17.9.19

cardamomo de manhã

a borboleta laranja
no frescor da rega
bem perto
cheiro bom

fazer da casa uma espécie de floresta: estou quase lá. tem planta no quintal, na sala, no escritório, na cozinha, no banheiro. que calma gostosa existir assim. a louça que nunca acaba e tudo bem. o barulho que nunca acabará e tudo bem. o ônibus que tem sempre uma bunda espaçosa tomando o outro lugar e tudo bem (um dia ainda escrevo um texto especialmente sobre as bundas de atitude). aranhas passando bem perto e tudo bem. o calor me deixando mais lenta e tudo bem. o sonho que eu não entendo e tudo bem. as cortadeiras querendo meu gerânio e tudo bem. as tarefas mentais e pseudo demandas euforicamente disputando minha atenção e eu tendo de dizer a elas com todo amor possível "vão todas tomar no cu" (opa, só agora percebo que com esse texto molho meus pezinhos no lago turvo da irritação). marte em libra que precisa disto: entrar e sair da raiva com alguma poesia, com algum humor. mas a coisa arde: estou vivenciando minha fase holly. 

florais ajudam, ajudam muito. esse lado irascível que aflora quando vem um barulho. só a minha pele sabe o que é: chega a queimar. ontem pra dormir foi um tanto difícil. tentei som de ventilador, som de mar, som de bugio, ruído branco, bege, lilás. até som de sapo na lagoa eu arrisquei. tava foda. meu corpo com sono versus o som repetitivo do ventilador do vizinho — que se fosse um gato miando a noite inteira ou um grilo acasalando, não me causaria insônia. mas estou bem ciente de que a minha raiva não tem razão: o vizinho estava com calor, as paredes são grudadas, ele quis se refrescar a noite inteira, assim como no inverno eu preciso do aquecedor. não, eu não tenho razão. e aí faço o quê com isso que me queima? é ela que eu preciso aprender a usar a meu favor. eis que novamente o meu alvo sou eu mesma. meu semblante sério e calmo engana bem: a estética que até a minha raiva precisa ter. minha mãe é que sabia das coisas, ela dizia que eu era bem zen: zen paciência. mas não é só uma questão de paciência: preciso encontrar a textura do escuro e nela constituir minha nova pele. sigo então nesse meu processo de transmutar essa quentura toda em alguma força interessante — transmutar a bunda folgada, o barulho que arde, em puro devir.

mas eis que o cardamomo neste café simplesmente está valendo a minha existência: tem duração que se espalha pelo infinito engolindo o mundo como faz o sol.

12.9.19

doçura

já era o meio do dia quando entrei na livraria (as horas voam depois das 11 da manhã. fico puta.) entrei e logo achei o livro que era na verdade a minha segunda opção, pois eu tinha entrado com um livro de poesia na cabeça, mas acabei levando uma biografia literária recente, da mesma autora.

tive que soletrar o sobrenome da autora para o rapaz que me atendeu. e o fiz com doçura. fico pensando quantas pessoas não foram grossas e impacientes comigo com coisas que eu não sabia e aí você se sente meio retardado e vem uma autopiedade. tudo muito cafona e dolorido. mas é sério: quantas pessoas ainda não sofrem esse tipo de mau encontro? e aí como se salvam?

mas acontece então que eu soletrei com doçura o sobrenome, sem achar engraçado ou absurdo que ele não o soubesse. ele então me atendeu com a mesma doçura e com uma paciência, disponibilidade e gentileza tão genuínas, que eu me desconsertei. ah sim, gentilezas e inocências - às vezes tão cotidianamente pisadas - me fazem chorar. e também a lua está em peixes.

então nenhum grande acontecimento para contar. é só isso: uma mulher numa livraria, soletrando o sobrenome de uma escritora e se dando conta de que a doçura é realmente tão poderosa como a água do mar tocando os pés descalços.
o cheque

ri sozinha no ônibus lembrando da história do cheque (falar e rir sozinha são coisas que me acontecem com certa regularidade). foi mais ou menos assim: 

- filha, eu tô num mau humor danado.

- que houve, pai?

- cheguei na dentista às quatro da tarde e olha a hora que eu tô voltando. tô morrendo de fome, não consigo nem pensar.

- vamos tomar um lanche na padoca? depois a gente janta lá no Gui.

meu pai concordou com a cabeça e seguimos para a padaria. veio uma moça simpática nos atender.

- senhor? o pão integral acabou porque já estamos quase fechando. 

meu pai pega então o cardápio, contrariado e já quase bufando de fome, e faz o novo pedido em tom um pouco ríspido, enfatizando que queria pouca manteiga no pão. conheço meu pai. ai de nós se esse pão vem errado. eu solto então uma bronca, dizendo pra ele pegar leve e escolher melhor quem "merece" o mau humor dele. ele muda de assunto. o papo segue.

- nossa, filha, que canseira. desde as quatro horas da tarde lá, você acredita?

- e você achando que ia chegar às seis horas aqui... você sabe muito bem que a coisa ali é demorada.

- pois é. muito cansativo. fiquei tão zonzo na hora de levantar da cadeira da dentista que quando fui assinar o cheque errei a assinatura. 

- ai, jura?

- ia pagar parcelado, tive que pagar à vista.

foi quando comecei a rir copiosamente, quase engasgando com o suco. sabe aquela risada que vem na hora errada e você tem que administrar? ele viu que se tratava de comédia e riu junto.

- ia dar dois cheques, dei um só. fazer o quê, né.

10.9.19

"agora não pergunto mais aonde vai a estrada
agora não espero mais aquela madrugada"
(Milton Nascimento)


Vida vista da rede (foto: Fernanda Francoh)
andei lendo uns escritos antigos meus. eu que (ainda) apenas escrevo quando sou jogada nesse lugar. seja por uma presença, por uma fala, por um nada que vem, me encontra e me potencializa. ou um nada que me arranca do chão e me devasta. e nesse ato cartográfico que estou longe de terminar vou encontrando fluxos e entorpecimentos. na escrita é assim: está tudo ali entregue, estou toda ali no ato e no corpo que aquele ato produziu. fico abismada, estou pelada: tudo que sou naquele momento aparece. a escrita é minha pele, talvez. acontece então que essa nudez me permite espiar agora por que buracos andei ou, melhor dizendo, que buracos me espreita(ra)m. 

