah quando se está vivo arrepia-se sempre. estar vivo é sempre melhor do que estar morto achando que se está vivo. e ouço o que existe e até o que não existe. clarice, onde estão as pessoas como você? a vida quase me basta só de eu saber que o mar existe. mas não basta. devorar o dentro dos instantes é o que me resta.

perdi a conta de quantas vezes já respirei na vida. e quantas mais, impossível contar, mas tem gente que conta. que conta os dias, as horas e as palavras. não quero desperdiçar intensidades em corpos vazios de sentidos. então eu abro os meus braços, aceito primeiro os meus próprios temporais.


28.11.13

atmosfera

chego junto com a chuva. o sofá é colorido. faz uma noite quente. o lugar que você escolhe é ali onde se enxerga tudo no escuro. à espreita e aos goles. sua força no sorriso, todos os mistérios nos seus olhos. e então eu vi por um segundo. o mundo mexe. estou viva. mesmo depois de morrer. chego perto. vejo seus olhos fechados. e quando eles abrem eu estou ali. dança e respiro. vou lá fora tomar um ar, medo de você ter ido embora, medo do nunca mais. não tem mais ar, apenas a sua fumaça. fico sem jeito, largo você pra fumaça. você não foi embora e eu então vivo uma alegria de criança quando recebe uma notícia boa. alegria curta e aguda. você não foi embora. eu danço muito perto, você olha quando eu não olho. e o tempo para pra sempre nesse silêncio tocando alto.

26.11.13

20 segundos

Há tanto dentro de mim que pode ser que você encoste e dê choque. Um dia eu abracei dois amigos e eles tomaram choque. Fiquei com medo de sair por aí dando choque nas pessoas. Abraço: vinte segundos e a pele da sua alma encostando na minha (a alma tem pele). Então o que eu estou descobrindo é que as existências se encostam umas nas outras todos os dias mas não se demoram. Há um medo de se demorar, um medo de uma pulsação de chuva. Morrer é mais importante. Acordar, comer e dormir, pagar as contas –respirar quando der. Já se acorda morrendo. Eu gosto de inverter, de inventar, mais do que gosto: eu preciso pisar no medo pra ele não pisar em mim. E às vezes ele pisa em mim. Mas pelo menos eu vou e olho nos olhos, nos seus olhos. Aqui um segredo: olhar, olhar mesmo, é respirar o que se olha. E abraçar é olhar com o corpo. É, o meu corpo dá choque, às vezes. E há tanto tanto dentro de mim que eu tenho vontade de ajoelhar e virar rio.

9.11.13

quanto

quanto mais tudo mais tudo. quanto mais fundo mais fundo. quanto mais nada mais nada. quanto mais aqui mais aqui. quanto mais tempo mais tempo. quanto mais vida mais vida. quanto mais do quê mais do quê. quanto mais, mais do quanto.

7.11.13

silêncios 


















tem o silêncio bom e cúmplice. silêncio de abraço. tem o silêncio sem jeito. tem o silêncio de casal quando briga. e que faz então a gente preferir a briga pra mudar de silêncio. tem o silêncio de dor e de morte, sem-fim, quase-sendo. tem o silêncio de quem cria. tem o silêncio perverso, de chumbo, que fere. tem o silêncio de música. tem silêncio de tarde. tem silêncio de passo, de rede, de gato, de comida no fogo. tem silêncio de calma e de vento. tem silêncio de medo, esmagado. tem silêncio de mar e de chuva. silêncio: lá onde cabem as coisas. lá onde conhecemos o fundo do mundo. 

5.11.13

o tudo e o nada

ah se ela pudesse sairia remando sem parar até cansar tanto que não houvesse coisa outra a fazer senão parar e dormir, sem pensamento, sem o tudo, e sem o nada. quanto ainda até aprender que a vida é um remar frenético e sem sentido. o lampejo de sentido que vem apenas no instante mais inesperado - que é estar à espera e nada acontece. a coisa que grita, grita tudo e é desordenada. eu tento ser delicada e pegar na mão. mas me escapa, me esquenta o corpo e eu tenho febre. febre de palavra perdida incendiando. eu tenho febre assim, pela calçada. e essa que eu sou dá tremedeira.

no vento e na água não tem vírgula não tem palavra. contra o quê a vida avança? que onde há lama as pessoas escorregam. a vida avança para onde. o dentro e o fora, tão dissonantes...

tudo eu imagino no presente. até o presente é como se me acontecesse agora. e também o passado sem fim. então eu ardo. queimo. e tenho febre. e não sei quando passa.

2.11.13

trânsitos de plutão

e eis que na minha solidão sísmica, esbarro numa moça de olhos bem-verdes. ela vestia um moletom cinza, pele bem clara, à vontade com a vida. deve ter tremido alguma coisa em volta de mim porque ela puxou assunto comigo. tinha um jeito simples e engraçado. pensei de cara “será que ganhei uma amiga?”, e ela me conta que vê logo quando alguém faz bem ou mal pra ela. então eu disse “e como você sabe?” ela: “ah, não consigo nem conversar com a pessoa”. eu: “é, tem gente que eu também não consigo nem ficar perto. vai me dando uma vontade de ir embora.” ela: “eu bocejo e as plantas morrem, é assim que eu sei”.


“uma vez fiquei triste quando um manjericão morreu de repente”, lembrei em voz alta.

ela ficou bem atrás de mim na escada rolante que descia. “deixar a esquerda livre pra quem quiser passar”, disse a mulher, sorrindo, pronta pra qualquer assunto.

“sou muito só”, continuou ela. e ela poderia ter dito “me sinto muito só”. tão diferente. não, ela era só, era a condição dela e ela me disse. ainda que casada. ainda que tudo. foi quando eu olhei pra ela: “nós somos tão sós, né?” 


"eu me visto assim, já fui até confundida com traficante", desconversou a mulher se referindo ao moletom. a mulher me fazia rir. e foram se dando alguns silêncios, o tempo ficando encorpado e leve, ela me contando dos trânsitos de plutão, eu rindo e ouvindo mais do que falando.

“e você vem sábado?” perguntou ela, tão à vontade com a própria solidão. ela, a mulher engraçada e de olhos tão-verdes.

30.10.13

texto da tarde




















tão sozinha que quase me desintegro e talvez eu precise mesmo me esfacelar e estar quebrada, quebrada de ser função de alguma coisa ou de alguém. como inspirar profundamente o ar. e se isso é não ser inocente então eu não sou, eu não sou. aqui a verdade: eu acredito e eu sinto. longe perto qualquer coisa. tanta gente morrendo e eu morrendo pra tanta gente. mas enquanto eu estiver viva, sucederá que eu chore à noite. sucederá eu me alegrar com a existência da borboleta do vento e do mar encostando na minha. sucederá que eu ame os gatos desse jeito que eu sei amar. então venta agora um vento leve na superfície, diferente do vento de dentro, que é quente e de angústia pura.


eu saio pra rua nem nua nem eu, uma de mim. e vou reparando enquanto escrevo, reparando e andando enquanto escrevo. andando como tudo anda em mim, tudo-sempre. que eu encarnei os meus próprios fluxos, quero saber quem são e o que têm pra me dizer. estou aqui toda pronta para minha solidão. mas que solidão povoada. que silêncio povoado. a verdade: não se diz, se escapa. eu vim pra esse lugar, aqui onde borbulha coisa sem intermédio. 

eu vivo porque o mar. vivo porque existiu aquele dia na pedra e o vento me amou tanto tanto. por isso eu ainda existo e sinto e consigo acordar. a madrugada quase clara e tão escura ainda. só a vida fala essa língua que é a língua da vida, por isso a natureza da madrugada é tão solitária. e infinita, outro tempo. leva-se aliás uma vida pra aprender a viver. e então que seja assim. e se eu choro é porque estou viva. fecho os olhos e vem vindo uma música forte, chega no corpo e permite então que eu seja qualquer coisa. o raro instante, a liberdade. funda. ela mexe revira e tem pele. haja palavra pra tanta chuva.