a porosidade errada que afunda o que pode-ser-em-nós tornando a gente mero caminho ou matéria para coisas que instauram um querer-ser-em-nós. resumindo: por que raios eu fui deixar de gostar da Fernanda Young se eu, no meu encontro com ela, me sentia livre e "poderosa com um capuccino na mão"? e não, eu não estou aqui hoje falando da Fernanda porque ela morreu. eu sequer estou falando dela, embora o que me faça escrever hoje seja ela, com suas fragilidades, beleza, gatos, doçura e toda essa força ingênua, desprotegida e intensamente provocativa que habitava nela — é que a morte tira de nós algumas preguiças: a morte é uma senhora forte que cansou da poeira sobre as coisas. e eu vou dizer que estou bem holly da vida, não com as pessoas que opinam de um tal modo que fazem você se sentir um imbecil se não aderir à visão de mundo delas (por elas já reza a irmã Selma), mas a coisa mesmo é comigo, é a minha porosidade avessada, descompensada, desafinada, que me incomoda profundamente: esse enfiar o pé no buraco cheio de lama e achar que estou mergulhando em fernando de noronha.

não vou escrever como quem conta uma história pra alguém. se escrita é pele, então palavra não é escolha. tenho que entrar e dançar com aquilo que passa. então à merda esse desejo de adequar frase e modos de dizer as coisas. à merda se você acha ou achava a Fernanda Young uma pseudo literatura. não é o que você acha que uma coisa deve ser ou que grau de técnica poética aquilo tem — como se esse atributo fosse universalizável e mensurável segundo os seus parâmetros — mas sim o que aquilo ao se encontrar comigo produz em mim ou o que eu me torno ao me encontrar com aquilo que me diz se algo é BOM ou RUIM pra mim. e o que eu me torno ao me conectar com aquilo que me diz que eu tenho que ler o que aquilo acha que é bom e "poesia de verdade"? ("real poetry" e a cafonice que é a arrogância). mas insisto que o foco esteja em mim, isso é importante, e não na arrogância de quem vem dizer o que é bom ou não, seja a pipoca, o filme, o livro, o autor. meu cu — que agora ando aderindo ao que eu chamo de filosofia do cu. mas acontece que eu embarquei porque algo em mim me permitiu, me lançou, deu liga e quis embarcar. então esse é agora o destino luminoso do meu olhar: o que em mim me fez embarcar no patético discurso do que era bom eu gostar ou desgostar? ai ai. penso agora por que não senti uma preguiça desse tipo de abismo. fiquei suspensa? talvez eu precisasse me perder um pouco? me desviar? como quem prova algo ruim pra só depois saber que não funciona. que cagada não ouvir a própria pulsação.

mas sabe, não importa que uma coisa às vezes demore assim. essa é a coisa boa do slow food: você espera bastante e depois vale a pena porque aquela comida boa precisou de duração para criar consistência. e é esse o processo do descagamento, do mapear nossas cumplicidades. é esse o ponto. importa é estar à espreita com todos os sentidos para criar novos sentidos.

(...)

Mas eu poderia ter dito tudo isso de uma forma mais poética e econômica:

Comendo pipoca e esquecida das horas, percebeu que a sua conexão com a lua nunca deixou de ser intensa, mesmo ouvindo do mundo que a lua era uma pseudo lua.

22.7.19

a dor me causa vontade de dançar.
flor do tempo

a despeito de todas as coisas tão negligenciadas em mim, tem um lugar aqui dentro que é e que segue tão delicado. é uma flor que renasce no tempo. é um sol que sempre amanhece. é uma coisa sendo o que é a despeito de todo o meu esforço contrário.
que horas são

faça isso
faça aquilo
chegue rápido
chegue antes
não pode cantar alto
obrigatório o uso de palavras
olhar nos olhos é perigoso
a nudez é perigosa
esmague o sentimento com os pés
não fique assim descalça tanto tempo
não deixe de cortar as unhas dos pés
lave a louça

café não pode
faça direito
dance direito
fale direito
isso é certo
isso não é
vista-se de alguém que possamos amar.
(foto: cena do curta "Anima", de Thom Yorke)

a cura e as camadas de caos
novos sentidos
nessa música que me amanhece
o caos que não cabe em mim
olho em volta busco um lugar
para me transbordar
derramar, derramar, derramar
como dançar é espalhar as estrelas
que não acabam jamais

26.6.19

ventania

carros invadem
enquanto ventos atravessam
folhas que o vento traz
pássaro amarelo
abacate e fim de tarde
nesga de sol bem no meio da manhã
cantoria que emerge
no inverno onde as coisas já são.

24.5.19

(foto: cena do filme italiano Lazzaro Felice, de Alice Rohrwacher)

















de trás pra frente

experimentou o avesso que era escrever as frases de trás pra frente. percebeu que o começo não era o começo e sim a última camada: a última linha é que era o começo. desagarrou-se do tempo então, pegou o violão e com as duas únicas notas que conhecia cantou sua canção. se lhe perguntassem o que ela sentia, não saberia. mas cantando ela sabia. como quem liberta uma voz ou muitas vozes. chovia.

acabou o filme e eu me poemei toda. fez subir, ferver, doer, vazar. percebi que dos encontros surgem essas rasgaduras que fazem vazar mais realidade. pensei comigo: por que em vez de falarmos que algo é azul, não escrevemos os poemas que foram rasgados na gente ao nos depararmos com o que é azul?

21.5.19


quantas vezes
a dor parecia grande demais
o dinheiro curto demais
o tempo curto demais
tudo longe demais
e o chuchu podendo cair a qualquer momento no quintal.

a cabeça com coisas demais
o fogo queimando demais
água caindo demais
tudo muito
e a flor que brotou e eu nem vi.
mas sempre a roda há de girar
e o tempo das coisas amolecerá
aquecendo as juntas de novo
amanhecendo novas curvas.

1.5.19

imagem: ©mcornelius
vulnerável

se eu estivesse com os olhos no celular eu não teria visto o que eu vi: uma pombinha, no estreito muro que divide a estrada, entre carros e mais carros, infindáveis carros correndo em seu fluxo veloz. de um lado e de outro: carros. aconteceu que eu vi o pássaro e me conectei com ele completamente.
e aí logo caiu minha ficha: "meu deus, como esse pássaro vai sair daí?" e demorou uns bons segundos até chegar a resposta - cruelmente óbvia: o único jeito dela se salvar seria voando.

foi quando, então, a despeito do vento forte no muro, ela começou a dar seus passinhos para frente, se equilibrando entre o que ia e o que vinha, esperando o melhor momento.
mas como? como ela saberia a hora de voar?
andando devagarinho e com a dificuldade focada de quem se equilibra a despeito de tudo, ela foi então andando os seus passinhos, um a um.
apertou o passo, e correndo aos pulinhos voou seu voo errante sobre os carros.
levei as mãos à cabeça. meu coração deu um salto. o mundo parou pra eu olhar aquela coragem. quanta força! quanta vontade de vida nesse voo.
e foi assim que a pombinha usando as suas asas chegou do outro lado da estrada.