29.10.13

tudo e agora

assim como agora, que tudo absolutamente tudo me atravessa mais. Ah então é isto: a música ou algo que me remeta me pressione a me demorar. E então parece que eu tomei vinho. Outra de mim a cada encontro de tudo comigo. Mas estou sóbria. O vinho está ali e eu não dei um gole sequer. O indo o indo, o sendo o sendo. Como pegar na mão e mostrar? Por exemplo: a moça do meu lado lendo um livro. Há outro jeito de contar: a gente se encostou num segundo de olhar e logo e desesperadamente tratou de desencostar. Seus óculos são coloridos. Voltei o olhar. Vou ficar mais uma estação. Virou a página. Passou a minha estação e a minha hora. E suas botas são marrons, pés firmes no chão. Segurando o livro ainda. Que será que você está lendo. Não te olho mais. Você mexe no livro, folheia, vai ficando mais inquieta, não sabe o porquê de você mesma. Você mexe no livro como ninguém mais mexeria e o instante não se repetirá, então por isso ele é vivo e sacode.  E já passou a minha estação e eu não me importo.  Eu poderia lhe dizer isto: “tem que apagar a luz e virar noite pra ver vagalume”, mas fico quieta. Você se prepara pra descer, é a sua estação, você guarda o livro, fecha a bolsa, tira os óculos e parece cansada. E então eu fico. Eu fico. E lá se vai você. E sua bolsa colorida como seus óculos. E bonita como um cansaço: bonita você, bonita a bolsa, bonito o instante em que me disponho a durar. Chegou o trem, e eu notei, eu notei quando você virou o corpo e a gente encostou de novo. Outro olhar que seria o último. Sem palavra nenhuma, apenas indo no indo do tempo. 

24.10.13

onde se encostam as existências

e se as pessoas se conhecessem primeiro do dentro-de-si para o dentro do outro? e se as coisas se dessem primeiramente na dimensão do dentro, apenas quando as cascas dormissem um pouco? por exemplo: em vez de uma existência encostar na outra primeiro pela fronteira, pela casca, pelo visível e aparente, o conhecimento ou o acesso ao outro se desse antes-de-tudo pelo que está dentro.

primeiro de tudo: o dentro. será isso possível? e o dentro de um gostando do dentro do outro, então o fora-de-si e o fora do outro partiriam para um entendimento pautado no dentro - ainda que os foras não se quisessem do mesmo jeito, ou ainda que os foras não fossem tão encontrados como os dentros. então, ao menos, as existências (a de si e a do outro, ambos conjuntos infinitos, sem dentros ou foras fixos, mas de natureza singular e inigualável)
teriam se encostado, de fato. de um dentro a outro. e depois, apenas depois, de um fora a outro.

será que esse mundo é possível? um mundo em que as existências se encostem primeiro no dentro e depois no fora? primeiro no sendo depois todo o resto? por que partimos quase sempre da forma que vemos, ou seja, do que já é efeito de tantas coisas que se deram dentro? como burlar a casca? é uma aflição tão grande ver tudo pelo efeito, nos escapando o dentro. mas se é o dentro o que mais me interessa primeiríssimo de tudo... então, inverter um pouco: primeiro o que é e então o que eu vejo derivando do que é. e não o que é derivando do que eu vejo. 

por que será que na vida é primeiro o fora e depois o dentro? será que se entregássemos o dentro estaríamos em perigo e indefesos? a capacidade de ver o que é-sendo nos é dada apriori? a capacidade de ver o todo-que é-sendo nos assustaria? há poros nas cascas? há cascas e cascas? há gente sem casca? há coisa sem casca? há cascas sem dentro? há instantes sem cascas? chegamos sempre ao que é de cada coisa?

eu sinceramente uso palavra porque não sei desenhar. é difícil dizer os fluxos, fazer a água caber. no prédio onde eu moro tem vários jardins e às vezes caem tatus-bola pelo chão. eles se perdem dos jardins, esquecem que nem tudo é jardim e terra fresca. então aconteceu que eu vi hoje um tatu-bola caído do jardim. peguei uma folha seca e ele voltou pro jardim. a existência dele encostando na minha e sem a gente dizer nada. outro dia também, de madrugada, eu vi um gato preto passeando pela rua, ele parecia feliz e livre. não há paz igual ao silêncio da madrugada. deve ser porque todas as cascas estão rendidas e cansadas. 

será que pra inverter basta demorar o olhar e então a casca perde o sentido, e o que está dentro escorre e aparece e acontece? e exatamente aí as existências se encostam? não as cascas, que cascas se encostam o tempo todo, afetam-se o tempo todo. as existências, os dentros, se encostam, se encontram. e daí se faz mais vida? assim?

14.10.13






















hoje a noite pede rua. a lua que me disse.


e pensar que numa outra vida estive naquele mesmíssimo lugar pra chorar, quase morta. revisitar os lugares é algo tão interessante porque é um jeito da gente descobrir se ainda há poeira. e chovia tanto naquele dia. mas hoje... hoje a lua me encontrou. olhei pro céu da noite, e bem num espacinho minúsculo entre as folhas estava a lua: eu precisava estar naquele lugar naquele instante pra ver o que eu vi. pra ver a lua tão viva bem no meio da árvore. acima da minha cabeça. eu esperava sem saber? talvez.


aqui no tempo paralelo: tomar cuidado com o pouso. com o retorno, que às vezes a gente quer ficar mais. saber o tempo de atravessar os mundos. porque não há um aqui sem que exista o sendo.


desde sempre e a cada passo, era preciso que eu visse. procuro quem diga perfeitamente sem dizer. na verdade eu mesma não sei dizer nada direito porque pra dizer uma dança eu teria que dançar, eu teria que me escapar inteira. então como é bom quando alguém escapa a si mesmo, é o que eu quero dizer. como um suor que escorre, quero escorrer.


então a noite como eu gosto: com uma lua e tudo mexendo no céu. e quando eu conheço alguém vou logo dizendo: nos meus braços moram rosas.

4.10.13

braços abertos



: todos os silêncios pousando nos meus braços. todos os cansaços culminando no segundo mais bonito. ninguém e todas as coisas. o instante durando nos meus dedos e na noite breve. na ponta dos olhos, outro gole de palavra. me atravessando. balançando as minhas asas. ai de mim se eu saio assim nua e urgente. ai de mim ser um estado de natureza. só que mais e mais sou um gerúndio. acontecendo e nunca fica tarde. a inocência que é estar no profundo estado de urgência. meu pedido de vida: um lugar para os instantes urgentes, onde o tempo não seja falso e arrastado.

30.9.13

Deixar chover




















A pior mentira é a que contamos para nós mesmos. Dar um passo, e depois outro, e depois outro, atendendo aos chamados da alma, tendo a coragem de ver o que houver pra ver: é essa nossa missão de vida fundamental. O resto deriva disso. O resto é horizonte à espera, é vida acontecendo. Escute-se e o que é da vida andará ao seu lado. Deixar chover. Deixar chover.

27.9.13

nem dia nem noite
nem noite nem dia
onde eu pouso?


gosto tanto das manhãs. quanto mais de manhãzinha, mais o ar tem gosto de promessa de vida, mais parece que a vida só começa e não termina.

de tarde não dá mais tempo. devia existir tarde só pra se ver o sol se pondo. a tarde: que não é nem dia nem noite. então à tarde a gente devia ser igual, ser tarde também, entender que dentro da gente está virando noite. mas quem é capaz de dar de cara com sua luz e sombra?

madrugada. as coisas começam a se mexer de novo, a acordar devagarinho. frescas, novas, nascidas no tempo e no não-tempo.


a tarde e a madrugada existem para que o dia e a noite sigam de mãos dadas.
madrugada e tarde deviam ser calmas. dias e noites, vividos. nada mais.