3.4.19

ouve

não posso contar
o que o filme conseguiu
o que o instante me cortou
o que o instante me abriu
o quê
não posso contar
mas posso cantar 
enquanto venta
ouve

no metrô lotado, segurava seu livro fechado. sem o livro aberto e com os pés apertados - mas tinha por onde esticar os seus olhos. foi em pé então que o cansaço acordou o tempo. dos tempos inexistentes que a vida brotava a despeito e dos trens lotados dos dias de desespero. onde a vida não acontece espera um canto de areia. e o que eu disse não é o que eu disse e apenas e somente a areia ventando nos meus pés.



9.5.18

dançarino do deserto

eu vi um filme tão bonito: era uma história de um dançarino iraniano que só se sentia livre dançando.
um mestre ao contrário



















no inferno não tem silêncio.


estou sempre às voltas com a questão do silêncio. mudei de casa por conta de uma parede fina que deixava passar todos os sons do vizinho. vim para uma outra casa, aconchegante e com uma varanda de onde eu olho o céu. aqui passam muitos carros e tem um bar quase em frente onde as pessoas sentam na calçada pra comer e conversar alto a qualquer hora do dia, da tarde e da noite. às vezes chegam a ocupar a rua e a fumaça do churrasco queimado sobe como uma música estragada.

me dou conta de uma necessidade quase visceral de um direito a um silêncio profundo onde eu possa não ouvir o barulho dos outros, o barulho invasivo do mundo. teve um dia que chorei o dia inteiro porque estavam arrancando a árvore que embelezava a minha janela. 

durante o dia, todos os dias vazam gritos, carros, caminhões, furadeiras, serradeiras. vazam barulhos por todos os lados, escorrem como água suja: onde houver buraco eles passam. me sinto atravessada de coisas que não gosto, excessivas, 

gritadas e sem delicadeza elas vão entrando como uma comida indigesta. e penso se então eu estaria no lugar errado. 

"se o silêncio é a voz das coisas, então as coisas estão mudas", eu penso. e vou e sigo criando lugares dentro de mim, mundos intocáveis pelo barulho árido, onde eu tenha alguma paz. me conecto com instâncias que me proporcionam esse contato primordial com algo mais profundo, igual é no fundo do mar. e o barulho então me clareia a percepção da necessidade do contrário do barulho.

23.2.18

Ensinamentos de uma lua em capri














Eu devia ter uns 10 ou 11 ou 8 ou 7 anos. Ai, não me lembro. Descíamos do fusca branco, a caminho de casa.
– Deixa, João. Ela precisa enfrentar.
Na minha lembrança de criança, um bando de meninos bem maiores do que eu vindo na minha direção, montados em suas bicicletas gigantes. Vou ser atropelada, estou desprotegida, vou morrer – era a minha pulsação naquele instante que durou até hoje.
Os meninos tinham um ar provocativo-endemoniado. Até que ponto era realmente isso eu não sei, mas no meu sentimento é a realidade com a qual preciso lidar, acolher, deixar ir. Existe o real e o tornado-real. Que eram meninos e que estavam montados em bicicletas, isso eu tenho certeza. Não sei o quanto de realidade eu criei e o quanto eram eles mesmos. Mas isso não importa. Importa que na realidade que levei comigo, eles vinham avançando como numa cavalaria, sem delicadeza e sem escrúpulos. Eu podia ter virado farelinho. Mas não virei. Nada aconteceu – e tudo aconteceu.
Hoje penso sobre o que minha mãe estaria querendo me ensinar. E que talvez ela estivesse certa. Me queria forte. Me queria inteira para o que viesse na minha direção. E mesmo com medo eu devo ter enfrentado, pois não me lembro de ter saído correndo. Mas ficou um ranço – não dos meninos, não das bicicletas – mas da abordagem lua-em-capri da minha mãe. Que cu essa desproteção. Que cu essa vulnerabilidade. Que desconforto absurdo. Sozinha e desprotegida: foi essa a sensação que levei comigo. Será que eu estava pronta pra vivenciar isso? Não importa. O que importa é que algo me foi ensinado ali. E hoje me dou conta do recado. Hoje a ficha caiu.
O que Cecília Meireles teria me ensinado vinte e tantos anos depois, com seus versos “vai, sem caminho marcado. tu és o de todos os caminhos”, minha mãe, ao seu modo, me ensinou também.

25.12.17

passo

seguir sobriamente
um delírio de presença
real e respirável

não sei o que meus passos irão encontrar. o chão que se faz ao longo da caminhada ao mesmo tempo me assusta e me produz. o combate necessário ao que em mim não é a própria vida desejante de vida. e nesse sentido todos os caminhos são e tudo pode a vida na sua própria beleza ainda desconhecida. neste eterno tornar-se. o que me cabe então é estar nesta noite que me acontece. ou nesse dia que me amanhece, nessa tarde, nesse café, e até nessa praça abandonada, no veneno e nas toxinas derramados pela escada. nos meus excessos, nas minhas ruas desertas. no que cada coisa pode ser desdobrada. na vida que escorre, pelos braços até a ponta dos dedos: infinitamente.

2.4.17

















"às vezes treme um pouco enquanto brilha:
como uma lua
atravessando o céu"


e lá estava ela: uma aranha imensa, em pleno voo, tecendo seus novos caminhos. porque "para existir não era preciso pressa" - ela me disse, como quem conta uma piada séria, toda ocupada em ser uma aranha. e então era isso e só isso que tudo esperava de mim: era preciso estar ali e nada mais. e foi assim que a aranha brilhou o seu brilho trêmulo e real diante dos meus olhos.

20.3.17

a borboletinha

ela pousou. e eu me aproximei com todo meu silêncio possível, minha reverência e minha alegria. e sem perceber eu estava dizendo pra ela: eu vejo você. eu vejo você. aí acho que ela gostou de ser vista por mim (viu que eu sorria) e de brilhar totalmente livre bem no meio do dia.

14.11.16

infinitum

toma aqui minha nudez
toma aqui minha solidão, minha lágrima, 
minha turbulenta alegria
e agora?
pois é:
não cabe.
abraço nenhum aguenta o que somos

13.11.16

superlua

das vísceras para a superfície 
dança tuas dores e graças
escancara 
cansa tuas máscaras:
de tanto dançar
surgirá tua realidade mais profunda 
tua potência, tuas cores
teu espanto

29.9.16

a lagarta e eu

uma menina cheia de pressa sacudiu a mochila fazendo cair de si um bichinho.

vi que era comprido, escuro e que se mexia. fui olhar de perto: era uma lagarta indo pra lugar nenhum. e aquela lagarta era eu: ali, no meio do chão onde nada fazia sentido.

peguei a folha de papel que estava perfeitamente disponível. e ela veio pra mim sabendo do que se tratava.

naqueles instantes não olhei mais nos olhos de ninguém, porque nada importava mais, tudo temporariamente deixando de existir, exceto a intensidade inocente de uma cumplicidade recém-descoberta.

desapareci enquanto um mero corpo finito que vai e que vem na vida, sem substância e sem graça, e os meus olhos e tudo em mim servindo a um só caminho que era chegar ao jardim com aquela lagartinha.

: a lagartinha me salvou sem saber.

12.9.16

sobre o autorrespeito

o que nós fazemos quando alguém nos dá algo que não tem nada a ver com a gente? seja um presente, um afeto, um gesto, um alimento: algo que nos seja oferecido, mas que não queiramos, que não nos sirva, que não nos agrade.

sabemos que cada um só vai poder dar daquilo de que dispõe naquele momento. mas o que se dá – e apenas pelo fato de ser dado – deve sempre ser aceito? até que ponto as pessoas estariam preparadas para um "não, obrigada" sem que isso significasse uma resposta violenta a um "ato generoso"?

no ato de dar algo a alguém não estaria embutida uma palavra de ordem? no "direito" de dar, não estaria também implícita a obrigação de receber? até que ponto aceitar algo não é também uma violência (contra si)?

a premissa de que "recusar algo não é educado" passa a ser compreendida então como uma crença que carregamos, como um animal condenado a puxar uma carroça pesada numa estrada que não acaba nunca.

desde que haja um motivo consistente para recusar ou que seu coração diga "não quero", é um ato de respeito para consigo, e em consequência para com o direito ao autorrespeito de cada um, permitir-se não aceitar até mesmo coisas que sejam oferecidas com boas intenções e de forma amorosa. a recusa pode vir na mesma vibração com que se ofereceu, mas sempre partindo do respeito por si, que depois poderá ser estendido aos outros.

você não é obrigado a aceitar um par de sapatos velhos e sujos, por mais que a pessoa que os tenha oferecido tenha agido de boa intenção. caso tenha se sentido ofendido com tal gesto, uma cura é agradecer pelo ato de generosidade daquela pessoa, que ao seu modo considerou que seria legal doar aquilo a você. agradeça internamente, mas deixe claro também internamente que é o seu desejo que esses sapatos e outras coisas que não tenham a ver com você sejam doados para outras pessoas que realmente queiram e precisem. quanto ao autor do gesto, procurar cultivar apenas a gratidão em relação à boa intenção – ainda que desencontrada - de doar a você esses calçados, e que a sua recusa – sempre primeiramente interna – sirva de inspiração para que todas as pessoas respeitem a si mesmas e ajam com mais empatia (= ver e perceber o outro) ao praticarem gestos de doação como esse.

quanto mais organicamente aprendermos a nos permitir recusar tudo aquilo que nos é oferecido e que não nos contempla de nenhum modo– interna e externamente, ou seja, o fora em concordância com o dentro –, mais intensos e verdadeiros serão os nossos sins – tanto para o que damos quanto para o que recebemos.

essa reflexão não prega uma apologia ao não. de forma alguma. mas um sim à percepção de que, primeiramente, é preciso conhecer no seu íntimo os seus gostos, mapear-se, respeitar-se. para então sacar que ao desenvolver a capacidade de recusar o que não lhe serve, estará mais receptivo e livre para o que realmente o alegra.

e esse texto, essa reflexão, você pode ler e recusar. pode ler e não fazer sentido pra você. e tudo bem. ou ler e aceitar, e ter todo um sentido na sua vida. e tudo bem também. o que importa e me alegraria mesmo é você se perceber. se respeitar. não importa qual seja a doação, a questão sempre será: seu gesto de aceitar ou recusar está em consonância com o princípio importante e luminoso, que é o princípio do autorrespeito?

5.9.16

flor do tempo

ela sabia que quando a lua entrasse em escorpião sentiria o alívio dos que saem de uma crise alérgica. a lua encontrando novamente sua natureza fria e úmida: e foi exatamente assim. a segunda-feira que começou lenta, ela decidiu que acordaria agradecendo por estar respirando de novo. e foi lavar a roupa acumulada, limpou a poeira seca e velha que os cantos da casa falavam. e então as coisas que se quebram pelo caminho - ela pensou - deve ser porque serviram de passagem e precisavam quebrar. e o dia seguiu entre o tenso e o divino, como se não houvesse tempo pra mais nada além do agora, nem nenhuma vida que não fosse a sua: era o tempo querendo se libertar do pó que esconde o invisível rio interior. 

mas que forças são essas que sustentam o coração quando o chão parece tremer? diante das coisas tão grandes sentir essa espécie de calma era assim tão estranho quanto não dormir de cansaço. estaria ela anestesiada ou bem desperta? o que doía era menor do que essa força visceral que corria nela ou o que doía era tão forte e grande que a alma dormia? não doer mais era um mistério pra ela: queria entender.

24.7.16

o barco está pronto

ela então me ofereceu um calmante. 

— mas eu não quero me acalmar – esbravejei.

meus olhos ganhando uma cor de céu bravo quando chove. e era um cansaço de muitos tempos. e era difícil saber comigo e com certeza até onde eu estaria sendo cruel e até onde era como eu poderia existir. é que eu sempre me confundo com o tempo de aceitar e o tempo de um não-redondo-de-alma.

e depois do filme foi vertigem e tremedeira. as coitadices do mundo me irritando a um grau irreversível. então decidi estar um pouco no lugar de fome, no lugar da alma onde não vem alento fácil nem amor externo para amaciar as minhas dores. meu barco está pronto. e é o que tenho pra agora: essa raiva, essa vertigem. e alguns clarões. e o mar que não acaba nunca. 

precisarei ser ouvida ou precisarei apenas dizer? apenas lançar meus fluxos ao rio como uma oferenda me basta?

não, eu não quero me acalmar. porque isso seria novamente querer segurar um rio dentro de um copo de bar. vou andar, ainda assim, trêmula assim. assustada e calma, com a loucura que me cabe – amém. e não quero a calma, não quero a calma rasa de quem foge de si mesmo, de quem se abriga no amor do outro. o amor do outro: o pior dos vícios, que é quando você larga das suas danças mais profundas para "amar e ser amado". 

o quando das coisas já não me importa mais. e o que eu preciso agora é isto: estou tentando engrossar a minha casca. 