9.9.13

joana

perto da chegada da primavera, a vontade de vida maior, saí pra pedalar. aqui não tem ciclovia (o que tem aqui, afinal?), então vai-se pelo asfalto quente e seco. mas ainda assim, ainda assim!, grita vida por toda parte, por mais seco, por mais que o chão-em-chamas, esse chão duro das cidades, ainda assim!, voa uma joaninha na minha perna. “há de se aprender a voar, vamos voar?”, ela me diz, toda vermelha. e o céu ainda. e tudo lá em cima. a vida que grita, grita, grita - e acontece de repente. 

queima o chão e o vento da noite é diferente do vento do dia. o que ele me diz de dia é assim: calmo, fluido, amarelo vivo, é livre. à noite, o vento é mais calado, mais silêncio do que palavra. à noite o vento é silêncio puro que vai do corpo ao infinito. vento: a voz de cada coisa sendo.

enquanto eu pedalava, pousou uma joaninha na minha perna. nós duas ao vento. ela: vermelha, brilhante, viva. eu: verde e quente no asfalto, o chão me queimando de volta.

uma joaninha pousou na minha perna. eu voei, então?  

23.8.13

poeira e pressa

estou rodeada de árvores enquanto o mundo vai e enlouquece. simples assim: decidi pular pra fora do trem desgovernado. enquanto tanta gente se empobrece de poeira e de pressa.

um dos grandes problemas da forma como se vive hoje é que, ao estarem obsessivamente identificadas com a necessidade de sobrevivência, as pessoas acabam por dedicar cada vez menos tempo e energia psíquica para o desenvolvimento de suas consciências e potências. submetem-se mais e mais a um ciclo insano e automático do qual ficam reféns – e nesse ciclo, ao qual servem sem saber, vão se acostumando a viver sem horizonte.

a saída do labirinto consiste em retirar-se, conhecer-se, atravessar o tempo - para apenas então voltar ao mundo-das-coisas. mas há de se fazer esse caminho sempre e sempre, não uma ou duas vezes nem de vez em quando. falar de um “mundo melhor” ou de um “mundo bom pra se viver” é falar de criar condições para a vida florescer dentro da gente. é falar de indivíduos de mentalidade criadora, colaborativa, conectada, compassiva. é falar de um mundo feito de gente sabendo viver suas próprias potências, virtudes, saberes, gostos e, ao mesmo tempo, uma gente que respeita, que rega, que não se constitui de explorar e depreciar outras vidas.

sou feita de fogo então vivo uma certa urgência como se o tempo estivesse ao contrário. aí, pra me acalmar, eu me retiro, paro o tempo, só volto depois. é preciso, então, sair da servidão (deixar o que nos despotencializa). o que nos espera logo ali, depois do escuro e do susto, é uma vontade de vida - para si e para os outros. vale a pena fazer a travessia.

13.8.13

enquanto isso

sou adepta do “enquanto isso”. tem gente que faz uma coisa e outra. eu faço uma coisa enquanto outra: é bem diferente. enquanto a água do arroz ferve e o arroz cozinha, eu sento pra escrever, leio, adianto algum trabalho, organizo uma gaveta, brinco com os gatos. enquanto o cheiro da comida se espalha. é um jeito de ficar bem viva na espera. e às vezes a comida queima. no mundo do enquanto isso, as coisas podem queimar. é assim que eu cozinho, quase sempre. e a comida, quando vai ficando pronta, muda o cheiro. é impressão minha ou o enquanto isso muda o tempo? 

e para o café eu me preparo toda. enquanto ele vai ficando pronto, me arrumo como que pra uma merecida festa dentro de mim. é que do meu encontro com o café sempre surge uma vontade de vida. tudo que existe ficando mais perto. como estar com os pés bem descalços a beira mar, vendo a lua passar enorme pelo céu de fim de tarde.

colher tempero na horta também deixa os instantes menos duros. eu me componho bem com os cheiros, como se eles me guiassem pelo tempo, dizendo se está quente ou se está frio ou se é cedo ainda. já me peguei pensando algumas vezes: “se eu fosse cega, o mundo todo viria a mim pelo cheiro e pelo som e então como seria a minha vida? como eu seria afetada pelo mundo? e disso decorreria uma outra de mim?”. então, às vezes, quando meus olhos estão mais cansados, eu faço assim: reparo primeiro se não há nenhum buraco, e, bem no meio da calçada, dou uns dois ou três passos de olhos fechados. desacelero. dá medo. estar nesse mundo que a gente vê com os olhos e que é tão pouco do mundo. e acontece que, de olhos fechados, os instantes duram mais. o óbvio da vida nem sempre é a verdade. fico então por conta do corpo. e o corpo sabe o susto que é viver nesse lugar em que não se vê horizonte. ando meio cansada de lugares assim: onde as paredes e o chão e a poeira cobrem tudo. a natureza se desfazendo em desnatureza. por isso o meu total espanto com o mar, que é um estado de natureza. 

eu vou então me fazendo no tempo. tentando ser um eu infinito, no meu estado de natureza. enquanto tudo acontece.

4.8.13

A única coisa que me acalma profundamente, além do mar e da chuva, é olhar para o céu, à noite. Ver que sou uma coisinha minúscula piscando aqui embaixo, nesse planeta insano de humanos insanos, procurando (produzir ou encontrar?) algum sentido pra minha existência. Alguma coisa que justifique eu estar viva. E aí, a existência das estrelas e dos planetas, lá em cima, tão longe, parece de alguma forma se ligar à minha. Então eu penso: "alguma luz há de piscar dentro de mim também". Mesmo que eu não veja, que não sinta, que pareça escuro. A luz da noite é das mais bonitas.

21.7.13




1.7.13

mania de fundura

eu gosto sempre de frisar que eu não me relaciono com o que uma pessoa me apresenta – a não ser na metade de um primeiro instante. eu me relaciono com o que ela é. por isso fico tão à vontade entre os gatos: se você me der algo diferente do que você é, não me serve.

e assim os encontros se dão: do que uma coisa é para o que outra coisa é. não há diálogo entre as aparências. não tem como haver troca de substância entre duas cascas. o que há é o que as aparências deixam escapar, o que passa através delas, e graças a isso não somos secos. graças a isso somos salvos de sermos tão artificiais, de ficarmos fingindo que estamos vivos. essa necessidade de tentar conter a pulsação que nos define: por que tão longe?

ah, sim. tem gente (e momentos) que não dá pra ser-com. quando você tenta uma conversa, tenta outra, tenta evocar qualquer coisa viva do outro, mas não dá liga. “aquilo não é?”, você pensa. não, é aquilo não-sendo. preguiça infinita de gente que não sai nem por um segundo da sua zona de conforto, que não sai nem que seja pra espiar o que há do lado de fora da casca. preguiça infinita de gente que não consegue olhar nos olhos.

teve uma época que eu sofri bullying no trabalho. eu trabalhava numa espécie de redação, fazia clipping de notícias para clientes diversos – algo mecânico e operacional, mas que paradoxalmente me permitia atingir um tamanho grau de cansaço que me levava a escrever, senão eu morria - então, em última instância, o que eu fazia era gerar cansaço para então criar algo a partir desse estado de poeira.