11.5.16

aquecimento 

[para, cabeça. cala a boca. deixa eu ser qualquer coisa. não me importar com quem vai ler isto, não me importar sequer se isto será publicado. me deixa ser este rio que me percorre sem me preocupar se está isso ou aquilo. olha, estará bom enquanto refletir meus fluxos, minhas percepções do continuum da vida que se mostra pra mim. que da bobagem e da coisa dita distraidamente nascerá também uma fundura interessante. eu sei que é assim: não se pode apertar nada pra que aconteça, pra que seja. tem que se deixar a água ir. e isto aqui é uma espécie de cosquinha inicial, um aquecer a si sem qualquer pretensão de que algo aconteça. e eu preciso disso porque as coisas todas que me acontecem têm uma vida própria e meu trabalho enquanto pessoa que quer ver e encostar e dizer essas coisas é apagar as luzes e ficar quieta. preciso calar a boca da minha cabeça, esse inferno cheio de luz e de informação desimportante - e olha que eu nem assisto televisão. quero o devir manoel de barros, a escuridão luminosa de clarice, quero o cinema e as músicas que me põem novamente no fluxo da vida. ai, cabeça, me deixa olhar o mar sem pressa de viver ou de morrer. me deixa viver sem precisar que ninguém goste ou desgoste. me deixa mexer do jeito que eu sei e sorrir. me deixa na minha urgência primeira, na minha respiração singular. minha ambição é profunda e ao mesmo tempo perigosa: desejo o escuro libertador. mas quero pegar as coisas com minhas próprias mãos, respirá-las nos meus olhos e dizê-las. apagar as luzes então é o que eu preciso fazer agora se quiser dizer qualquer coisa minimamente interessante. fecho os olhos, abro os poros e a alma acende em festa. não quero a coisa bonitinha que rende curtidas no facebook, quero a terra fresca que eu rego, quero a palavra como meio de cavalgar a coisa em si.]

27.4.16

finalmente chovia

seus pés cantaram: era hora de acender a noite 
de estrelas

finalmente chovia 
e a vida se alegrava mais nela

o barulho são as coisas 
existindo de mau jeito

a noite é o lado escuro da lua
e o café é um respiro 
de tudo aquilo que continua

tudo dança
a despeito de sabermos
só que o corpo reconhece -enquanto natureza e silêncio-
o que arde e segue

a noite
é uma taça de realidade 
a transcoisa que a gente quase nunca lembra
e quando acorda
é uma espécie de ressaca:
um intervalo entre uma chuva
e o próximo café.

21.3.16

ser sol

entrar no âmago da experiência e assim existir. seus olhos repletos de um silêncio úmido e profundamente nutritivo. cada grão de tudo servindo aos seus olhos de ouvir. e o calor servindo para esquentar. o calor finalmente deixando de queimar a pele - era esse o seu destino: ser um calor que esquenta sem queimar. o calor que pode doer tanto quando não vira vento de palavra: quando a gente não escorre a própria alma o calor pode matar. então escrever - e ser - como quem respira um mar de realidade: molhar a pele onde estiver quente. e então escorrer, escorrer e escorrer - até enquanto puder brotar a beleza de tudo que é.

11.3.16

soltar 

a nuvem se vai
e eu aqui sob o céu
que a todo instante 
muda

como na tempestade
eu me molho e me molharei
eu aguento e saio viva
depois seco tudo no varal

acontece que
a música da vida 
não me deixa nunca
-quase nunca-
e eu gosto
de cantar

eu saberei a vez 
de me lançar?

26.11.15

suar borboletas azuis

noite é quando acordam as minhas dores alegres logo depois de olhar a lua cheia. ou é quando o chá está quente pra beber. nem que seja por um infinito instante cheio de ritmo. e com as pulsações sempre novas me abraço no tempo. espreguiçar, espreguiçar da poeira. que na solidão também se dança. o mundo me habita, ouço sua música. e continuo, continuo. ah eu descobri: a música é um desenho no ar se fazendo ainda. um espanto bonito. diferente da espera oca: é um estar junto do agora. sem glamour, nem atraso, nem pressa. estar toda dentro do que mexe. a beleza do real, que é quando o pássaro voa. que é quando eu poderia pensar que não está acontecendo nada e uma coisa nasce porque já existia antes. minha febre fervendo: estou pronta de quentura. salto na noite como um vagalume. vendo o rio, sendo suas águas: eu continuo.

23.11.15

e a única coisa que podia acalmá-la era mexer o corpo. soltou-se dos chinelos e com os pés descalços começou a sequência de artes marciais que ela não queria esquecer nunca, ali bem no meio da minúscula cozinha. fez uma, duas, cinco vezes talvez, e foi ali se repetindo até cansar a respiração. até que tudo nela tivesse menos urgente. a chuva caía larga e ardia ainda. o lençol devia já ter secado no varal, e ainda tanta coisa a fazer: a louça, a comida, as coisas da vida: ah, o dia não perdoa. então é assim que a vida vai levando, entre um fluxo e outro, a dança que nunca desiste, a condição suprema que é estar acordada num mundo de carne, osso e paredes.

15.10.15

o vento vem e diz 
sem esforço e sem intenção
dança os caminhos de vento
sopra acende ama
: ama porque dança os seus caminhos de vento

o bom que é o sul denunciando o norte. o bom que é não haver um para-onde. as personas achatadas onde nos escondemos: que em mar raso não se pode nadar. comigo só sei que esse horizonte que me silencia faz de mim um escuro estrelado. e dele colho pitangas. e quase me engasgo com a borboleta branca de tão perto. formas e formas que não mudam mais: "sou isso e sou aquilo", "dormir de noite e acordar de dia". o real inominável em nós tristemente capturado. e o dia que é solar contém agora amor e gastura. fecho então os meus olhos, acordo no mar onde tudo é inédito: toda a água do mar não me engana. eu sei e tudo que importa é eu não me perder do coração do instante que só sabe fluir. 

23.9.15

ser-livre

peguei o passarinho. medo de ele quebrar. eu que nunca tive nas mãos um ser que voasse. perguntei onde ele queria estar e ele me disse.

mas preciso enfatizar: o gato que pegou o passarinho era tão livre e inocente quanto eu e o passarinho. mau pro passarinho. bom pro gato. eu: nem bom nem mau acaso. apenas eu num devir ao qual me senti toda evocada.

será justamente este o cerne do ser-livre: tornar-se fluxo no encontro com o acaso?

17.9.15

sim, era sozinha que se existia. e pra cada instante que acontecia uma força fazia dançar dentro dela. aprendeu aprendeu. aprendeu que não adiantava querer ser outra coisa. 

comprou livro de receitas, foi ao supermercado, voltou e lembrou que tinha esquecido, cantou, tomou banho, abriu janela, conversou com ninguém, amou no fim de semana, se acostumou, foi e voltou, reclamou que não chovia, evitou fila, teve medo de não chover mais, choveu, saiu correndo, pegou as roupas do varal. arrumou os livros. cansou, acordou, sorriu, esperou. errou, acertou, descobriu. correu mais, não chegou. caiu, levantou. encontrou, desarrumou, sonhou, viveu, pulsou, doeu, cozinhou, regou, mudou. abriu e fechou portão no fim da tarde. quis ver o mar, foi ver o mar, sentou e conversou com o mar. trouxe o recado no peito. lembrou e esqueceu. comprou um amaciante que tinha cheiro de fumaça. desistiu, olhou pro céu. cortou o dedo, machucou os pés, criou calo. deu risada. pediu pão na chapa. chorou e se acalmou com a beleza, e escreveu - já que não podia gritar. deitou sem saber que aquilo era voar. viu o tempo oco. e viu o tempo das rosas. jogou coisa fora. batucou na praia. tatuou uma rosa selvagem. sentiu a areia nos pés. aceitou jogar frescobol com o menino alegre. olhou nos olhos do horizonte. dançou sozinha sem se sentir sozinha. descobriu que era feita da mesma poeira das estrelas. ficou zonza depois do beijo. iluminou-se de realidade. e iluminou-se de realidade. viu os abismos de perto, pulou várias vezes. lavou louça na hora do vazio mais seco. respirou. falou demais. interrompeu. teve medo. correu, se atrasou. teve até um dia que regou a planta da vizinha pra não secar. acordou e não sentiu nada, se desesperou. foi à feira, pegou do chão um maço de manjericão. para os livros, era a estante amarela. e a galocha vermelha era para os dias de chuva. consertou o chuveiro. espalhou pétalas de rosas pra ela. colou frase na parede. estudou filosofia, alargou-se. guardou canetas dentro da caneca. fez caber o impossível dentro de espaços pequenos. descobriu que gosta de batata-doce e que fica uma delícia cozinhar o alho na casca junto da pipoca. quebrou um dente na véspera do aniversário. amou mais quando pensava estar perdida. aprendeu sobre o sim e sobre o não. desabrochou - e desabrochou com os próprios pés.

29.8.15

seguir

tinha um talento para os dias. sabia sem saber que seguir era o mesmo que viver. seguir semente de. brotadeira no tempo. fumaça e flor nascendo nela. espinhos rasgando de beleza. de resto é tudo mentira. é querer-ser. só o que é é o que existe e pulsa. e sentia e descobria que um dia se abraçava no outro, pela madrugada. a madrugada: onde o rio encontra o mar. paz é um lugar onde é possível nadar no infinito. e é por isso que me acalma olhar as estrelas no céu. e o grito que não é possível gritar eu transformo em canção que canto de olhos fechados. e de vez em quando acontece de eu ver um milagre. como a flor de arruda que deu no meu jardim. e me fez sorrir e querer fazer uma foto. e em cada gole que decido dar, há o escuro luminoso. o dom que é evocar o café na hora do tempo mais oco. a tagarelice lamacenta em que estamos mergulhados. saber o que se é: se estrela da noite ou estrela do dia; saber se é o quente ou o frio que mais faz pulsar. saber e aceitar. e ser livre de novo. tão difícil. tinha medo de secar de tanto não saber.

18.8.15

passarinho

e subindo a ladeira eu ouvi um passarinho existindo. eu ouvi um canto vindo de muito além dele. era quase noite, e tudo que não fosse o existir tornando-se desimportante. o cansaço e o ar seco virando uma poeirinha. era o cantar a despeito de, encostar na vida a despeito de. porque tudo é. porque aquele canto era a voz de uma coisa que nunca acaba de existir. então a noite passarinho, a rua passarinho, a maçã e tudo, no fundo, passarinho.

3.7.15

"meu silêncio fora silêncio ou uma voz alta que é muda?" (C. Lispector) 

às vezes acordava fora do tempo. era ela uma panela cheia d'água, prestes a entrar em estado de ebulição, a ferver? e água quente, você sabe: se ferve toda pra fora. se derrama. ela então acordou da noite longa e logo cedo já estava fervida. sabia que se essa água não virasse uma espécie de rio que corre para algum lugar, ah, se não fosse esse rio, ela se queimaria toda. era preciso então dispor de um rio para viver. chovia, chovia. e a despeito dela querer assim ou assado, as coisas eram. chover era o silêncio comendo o tempo-oco das horas e enfiando-se pelas frestas. era como se a água finalmente desse vida à terra - e não o contrário. acordou, então. tomou café. lembrou-se do que ainda nem existia. teve certezas daquelas que apenas a instância de rio reconhece. e sem guarda-chuvas partiu para a vida.

27.6.15

lua que cresce

como se a minha realidade fosse um outro mundo - feito das coisas vivas e intensas que acordam porque ali sempre estiveram. e agora se mexem de novo. e de repente o pouso amortecido de quem não sente nada. outro chão, bem mais duro e com uma terceira perna. da diferença entre perceber a maçã e a maçã-em-continuidade-com-tudo: é preciso uma dança antes de dizer uma coisa dessas. ir para uma instância de mim, que significa não estar em outras. ah, a vida não está nos rostos. e o absurdo então acontece: depois que você se perde é que a vida percorre o chão e se abre em música. como o mar nas ondas: indo e vindo, forte e calmo, longe-perto. fiz um mergulho e me enchi de realidade. estou ainda.

12.2.15

da vida

lua e pele dizendo do chão e das estrelas. enquanto o coração pulsa da vontade de soprar palavras fundas. elas que são tão antigas quanto a vida. e nadam em mim. e do fundo do mar eu me ergo. enxergo primeiro pra depois abrir os olhos. que eu posso (e preciso) mergulhar e nadar de volta. ver e desver: para então transver. eis o segredo do fundo do mar.