eu acordava num horário insano, folgava só de domingo. tinha um rapaz que era sobrinho do dono da empresa e ele trabalhava na mesma sala que eu, entre outros colegas mais. esse rapaz tinha problemas de caráter e cognitivos, era evidente, mas às vezes eu sentia dó dele por ele ser tão chato, achava comigo que no fundo poderia haver “algo mais”. e esse cara falava tanto, mas tanto, e o tempo inteiro, que eu ia dormir com zunido no ouvido. ele só dizia bobagens, só sabia dar risada escrota. e eu, por não demonstrar nenhuma vontade de participar ou rir das piadas que ele contava, era atacada por ele de várias formas: ouvindo risadinhas, cochichos, climinhas – quem completava a cena de bullying era a famosa neutralidade alheia, as pessoas que riam junto com ele, achando graça ou não do que ele dizia.
 foi um grande laboratório pra mim sobre estupidez e crueldade juntas. nesse emprego, eu só podia confiar em uma pessoa, que eu vou chamar aqui de G. o G gostava de mim e observava tudo que acontecia e sabia quem era quem. sabia o que faziam comigo. e via que eu não conseguia me defender, que eu procurava fazer meu trabalho e apenas ficava quieta e concentrada e constrangida,  aguentando tudo. o G era lúcido e fazia o que eu considero uma habilidade incrível: ele se expunha de um jeito que o tornava invisível para o imbecil verborrágico. ele não tentava evitá-lo ou confrontá-lo, ele simplesmente aparecia, jogando o jogo do cara sem se tornar um imbecil como ele. ele conseguia, eu não. então chegou um dia e o G me disse assim: “Fernanda, você é absolutamente despreparada para a maldade humana”.

e eu nunca, nunca mais esqueci o que o G me disse. e o que ele me disse foi uma verdade terrível: que eu sou uma tonta que procura ver sempre o que há no fundo das pessoas. só que agora eu cansei de ser assim. queria ser diferente. como faz pra não precisar ver o fundo das pessoas? preciso ver mais novela? o que há de errado comigo? é que não sei nadar onde tem pouca água. mania de fundura.
  

28.6.13

ensaio

não, a gente não sabe por que ama. e ao amar todos somos inocentes. porque amar não se escolhe. e mente quem diz que amar basta. não basta. só amar e amar? não basta. pode-se odiar amar quem se ama. pode-se tentar não amar mais. pode ser que o amor dure uma vida inteira. pode ser que o jeito de amar desencontre – uma das maiores dores de quem ama. pode ser que o olhar desencontre. que o tempo desencontre. que tudo desencontre, ainda que se ame. então amar não basta. não bastou. amar é a maior dor que eu conheço.

isso e aquilo

farsas festivas não fazem a minha cabeça. mesmo que delas participe todo tipo de gente, desde os mais hipócritas aos mais coerentes.

acho ótimo que as pessoas acordem, que pensem por si próprias, que tenham senso crítico, mas não adianta: o buraco é mais embaixo. fazer barulho, gritar por justiça, participar da revolução dos vinte centavos, poder dizer “eu estive lá”. que bonito levantar a bandeira. mas quem foi que acordou mesmo?

mesma coisa a parada gay. toda aquela festa. pra no dia seguinte se continuar vivendo escravo da vergonha e do constrangimento de ser o que se é, de amar quem se ama e “ter que” conter tudo isso na frente dos outros.

um dia desses me aconteceu um episódio clássico: o fulano estava acompanhado da namorada e eles se sentaram ao meu lado, no cinema. só que, a cada cinco minutos, a fulana tirava o celular da bolsa para responder torpedo. o celular acendia e apagava, acendia e apagava. o filme passando. eu contei até 500.

- oi, você vai ficar mexendo nesse celular o filme inteiro?


- vou, por quê? tá te incomodando?