9.2.15

entre a rua e o tempo

no meio da tarde enluarada sentiu como se carregasse o mundo dentro da sua barriga. doía - tanta coisa pedindo pra nascer e ainda assim: tão no meio do dia. e bem no meio da dor ela decidiu que não desistiria da dor e que nasceria. fez como fazem as borboletas: fechou então os olhos e deixou a pele ir virando realidade. deixou que o tempo. aceitou então a rua e continuou a caminhar. repetiu-se: que respirar era existir de novo.

29.1.15

linha de fuga 















 (...) e alguma coisa em mim vem e vai, vem e vai e se agita: mil entradas e mil saídas. até que finalmente grita, baixo, mas grita: "faz de conta que é chuva". e a força então é a de um grito liberto.

9.1.15

parindo à tarde

Eu: cansada de rótulos, de "sou isso", "sou aquilo", "sou gay", "sou anti-açúcar", "sou abolicionista", "sou a putaquepariu". Algum trânsito de Urano? Talvez. Antes eu via tudo ao contrário: achava que o vegetarianismo tinha que estar no começo, que era o ponto de partida para uma existência minimamente ética. Agora vejo que, como qualquer coisa, o vegetarianismo tem um valor verdadeiramente ético enquanto efeito de uma necessidade de vida que nos atravessa e que nos toca e que nos inclui. Efeito já de um modo de conceber e me relacionar com tudo que vive. Um devir alargado porque a vida precisa seguir e o continuum da beleza-vivente me alegra. Então o vegetarianismo, como o sorriso, como o comer, como o falar: interessantes enquanto efeito de uma afirmação de vida anterior. E não porque disseram que. A dor, a cor, alguma coisa precisa encostar em mim e alterar a minha pulsação e por puro espanto eu continuarei respirando. Devir-vegetariano, devir-palavra, devir-abraço, devir-silêncio, devir-qualquer-coisa: como efeito e não como norma. No filme "Laranja Mecânica", temos a ilustração bastante indigesta da construção artificial de uma suposta ética, onde pra não ser violento, um jovem é "educado" (torturado) e transformado em um ser humano de plástico, fake, com valores fakes, uma ficção e não uma transmutação ou um uso interessante da violência, ou seja, ao meu ver, o filme remete a isto que vivemos, predominantemente: vivemos uma não-ética ou uma pseudo ética, uma ética moralizante e infantil que nos joga cada vez mais para o buraco - aí vêm as ofertas constantes de um céu que nos redima, tipo um carro zero ou um cargo-de-respeito ou rezar x vezes o pai-nosso. A moral nos dá o caminho pronto e nos diz "isso é certo", "vá por aqui" ou "vá por ali", "faça assim, porque eu já fui e sei o que é melhor". A ética não: ela vem aos berros, silenciosa e mortal, ela não fala, ela grita: "vive, vive, vive, vive e dança". E desse grito silencioso, desse viver, tudo se faz. De resto é ausência pura. Ao final do filme "Blade Runner", pergunta-se: "mas quem vive?", e essa pergunta seria interessante fazermos todos os dias: se estamos, de fato, vivendo. Se estamos, de fato, indo e navegando com a nossa bússola imanente. Cantando a nossa própria natureza singular. Deixar-viver, então, é efeito.

26.12.14

o impossível

porque a vespa voar é um milagre. mas ela voa. ainda assim. voa porque não sabe que não pode voar. voa porque não conhece outro jeito a não ser o seu próprio jeito de afirmar a existência. ela vai.
Preciso ir. Assim como o sol nasceu e à tarde precisa ir embora até nascer outra vez. O agora-urgente, que ele não chama: ele grita. Um grito de horror e de êxtase, o grito do calor do concreto que queima, o agora da chuva imensa, o agora das horas que oferecem. Eu não sei mais falar, só sei ir. O falar como um depois da coisa em si, alargado e real. O falar como ato de existência, como pulsação ainda. O agora que arrebenta o tempo e vem e diz. O falar assim.
o raio de perto

Ah eu estive lá. Bem no meio d'aguaceira hora atemporal da tempestade. E na minha frente eu vi um raio. Que foto, que nada: era um raio mais rápido que o tempo. Acontecendo muito perto, do céu até o chão, e só deu pra ver que era um raio e que estava perto. E tudo chovia onde eu era. Mas hoje eu tive a honra, hoje a chuva escolheu mais um livro pra deixar cicatriz: "Singularidades Criadoras", do filósofo Amauri Ferreira . Que não ando sem livro e sem música - a vida que a gente vai e pega com os sentidos do corpo. Então é isso: na minha mochila um tudo de coisas e a chuva foi e molhou o meu livro que era pra ver se eu contava uma história.

25.12.14

Acordou, tossiu, bateu as asas. 
Foi para o lugar mais difícil e mais raro: 
o agora.

2.12.14

quase aqui

o chamado que não diz o porquê. a coisa, o lugar: ai meu deus, a vida anda urgente. e eu sempre esperando a chuva. eu sempre desejando a chuva. não sei até quando, só sei que é assim. e isso deve ser uma espécie de sempre em mim. desejar a chuva. e descobrir que de repente a chuva mesma me constitui. e agora neste instante exato de fim de dia me colo no todo de novo, não sou mais eu, sou todas de mim. e não há certo ou errado, só beleza - torta, reta, feita de sangue ou de vento. se sou? há um infinito que me percorre, então sou.


teve uma noite em que eu chorei e o peito apertou de saudade das estrelas. nem sabia que era possível uma saudade assim. fiz uma foto do meu rosto e olhei: queria saber como era a saudade das estrelas vista de fora de mim. fotografar que é quando me silencio e aceito. que me acalmo de tudo. igual a chorar. ou a rezar. ou a amar. eu aceito o depois e o quando de tudo. às vezes, só de saber que depois chove, eu aceito. ou depois de perceber que sou infinita. antes era mais raro e eu sofria mais. acontece que há uma coisa que não deixa, que não se deixa pronunciar. ela é pela beira, ela é pelas pontas dos dedos, vai ali pelo peito e pulsa pulsa, ela só dança. só existe o perto dessa coisa, não se pega ela nunca. as palavras vão e dançam para essa coisa, sopram, respiram, são. porque encostar no mar inteiro é impossível. então o que se pode fazer é dizer como faz o pássaro: ele voa e assim ele encosta na coisa.

então me deu uma gastura depois do fim de tarde, acumulou poesia de novo bem no canto dos meus pés e nas asas e nos olhos. precisava pegar com as mãos aquela substância delicada, pegar como quem toca a pele da rosa. ir para o voo substancial, ir com os pés, ir para o abismo encantado. até ficar infinita de novo.