- não, imagina. tá uma delícia essa luz na minha cara.

o namorado intercedeu me apontando o dedo:

- vá você se sentar em outro lugar!

não deu tempo de eu formular a resposta que o fulaninho merecia ouvir, então eu levantei da poltrona, aplaudi e disse bem alto:

- parabéns, vocês estão certos, a errada aqui sou eu.

e não saí da minha poltrona. a fulaninha não ligou mais o celular. mesmo enervada, permaneci ali porque não era certo eu me retirar. não era certo comigo. certo mesmo era todo celular que pisca no cinema explodir no primeiro torpedo, mas a vida quase sempre não é como a gente espera que ela seja. enfim.

fulaninhos assim, infelizmente, não são um caso isolado. tinha outros fulaninhos como eles no cinema
- nesse dia e em outros tantos -, com celular piscando nas mãos, gente que está pouco se fodendo para os direitos do outro.

gente que clama por justiça, que veste bandeira mas que não sabe ser justa. gente que joga papel no chão e que se foda que a rua está suja. nada contra a revolução dos vinte centavos. nada contra nenhuma revolução. mas o problema de quando a coisa vira massa é isso: periga virar uma farsa. periga denotar mudanças que, de fato, não aconteceram, primeiro, dentro dos indivíduos que compõem essa massa.

não é porque o povo tá fervendo, que eu vou ferver junto. essa animação festiva devia ferver dentro das pessoas todos os dias em seus mínimos gestos - é o que eu acho. porque eu sou isso que se dá a cada dia. fervo todos os dias sendo o que sou, ajudando como posso e como sei. e sendo justa. e se eu não estiver sendo justa, eu quero saber e mudar. ora, se eu estou com um celular piscando na sala de cinema, e alguém se incomoda, é claro que a errada sou eu e então eu peço desculpas. é disso que eu falo: de reconhecer os direitos dos outros tanto quanto os seus próprios.

eu não aposto em massas. aposto na atitude diária. na criação da vida e na criação do tempo.

quem muda o mundo é quem muda o dentro das pessoas, quem muda o dentro-de-si, para se tornar o que é. e isso quem faz somos nós enquanto indivíduos, essa construção não se dá coletivamente, se dá no íntimo. lendo, vivendo, sendo. e de ser, a gente chega ao outro, influencia sem apelo de massa, que isso não funciona. pode acontecer de mudar o cenário, mudar quem está no poder (e no plano das aparências quase sempre as coisas parecem mesmo mudar), mas no fundo, continua tudo igual, “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”: todos ainda escravos de algum sistema que só mudou de cara. todos ainda sem conseguir criar e levar uma vida própria, com pensamentos próprios, com substância psíquica própria, indo por um caminho de coisa viva.

contanto que não implique em grandes “sacrifícios”, as pessoas estão super dispostas às ditas revoluções, não é assim? basta ir às ruas e pronto: estou exercendo minha cidadania. a ética se resume a isso? aí fica fácil. difícil é sustentar um discurso no dia a dia, praticá-lo dentro de casa e nos arredores da vida. com quem está bem perto da gente. e em todos os lugares.

a polícia agiu com violência. injustificável. o assassino matou uma família inteira. uma brutalidade imperdoável. mas boa parte das pessoas que compõem a sociedade exploram animais e outra grande parcela compra carne no supermercado (só pra citar um exemplo). e aí? como não assumir que não há diferença entre cometer uma e outra violência? admitir o que não é justo (como a existência de um governo corrupto ou a ação de uma polícia truculenta) não implica em refletir, também, sobre os nossos próprios atos de violência?

sinceramente, Brasil? temo pelo que vejo. o que está mexendo é em cima, não embaixo. e pior do que a não-mudança é a aparente-mudança. é que tenho preguiça de berros de massa cuja essência não surja de atitudes cotidianas. não é só político que não presta. tem muita gente do povão festivo-indignado que não presta e que se estivesse no poder seria tão ou mais abominável.

a verdadeira revolução (aquela em que eu acredito) se dá na pia da cozinha. no calada da madrugada. no que dizemos pra nós mesmos quando o dia acaba. na palavra e no gesto que transformam o que a gente está sentindo e o jeito da gente enxergar a vida. no que fazemos com o tempo. no quanto nos damos vida. e quando todo barulho cessa: é aí que tudo começa.

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