25.11.14

vida e poeira 

A poeira como a vida: nada poupa e se espalha pelos cantos. É imortal. É sem-fim, sem-começo, sem porquê ou para-onde. A vida-poeira: que não acaba nunca.

10.11.14

um miniconto astrológico

  — trabalha, formiga, trabalha — ordenava Saturno.

 e enquanto isso dentro da formiga a cigarra gritava mais alto. Saturno servia então ao poder de fazer poesia com a vida que se tinha nas mãos.

4.11.14

um dia no parque

foi assim: o dia estava insuportável porque era calor e estavam enchendo o parque de lixo e barulho. andar e andar e andar como se anda num deserto. 


– lugar errado, na hora errada... - disse baixinho, perturbada - e por que você está cantando?


ela cantarolava enquanto caminhávamos na rua bombardeada. ela, que dispunha de uma alma tão colorida e forte, que conseguia cantar ali mesmo. respirou então, e parando de cantarolar o desespero, olhou bem nos meus olhos:


– porque estou tentando ficar calma...?


então o silêncio. e alguma coisa riu dentro de mim, um riso contrariado porque eu estava tão brava com a vida. uma risada desesperada. uma risada de beira de abismo.


foi quando aconteceu aquilo. estava tão cansada. ah, do barulho do mundo. achei que enlouqueceria. saí correndo e fui sentar num banco perto da beira do rio-tão-poluído. como faz quem não aguenta dar mais nenhum passo. e mesmo querendo gritar, só chorei. e chorei e chorei. de cabeça baixa, as mãos no rosto. queria dar minhas lágrimas pra terra. chorar, que é uma forma de dizer sim pra tudo e depois acalmar. pelo menos isso. dizem que evitar o choro faz mal à saúde e principalmente ao fígado humano. mas eu chorei mesmo de não aguentar mais tanto barulho. como faz um bicho cansado, não o cansaço de um pedreiro ou de um executivo, mas um cansaço antes de tudo incorporal, ancestral, cansaço de quem não acha lugar. 


– deixa eu deitar aqui?


e o meu olhar devia ser de quase-ausência. foi então que parti pra um tempo infinito, fechei os olhos. minhas asas protegidas. meu coração pego nas mãos. ah isso existe. aquela alma infinita e colorida me abraçando com um amor que eu não sabia que existia. e ela não fugiu. humanamente refiz as asas. 


precisava de um silêncio escuro pra me iluminar.

2.11.14

devir-clarice

era domingo. era depois. a gata veio e lambeu seu rosto cansado e amanhecido. seu destino era com os gatos, no ser-com o silêncio deles ela ficava maior e mais calma. foi então num entretempo que ela sentiu vontade. igualzinho quando a flor vai e se ergue no asfalto, ela teve vontade - mesmo cansada. ela que produzia, que fazia, que ia e que cansava, ela teve então vontade e foi enquanto caminhava no entretempo do dia. sentou-se com Clarice ali mesmo, olhou-a com a ternura de quem faz um café sem esperar nada da vida. pensou consigo que queria um pastel de feira com caldo de cana. e que seu dia seria singelo. viu que mesmo no árduo da vida ela podia ser. ela não se esquecia, quase nunca, de viver.

29.10.14

virando dia

a rua tão calma, tudo dorme. mas aqui dentro há um caos colorido, e o que eu quero dizer é do tamanho de um oceano. ah se eu me embalar nos meus excessos corro o risco de me sair ventando e o vento pode virar algum barco. é preciso cautela e prudência pra navegar em alto mar. eu não quero nada além de dizer, não a coisa em si, mas a pulsação da coisa. a pulsação que é inocente em si. ir pela palavra então é uma forma de conhecer a natureza da coisa. como quem beija e funda um outro tempo. e se eu puder pedir, peço isso: que as pessoas saibam ser-consigo. antes de tudo, isso. e que tenham paz e pouso. o dever-ser como caminho fácil pra lugar nenhum. árduo mesmo é ir pelo desejo. que o desejo é quem sabe do âmago das nossas forças. é ele que ergue as mangas pra criar. é dele que vem o ar. e a gente sabe se o caminho é o nosso na medida em que a gente se alegra com a chuva... quero estar assim: no perto das minhas chuvas, sem medo da cor que é existir. saber de mim, do que me atravessa. ser-com a estrela da madrugada. e isso é bonito porque respirar a estrela acende o meu peito de imensidão. e eu sou simples, infinita e inacabada. estou aprendendo a viver.

22.9.14

Sua Vênus quer dançar

Nunca vou deixar de gostar de ouvir Arrepio no modo repeat. Nunca vou deixar de me sentir tão viva no silêncio que é quando eu encontro com o mar. Nunca vou deixar de sentir meu corpo virar mais corpo quando minha alma dança e vice-versa. Nunca vou deixar de me acalmar quando chove. Nunca vou olhar nos olhos e não sentir nada. Nunca vou regar uma planta e não querer sentir o seu cheiro. Dizem que nunca não existe mas e se o nunca for um sempre atravessado no tempo? Um sempre de mim que me espera e me segue como uma sombra? Desse sempre-nunca, então, vou fazer a minha força. E é com ele que vou me libertar: pegando esse sempre de mim, levando comigo, fazendo ele dançar.

21.5.14

dance

porque dentro de mim há um lago fundo, um alto escuro luminoso que nem eu conheço direito. há em mim o tempo das coisas, vestido de borboleta amarela. vestido de rosa da noite. eu então dou um passo à frente, tiro o tempo pra dançar. arrumo a gravata e a saia, estou descalça. estou de joelhos. agora sou eu que te levo, tempo? que eu aprecio dançar.  

a verdade é que uma dor tem em si todas as dores e cansaços ancestrais. às vezes a vida dói e parece que vamos quebrar, mas não. porque o tempo vem dizer assim "é a minha vontade" ou será que ele diz "eu te desafio" ou "a vida é tudo e qualquer coisa" ou "calma e desespero são a mesma coisa" ou "dança simplesmente"? ah, me resta, como sempre, fazer o que se faz quando vira noite: eu vou até dentro do vento, procuro no escuro as faíscas. 

o que aconteceu é que eu não sei mais viver sem estar viva.

20.2.14




Aprendendo que esperar qualquer coisa que seja gera angústia. Esperar no sentido de querer que algo seja assim ou assado é um jeito de engessar-se no tempo, é um jeito de ferir o supra-sumo do acaso. Eu prefiro o desejo que deseja e inventa com o próprio passo e daí o que se encontrar é caminho. Caminho de uma potência que, ainda que tremulamente, deseja se efetuar.